H2FOZ

Paraguai

Início » Paraguai » O que os acordos entre EUA e Paraguai representam para o Brasil e a Tríplice Fronteira?

Paraguai

Geopolítica

O que os acordos entre EUA e Paraguai representam para o Brasil e a Tríplice Fronteira?

Articulação geopolítica e interesses da China e Estados Unidos impactam América Latina e Brasil

8 min de leitura
O que os acordos entre EUA e Paraguai representam para o Brasil e a Tríplice Fronteira?
Paraguai e Estados Unidos possuem ampla parceria em áreas como segurança e cooperação militar. Foto: Gentileza/Embaixada dos EUA no Paraguai

De que modo os recentes acordos firmados entre os Estados Unidos e o Paraguai no setor de segurança e para fornecimento de energia hidrelétrica podem impactar o Brasil e a América Latina? Para tentar entender um pouco mais sobre essa articulação geopolítica, o portal H2FOZ conversou com dois professores especialistas no assunto.

Economista e professor do Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina (PPG-ICAL), da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Fábio Borges ressalta que a América Latina é uma região que vive sob crescente tensão envolvendo o interesse de duas potências que são os Estados Unidos e a China.

O Paraguai ainda apresenta uma particularidade. É o único país da América do Sul que mantém laços diplomáticos com Taiwan, fato que facilita aproximação com os Estados Unidos, principal rival da China na corrida pela hegemonia global.

Atualmente na América Latina, aponta o professor, há apenas dois governos com maior autonomia para fazer frente aos Estados Unidos, que são o do Brasil e do México.

Leia também:
Data center de IA no Paraguai com energia de Itaipu: saiba mais

Ele avalia que o sequestro de Nícolas Maduro, em janeiro deste ano, já evidencia a intenção dos Estados Unidos de buscar recursos na América Latina, especificamente o petróleo na Venezuela e as terras raras no Brasil.

Vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, visitou Itaipu na quarta-feira (21), acompanhado pelo presidente Santiago Peña.
Vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, visitou Itaipu na quarta-feira (21), acompanhado pelo presidente Santiago Peña. Foto: Gentileza/Presidência do Paraguai

No Paraguai, um dos principais ativos é o acesso à energia produzida pela Itaipu Binacional, que será usada para alimentar um centro de inteligência artificial (IA). O uso da energia limpa de Itaipu foi viabilizado a partir de um acordo entre uma empresa norte-americana e uma paraguaia, com perspectiva de entrar em funcionamento no primeiro semestre de 2027.

O docente lembra que o histórico de intervenções estadunidenses na América Latina não é novo. Com o pretexto de combater as drogas, os Estados Unidos tiveram ascensão em países como Bolívia, Peru e Colômbia.

Interesses brasileiros

Para Borges, o controle da energia de Itaipu pode afetar os interesses brasileiros e impactar o valor da tarifa da energia elétrica para o consumidor. Em tal contexto, há possibilidade de o Paraguai rever acordos anteriores selados com o Brasil. “É capaz que o Brasil faça concessões”, sinaliza.

Apesar de a Itaipu ser uma binacional brasileiro-paraguaia, 50% da energia produzida é destinada ao país vizinho. Porém, na negociação estadunidense-paraguaia sobre a inteligência artificial, o Brasil não é mencionado.

Outro ponto destacado por Borges é o acordo do Escudo das Américas, uma espécie de aliança de governos conservadores liderada pelos Estados Unidos para coordenar ações de segurança em países ocidentais.

Na América Latina e Caribe, 14 países integram o Escudo das Américas, exceto México e Brasil, que ainda conseguem manter uma certa autonomia em relação aos Estados Unidos.

Ele ainda frisa que o interesse dos Estados Unidos na América Latina se explica porque o país do Norte não é autossuficiente em 80% da matéria-prima necessária à fabricação de aparatos tecnológicos. Uma das fontes é justamente as terras raras, cujo segundo maior detentor no mundo é o Brasil, depois da China.

Terras raras e energia

Entrevista: Paulo Renato da Silva, professor do curso de História na Unila

Qual é o significado desses acordos entre Estados Unidos e Paraguai para a América Latina e o Brasil?

Esses acordos representam o avanço dos interesses norte-americanos sobre a América Latina, o que prejudica a integração entre os países da região. Passamos de um período marcado pela busca de convergência para outro, marcado na atualidade por divergências e desconfianças crescentes. Os Estados Unidos vivem um momento político favorável na região, com presidentes alinhados aos seus interesses. Além disso, o país usa o seu poderio político, econômico e militar para impor condições e, claro, sabe tirar proveito das disparidades existentes entre os países latino-americanos. No caso do Paraguai, os Estados Unidos se apresentam como um “aliado” poderoso frente a um vizinho forte como o Brasil.

