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De volta para qual casa?

Enquanto a CNBB conclama a sociedade a discutir sobre a moradia digna, Câmara de Foz do Iguaçu 'soluciona' a questão com uma passagem do nada ao lugar nenhum.

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De volta para qual casa?
Detalhe do tema da Campanha da Fraternidade 2026, do canadense Timothy Schmalz, que retrata Jesus deitado em um banco, cujo cobertor deixa visível os pés feridos. Foto: CNBB

Aida Franco de Lima – OPINIÃO

A questão dos moradores de rua, andarilhos ou desalentados cresce a cada dia nos mais variados tamanhos de cidades brasileiras. Inclusive é o tema da Campanha da Fraternidade 2026 lançada pela Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) intitulado “Fraternidade e Moradia”.  E qual é a medida encontrada para lidar com essa situação? Em Foz do Iguaçu, a saída arranjada parece ironia. A Câmara Municipal aprovou, em sessão realizada no dia 5 deste mês, em dois turnos, o projeto de lei que cria o Programa Volta para Casa. Uma iniciativa que tem como objetivo oferecer apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade social para que retornem à sua cidade de origem, fortalecendo vínculos familiares e comunitários, diz o texto da lei. Mas a pergunta é: para qual casa eles irão voltar?

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Não é fácil resolver uma situação que envolve vários lados de uma moeda. De um, está a sociedade, que se sente insegura diante de grupos que muitas vezes estão embriagados e drogados, capazes de fazer, principalmente, mulheres e crianças alvos fáceis. A insegurança também está no trânsito, no qual eles tomam os semáforos em busca de moedas ou quando brigam entre si e colocam em risco a integridade de transeuntes.

Em Cianorte, as notícias recentes são de relatos de um ex-detento que voltou para a cidade, virou andarilho e passou a invadir residências. Só foi parado depois de envolver-se em briga e parar num hospital. Há outros relatos de andarilhos que esfaqueiam animais e assediam mulheres, enquanto elas estacionam seus veículos. Certamente o caso se repete pelo Brasil afora.

  • É importante que uma Câmara de Vereadores se debruce sobre o tema, mas um projeto de lei que se limite a despachar pessoas para um destino não tem nada a ver com acolhimento. Esse tipo de serviço, quando uma pessoa precisa de passagens para chegar a determinado local, normalmente já é feito pelo setor de serviço social dos municípios.

“De autoria do vereador Cabo Cassol (PL), o Projeto de Lei nº 59/2025 foi discutido em plenário, momento em que o parlamentar destacou que diversas cidades enfrentam o aumento da população em situação de rua e defendeu a proposta como uma alternativa de acolhimento. Segundo ele, ao viabilizar o retorno dessas pessoas ao convívio familiar, abre-se a possibilidade de reconstrução de suas trajetórias de vida”, diz matéria deste H2FOZ.

Essa parece ser mais uma medida populista, higienista e que lembra bastante a aporofobia, que é a aversão aos pobres. Como quando se colocam pedras pontiagudas embaixo de viadutos para impedir que o local seja usado como abrigo.

Estamos falando de um universo de pessoas que estão nas ruas por inúmeros motivos, que giram em torno de vícios, problemas de saúde mental, desavenças familiares, entre outros. E a ruína financeira acaba levando todos eles para a sarjeta social.

São inúmeras as entidades beneficentes que fazem o trabalho de acolhimento e que proporcionam alternativas para que essas pessoas tenham alguma alternativa de mudança de vida, que não se resuma a mudar de cidade. E que precisam de investimentos financeiros para dar conta da demanda. Talvez se os vereadores saíssem de seus gabinetes e fossem ver na vida real quais são as demandas, os projetos de lei tivessem mais consistência. Não basta “desovar” as pessoas para outras cidades. É preciso ir além de uma passagem sem volta.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.

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    Aida Franco de Lima

    Aida Franco de Lima é jornalista, professora e escritora. Dra. em Comunicação e Semiótica, especialista em Meio Ambiente.

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