Aida Franco de Lima – OPINIÃO
O filme O Agente Secreto faturou dois troféus no consagrado Globo de Ouro, no último domingo. Os prêmios foram na categoria de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, ambos concedidos ao diretor Kléber Mendonça e ao ator Wagner Moura.
A obra conta a história de um professor de tecnologia que, no ano de 1977, muda-se de São Paulo rumo aos ares de Recife em busca de sossego. Mas junto da sua bagagem segue também o odor da ditadura militar, que dava as cartas do jogo político brasileiro e iria imputar-lhe uma jornada fugindo de perseguições e todo o cenário que tal sistema político promove.
Kléber Mendonça, em seu discurso, entre outras falas, frisou a necessidade de os diretores atuais se atentarem ao quadro político contemporâneo, para que esses acontecimentos não sejam ignorados e esquecidos.
Wagner Moura seguiu a mesma linha e destacou: “O Agente Secreto é um filme sobre memória, a falta da memória e o trauma geracional. Eu acho que, se o trauma é passado por gerações, valores também.”
No ano de 2025, outro filme brasileiro, Ainda Estou Aqui, também foi premiado na categoria Melhor Atriz em Filme de Drama, concedido a Fernanda Torres. Nele, é narrado o drama de uma mulher, Eunice Paiva, que teve sua família devastada com a cassação, prisão e desaparecimento do seu esposo, o deputado Rubens Paiva, durante a ditadura militar.
Os filmes mencionados causam uma tensão na sociedade brasileira atual, pois, enquanto uma parte comemora a preservação de nossa memória, uma outra alega que tudo não passa de ilusão; que a ditadura militar é coisa de esquerdista.
Do mesmo modo como muitos negam a ditadura, há os que questionam também a existência do nazismo. Por tratar-se de um acontecimento de há quase um século, relativamente distante das gerações atuais, aos poucos as testemunhas oculares do regime deixam de existir. E por isso a importância dos registros, das datas, dos monumentos que façam com que a sociedade seja lembrada, constantemente, do ocorrido.
Há um filme, bastante usado nas aulas de História, que se chama A Onda. Ele é de 2009 e foi baseado em um experimento social de 1967, quando um professor de uma escola da Califórnia pediu aos alunos uma atividade prática, em que seria demonstrado como nascem e se propagam regimes autoritários.
No filme, estudantes de uma escola na Alemanha questionam a real existência de um regime como o nazismo e se a sociedade realmente permitiria tal atrocidade. O experimento foge do controle quando, com exceção de um aluno, todos os demais acatam os comandos.
- Mas parece que alguém andou faltando às aulas durante o ensino médio, em Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte. Ocorre que na formatura do curso de Medicina, no último final de semana, o primo de 13 anos de duas formandas apareceu vestido com o uniforme do Exército Alemão: com coturno, calça, jaqueta, braçadeira e insígnias, e o corte da vestimenta típica do período. Só não tinha o bigode famoso porque se trata de um adolescente.
Nas imagens das câmeras de segurança não há o registro de sua entrada fardado. Mas vai aparecer de tal forma na mesa da família e na foto. Inclusive com os familiares fazendo saudação nazista. Nas redes sociais, há menções de situações similares em que o mesmo adolescente se veste com o mesmo uniforme. A apologia ao nazismo, no Brasil, não é liberdade de expressão. É crime!
Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto e A Onda são exemplos da importância do registro da memória e provam que nossa sociedade, mais que em qualquer outro momento, tem acesso facilitado à informação. Porém, muitos preferem as mensagens que são convenientes e que conversam com seu pensamento. A realidade que lute!
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