Os acordos na prática indicam a materialização da política de exploração de recursos naturais e invasão da soberania?

Sim, mas essa exploração de recursos naturais e invasão da soberania não é algo novo. Entretanto, tem atingido um novo patamar na atualidade. Especialmente a consolidação da China no cenário internacional levou os Estados Unidos e, particularmente, o governo Trump a adotarem uma postura mais agressiva no cenário internacional, o que tem repercutido na América Latina. Trata-se de um cenário complexo, que envolve antigos e novos interesses, como energia, terras raras e inteligência artificial.

Nesse contexto, voltam com força os discursos sobre a necessidade de garantir a “segurança” da América Latina e, particularmente, da nossa fronteira trinacional. Não se trata de negar os problemas que temos, como o tráfico de drogas, mas esses problemas são usados para aumentar a militarização da região, o que, neste momento, atende aos interesses norte-americanos. Recentemente, o Paraguai fez um acordo de cooperação militar com os Estados Unidos. Caso se concretize, o aumento da presença militar norte-americana no Paraguai precisará ser observada com muita atenção pelo Brasil, pois temos a segunda maior reserva de terras raras do mundo, além de diversos outros recursos naturais de interesse dos Estados Unidos.

Qual seria o impacto no Paraguai?

A respeito do acordo do Paraguai com os Estados Unidos para o uso da energia de Itaipu para abastecer um centro de supercomputação, me parece mais uma promessa de desenvolvimento feita ao povo paraguaio, com resultados ainda bastante incertos. Apesar de ter uma empresa paraguaia envolvida, é questionável o quanto esse acordo vai gerar e manter empregos, bem como criar um círculo autônomo de desenvolvimento, tendo em vista as enormes disparidades entre o Paraguai e os Estados Unidos. É evidente que o Paraguai é soberano para usar a sua cota da energia produzida em Itaipu, mas me parece um acordo que usará uma grande quantidade de energia para atender a um projeto bastante localizado, que dificilmente repercutirá positivamente sobre uma parcela expressiva da população. O Brasil tem construído muitos desses centros. A etapa da construção gera mais empregos, mas esse número é reduzido drasticamente na etapa de funcionamento.

Caso o candidato da extrema direita vença o pleito aqui, o Brasil pode ir para o mesmo caminho?

Seguramente que sim, pois ele nunca escondeu o seu alinhamento com os Estados Unidos, tampouco o seu pai. Contudo, a economia brasileira é mais robusta e diversificada quando comparada com a de alguns países vizinhos, e esse alinhamento com os interesses norte-americanos pode gerar maiores resistências de setores ligados ao mercado interno e a outros destinos comerciais.

Síntese dos acordos e negociações entre Estados Unidos e Paraguai

Os mais recentes acordos entre Estados Unidos e Paraguai foram firmados durante visita de três dias do vice-secretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau, ao Paraguai nesta semana.

  • reforço na vigilância e proteção do espaço aéreo do Paraguai;
  • investimento de US$ 5,5 milhões em políticas de segurança pública e combate ao terrorismo no Paraguai;
  • memorando para o combate ao terrorismo mediante a implementação de um sistema de gestão de fronteiras e controle de passageiros;
  • criação da Oficina de Assuntos Internacionais de Narcóticos e Aplicação da Lei (INL), em Assunção, que operará como centro regional do Cone Sul;
  • negociações para um futuro acordo envolvendo a Lei de Energia Atômica dos EUA sobre os usos pacíficos da energia nuclear para que empresas americanas possam exportar equipamentos e materiais nucleares civis para o Paraguai sob rígidos padrões de segurança e não proliferação;
  • acordo de cooperação entre a empresa norte-americana Crusoe e a empresa paraguaia Araico para construir um data center de alto desempenho alimentado pela energia de Itaipu.
  • O Paraguai passou a ser o 26º signatário da Declaração Pax Silica, proposta pelos Estados Unidos e voltada à cooperação internacional em cadeias de suprimentos de inteligência artificial e tecnologias estratégicas.

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e fique por dentro do que realmente importa.


    [cf7sr-recaptcha]

    Você lê o H2 diariamente?
    A partir de R$5,00 por mês. Cancele quando quiser.
    Denise Paro

    Denise Paro

    Denise Paro é jornalista pela UEL e doutoranda em Ciências Políticas e Relações Internacionais. Atua há mais de duas décadas nas Três Fronteiras e tem experiência em reportagens especias. E-mail: deniseparo@h2foz.com.br

    Deixe um comentário