O desrespeito às crenças religiosas e a ocorrência de ataques a fiéis dos mais diferentes credos foram debatidos no Fórum Inter-Religioso de Combate à Intolerância Religiosa, realizado neste domingo, 29, na Mesquita Omar Ibn Al-Khattab, em Foz do Iguaçu.
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O evento, aberto ao público, recebeu cerca de 250 pessoas e lideranças que professam a fé por meio das religiões de terreiro, católica, islâmica e evangélica.
Conselheiro religioso da Associação Nacional de Juristas Islâmicos (Anaji) e vice-presidente da União Nacional das Entidades Islâmicas (UNI), o xeique Jihad Hammadeh abriu o debate lembrando o primeiro tratado inter-religioso da humanidade, o Tratado de Medina, que unificou tribos árabes e comunidades judias.
Hammadeh disse que para se alcançar a tolerância só são necessários pequenos esforços e garantia da dignidade da pessoa, mesmo que a crença dela seja diferente. Ele frisou que todas as guerras começam com palavras. “É meu direito discordar de todos, mas não é direito de ninguém de desrespeitar.”

Advogado e representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Luciano Lima mencionou que a Constituição brasileira dá direito à liberdade religiosa e ao cidadão ter qualquer religião. “O desafio é que as pessoas possam professar a fé com segurança e dignidade, sem serem atacadas”, frisou.
Para ele, outro desafio é fazer com que quem descumpre esse direito seja punido.
Representante da Igreja Católica, o bispo Dom Sérgio de Deus citou palavras do papa Bento 16. “Somos chamados a construir uma cultura do encontro.” Ele também destacou a declaração de 1965, um diálogo ecumênico e religioso.
Já o pastor Gilson Alcântara destacou a necessidade de trabalhar com a empatia nas comunidades, como forma de combater a intolerância.
Intolerâncias e ataques
Representando a Câmara de Vereadores, Anice Gazzaoui realçou que, ao mesmo tempo em que há avanço na tolerância, existem retrocessos. Segundo ela, várias muçulmanas a procuraram no primeiro mandato para mudar a lei que exige a retirada de vestes para fazer fotos oficiais. A vereadora salientou que mulheres foram tratadas de modo agressivo ao serem interpeladas para retirar o véu para fazer as fotos.
Ela também relembrou o episódio recente de violência contra duas muçulmanas em um shopping de Foz do Iguaçu.
Advogada, diretora social da Anaji e integrante da Comissão Inter-Religiosa de Juristas e do Grupo Inter-Religioso Diálogo e Paz, Jamila Hussein afirmou que existe muito estigma e desinformação, principalmente em relação ao Islã e ao uso do jihab — véu islâmico.

Presidente do Conselho Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais, Laysmara Carneiro Edoardo enfatizou que as religiões têm trajetórias diferentes, porém o caminho é o mesmo. De acordo com ela, em relação ao racismo religioso, a forma de combate é a criminal.
Representante das religiões de terreiro, Laysmara contou haver muitas denúncias e reclamações de sons dos atabaques como perturbação de sossego. Contudo, questionou, por que o terreiro precisaria de isolamento acústico, e a igreja evangélica não? “O que vale para as religiões convencionais precisa valer para a gente”, declarou.
Para Laysmara, enquanto houver um símbolo com crucifixo no Congresso Nacional, não será possível alcançar a liberdade religiosa, pois, lembrou, o Estado é laico.
Ao final do encontro, uma carta de compromisso foi assinada pelos participantes para ser encaminhada à Câmara de Foz do Iguaçu.



