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A normalização da violência contra as mulheres nos ritmos musicais

As pessoas cantarolam letras famosas em que a mulher é tratada como vilã ou objeto e não conectam tais ações com a violência cotidiana.

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A normalização da violência contra as mulheres nos ritmos musicais
Não importa o ritmo, nas letras de músicas a mulher, invariavelmente, é tratada como objeto ou vilã da história. Foto: Freepik

Aida Franco de Lima – OPINIÃO

A violência contra a mulher sempre foi silenciosa e fez dela uma espécie de mártir que aguenta as dores mais cruéis por conta de seu nome, sua família, seus filhos, seus sonhos. Basta um olhar para as artes de modo geral e da própria história.

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Nas artes plásticas, no cinema, na música, no teatro, nas músicas, nas óperas etc. Quantas histórias em que o sofrimento da mulher é engrandecido, nas quais ela tem de vencer os mais variados desafios, para então ter direito à felicidade? Como se as conquistas, para que sejam validadas, precisem ter, necessariamente, o rótulo do sofrimento. Uma mãe que cuida da casa e dos filhos, sem tempo para si, é somente uma mãe. Um homem que posta uma foto nas redes sociais lavando uma louça é um guerreiro.

De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) de 2022, são 52% os lares brasileiros chefiados por mulheres. Ou seja, mais de 41 milhões de domicílios são mantidos pelas mulheres. E ainda assim é bastante comum que a mulher seja tachada com a vilã da história, e o homem, o pobre coitado.

Nas “letras” de músicas, são basicamente três estereótipos: a mulher “traíra”, o homem que ama demais e a mulher objeto. O repertório não muda. Há uma letra antiga, de Pedro Bento e Zé da Estrada, que estigmatiza até mesmo a fêmea do joão-de-barro. Ela diz que o pobre passarinho, enquanto trabalhava, era traído por seu amor. E que, cego de dor, ele trancou a porta da casinha que ele construía e deixou a “sua amada” presa para sempre. Mas, na letra da música, o homem afirma que ele teve calma para apenas colocar a mulher para fora de sua vida.

Nas letras de “breganejo” e “funknejo”, a mulher é o objeto de cobiça, vista somente como um objeto sexual. É sempre a mulher o motivo das bebedeiras e das desgraceiras que o indivíduo comete. Quem nunca cantou Boate Azul que atire a primeira pedra. Doente de amor, o pobre coitado vai para a vida noturna em busca de quê? E o rapaz que dorme no banco da praça, que diz para o guarda que não é delinquente, só um cara carente? Tem um tal de MC Livinho, o qual anunciou pausa na “carreira”. As letras do que é chamado de música precisam de algumas doses de Epocler, para quem tem o estômago mais sensível.

Mas o que as letras de músicas têm a ver com violência contra a mulher? Tudo! Quando se normaliza a violência e isso vira diversão. Quando as próprias mulheres relativizam que os corpos femininos sirvam só como objetos de desejo. Quando a violência contra a mulher e o controle sobre sua vida e emoções são tidos como sinônimo de amor.

Os dados são alarmantes, e a cada dia a sociedade se pergunta o que está acontecendo com os casos de feminicídio que tomam conta dos noticiários. Eles sempre existiram, porém, com as redes sociais, a informação alcança mais pessoas.

  • Em 1986, Cristina Lopes Afonso era recém-formada em Educação Física e teve 85% do seu corpo queimado por seu namorado, que jogou álcool e ateou fogo. Seu caso teve repercussão mundial, e ela recebeu ajuda inclusive do piloto de Fórmula 1 Niki Lauda, vítima de acidente que lhe causou queimaduras. Cristina sobreviveu e fez de sua vida uma batalha em prol da recuperação de queimados. Somente em 2019, o criminoso foi condenado. De 21 anos de prisão, sua pena caiu para 13. Foi o primeiro caso de tentativa de homicídio com vítima viva julgada em tribunal do júri.

Hoje, em 2026, basta abrir os sites de notícias e lá estão os casos mais levianos de violência contra a mulher. Um dos mais recentes deles, que ainda está em investigação, que causou mais repercussão, é de um adolescente de 17 anos com histórico de organizar grupos para estuprar meninas do seu colégio no Rio de Janeiro. 

https://www.h2foz.com.br/planeta-foz/vidas-do-iguacu/historias-mulheres-ajudaram-construir-foz-do-iguacu/No Dia Internacional da Mulher, as mulheres só querem seguir sendo respeitadas e vivas. Principalmente, na vida real, pois nas letras de músicas cabe às próprias mulheres não dar palco a esse tipo de conteúdo.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

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    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente.

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