Por Manuel Corman | OPINIÃO
Foz do Iguaçu, no dia 20/12/2025, vestiu-se de gala para o que parecia um cenário do Festival de Cannes. Helicópteros sobrevoavam a fronteira, carros oficiais cortavam as avenidas e o brilho das lentes da imprensa anunciava: atores importantes decidiam acordos comerciais entre o Mercosul e a União Europeia.
O vídeo começa com um trecho do discurso de inauguração da ponte da integração um dia antes do encontro do Mercosul, 19/12/2025, e tenta mostrar o que tem por trás desses acordos globais e os impactos concretos no território.
Nos últimos anos, Foz do Iguaçu vem sendo redesenhada para fortalecer o eixo como um corredor logístico continental. Desde 2019, com a construção da Ponte da Integração, e a partir de 2021 com a Perimetral Leste e a quadruplicação da Avenida das Cataratas, a cidade passou a integrar um eixo estratégico que liga o Atlântico ao Pacífico para facilitar o transporte de mercadorias.
Hoje, faz cerca de cinco anos de obras, vivemos entre dois grandes projetos que estão concluindo agora. No mapa, isso aparece como desenvolvimento. No território, como transformação e impactos ambientais profundos. Quem mora aqui conhece o impacto de viver dentro de um canteiro de obras: barulho, mudanças rápidas na paisagem, fragilizando cada dia nossa sensação de conexão com o lugar.
Quando chegamos ao Bairro Mata Verde, acreditávamos com bastante certeza que o traçado da Perimetral seria revisto. Não parecia razoável passar dentro de bairros e desmatar um dos últimos fragmentos de floresta da cidade — ainda mais uma área prevista no Plano Municipal de Conservação da Mata Atlântica. Mesmo depois do início do desmatamento, ainda havia esperança de mudança. Pensávamos que o projeto poderia ser ajustado, que aquele espaço poderia se transformar em um parque.
Mas o que aconteceu foi o contrário, quando começou empedrar para asfaltar não teve mais esperança, caminhões e máquinas passaram a ocupar o território. O que antes era um espaço de vida se tornou um espaço de passagem para fluxos de mercadoria.
Esse processo revela um conflito claro entre diferentes formas de pensar a cidade. De um lado, a lógica da circulação e da infraestrutura. Do outro, a experiência e as tentativas de criação de pertencimento de quem vive no território para devolver a vontade de proteger seu lugar.
Foz do Iguaçu foi colocada no mapa global. Um ponto estratégico, um hub, uma conexão entre mercados.
Mas, para quem vive aqui, a pergunta é outra: estratégico para quem?
O território visto de cima parece coerente: linhas retas, conexões eficientes, fluxos contínuos. Mas, no chão, a cidade se fragmenta. Rodovias como a BR-277, a BR-600 que dividem a cidade e a ampliação da BR-469 dividem bairros, dificultam a travessia e priorizam os veículos.
A cidade se organiza para o fluxo. Não para as pessoas. Não é só o espaço que se fragmenta. É também a sensação de pertencimento.
Desde a construção da Hidroelétrica Itaipu, esse processo vem se intensificando. Um corte que não é apenas geográfico, mas também simbólico. Como se o território deixasse de ser um lugar de vida, apenas um espaço de uso. E colocamos quem mora aqui como um assunto marginal. As grandes potências se direcionando rapidamente para a quinta revolução industrial. Mas precisamos recursos para alimentar este pedido de energia, pedaços do Brasil, sendo levado para outros cantos do planeta.
E isso, o aumento cada vez maior de necessidade de extrair, está virando uma questão central em Foz do Iguaçu hoje: o aumento da distância entre quem vive o território e quem decide sobre ele. As decisões vêm de escalas externas — nacionais ou internacionais — e chegam prontas. O território passa a ser tratado como suporte para fluxos econômicos, enquanto sua dimensão social e ambiental perde espaço.
Diante disso, surge a necessidade de registrar. O vídeo que acompanha este texto é uma tentativa de documentar esse momento e abrir uma reflexão. Ele parte de uma pergunta simples, mas urgente:
De quem é o território? Entre o global e o local — o “glocal” — Foz do Iguaçu vive um ponto de virada, muitas obras estão acontecendo e outras estão por vir. A cidade pode continuar se consolidando como um espaço de passagem, orientado por fluxos e interesses externos. Mas pode também começar a repensar suas formas de desenvolvimento, buscando equilíbrio entre economia, meio ambiente e qualidade de vida.
Enquanto isso, no bairro Mata Verde o progresso ainda tem o ruído amargo das máquinas, o cheiro do fim da floresta e o som do trânsito. Eles aparecem no som das máquinas, no vai e vem dos caminhões e no desaparecimento silencioso da floresta, da água e das formas de vida que antes habitavam esse território. No final das contas estamos adoecendo nosso ambiente e nós mesmos. Uma tomada de consciência é mais que necessária.
Manuel Corman é artista visual, graduado em Cinema e Audiovisual e mestre em Integração Contemporânea da América Latina (ICAL) pela UNILA. Integra o TIPPA – Grupo de Pesquisa Territórios Interioranos, Paisagens e Povos na América Latina – e o CAFI – Coletivo Ambiental de Foz do Iguaçu.

