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Cultura

Batalhas de rima transformam espaços públicos em palco do hip hop em Foz

Encontros de freestyle revelam artistas, fortalecem a cultura de rua e ampliam a participação da juventude na cidade.

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Batalhas de rima transformam espaços públicos em palco do hip hop em Foz
Encontros de freestyle revelam artistas, fortalecem a cultura de rua e ampliam a participação da juventude na cidade.

O círculo se fecha, o microfone começa a circular e os versos surgem improvisados. Ao redor, o público acompanha cada rima, reage e canta junto um dos cantos que já virou tradição na Batalha da Mentira, da Vila C Nova:

“Vai morrer ou vai matar? Vai matar ou vai morrer? Terça-feira é o melhor dia pra colar na Vila C.”

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Cenas como essa se repetem em diferentes bairros de Foz do Iguaçu, em praças, pistas de skate e espaços públicos. Rodas de freestyle reúnem MCs iniciantes e experientes em encontros que misturam improviso, competição e consciência. Antes desses eventos se tornarem frequentes, o rap iguaçuense já construía tradição de lançamentos musicais e confrontos publicados no YouTube.

Jovens reunidos na batalha de rima na Praça da Mentira, Vila C, no dia da aprovação pela Câmara Municipal da Semana do Hip Hop em Foz do Iguaçu - Foto: Lucas da Silva


Anos 2000 e o Cartel do Rap

Um coletivo que ajudou a fomentar a presença do hip-hop na fronteira é a banca Cartel do Rap (CDR). Dentre os registros mais antigos, em 24 de setembro de 2009 um vídeo de apresentações de artistas ligados ao coletivo foi divulgado pelo Mano Zeu. São trechos de shows realizados para o público, com duplas e trios de MCs alternando-se no microfone, apresentações de break e um DJ conduzindo as bases no centro do palco.

Ao fundo está hasteada a bandeira do Brasil e é possível ver a identificação da banca CDR fazendo referência aos “oito anos de estrada”. Sendo as imagens do arquivo referentes a 2008, a origem do coletivo vem do ano 2000.

Além de divulgar músicas, Mano Zeu transformou o canal em espaço de divulgação de eventos ligados ao hip-hop e arquivo histórico de antigos encontros. Foi ele quem produziu a música A Fita, do grupo Conexão PB, gravada ao vivo durante um show do grupo Rajada MCs em Foz do Iguaçu, de 2006.


Na virada da década, em junho de 2010, Foz do Iguaçu recebeu pela terceira vez o grupo Thiagão e os Kamikazes do Gueto, da cidade de Paiçandu (SP). Organizado pelo Clan do Norte, o evento foi realizado na Associação de Moradores da AKLP, do Jardim Petrópolis, com participação de grupos locais, DJs e b-boys.

No ano seguinte, 2011, veio a terceira edição da Noite do Rap, realizada no Casulo Rock Bar. Estavam reunidos os grupos de outras cidade, como A Voz da Libertação, Disparo Verbal e Resgate MCs, além de coletivos locais como Mandamentos da Rua, Aliados da Periferia, Verso de Honra e Ataque Sonoro. A programação incluía rodas de break, freestyle e exibição de vídeos.

A movimentação da cena também aparece no canal de produções Oeste e os Bang, em agosto de 2013. A divulgação apresentava o encontro Hip Hop Foz, a ser realizado no Teatro Barracão, na Praça da Bíblia. Estavam presentes Thiagão, Verso de Honra — que depois se tornou Magrellow —, Eloquentes, Face Racial e BJ Brown.

A consolidação das batalhas de rima

A partir da metade da década de 2010, a cena local continuou a articular-se em eventos feitos em lugares usados até hoje, como a pista de skate próxima ao Ginásio Costa Cavalcanti. O local reúne fãs do hip-hop desde pelo menos 2015, quando ocorreu o encontro Hip Hop na Vila, e atualmente é o principal palco de duelos de MCs no município, a Batalha da Pista.

Os registros mais antigos das batalhas de rima de Foz disponíveis na internet apontam também para 2015. Um vídeo apresenta o duelo entre os MCs Cenourah e Sch, em fevereiro, realizado na frente do Bosque Guarani. Publicado no ano seguinte da gravação, o encontro acontece sem caixas de som ou microfone, apenas beatbox e voz.

Entre os nomes presentes naquele dia, estavam os MCs Thiago DD, Delangelo, Well, PZR, Trout, Camuflado e Paulo Pietraski.


Segundo o rapper Guto MC, integrante do coletivo Rimando no Front e participante das batalhas, encontros conhecidos como Quarta e Vinte reuniram jovens por volta de 2016. Começou na região do Terminal de Transporte Urbano e “depois aquilo foi para o Boulevard e, mais tarde, veio a Batalha da Pista”, recorda.

A primeira batalha da qual ele participou foi em 2017, na Batalha da Pista. A partir disso, passou a desafiar-se em outros palcos da cidade. Outro evento corriqueiro lembrado é a Batalha do Lago, do Porto Meira, no Parque Remador Omar de Oliveira.

Guto MC já conta com lançamentos originais no catálogo. Um deles é a participação em Poesia da Fronteira, de 2022, com Nanda Effer e Makalé, e beat de Noctum. Antes dessa parceria, Guto lançou a música solo Sabedoria Vem de Deus, em 2019.

Uma nova geração rimando

Iniciado no fim da década de 2010, o canal Batalhas de Rimas — Foz/PR é um acervo de rap iguaçuense que permite observar uma cena ainda mais movimentada. A primeira imagem de duelos é a Batalha da Pista realizando edição de verão com estilo festa na piscina, em fevereiro, vencida pelo MC Vitinho. No comando do microfone estava Stenio, artista amplamente conhecido por organizar essa marca junto com DJ Smoke.

Organizada semanalmente, às segundas-feiras, a Batalha da Pista foi e continua sendo central para a formação de artistas do gênero, chegando a reunir centenas de pessoas para assistir. Em eventos de maior porte ou dias de chuva, o Teatro Barracão se torna palco do encontro.

Atualmente, é organizada pelo projeto Rimando no Front, contemplado no edital n.º 1/2023 do Pronasci, do Ministério da Justiça. Os integrantes do grupo também organizam a Batalha dos Tronos, em frente à Associação de Moradores do Morumbi; Batalha do Bubas, na Rua Tulipa; Batalha da Resistência, no Jardim Cedro; e a Batalha da Central, na pista de skate da Vila A.

No Batalhas de Rima — Foz/PR é possível assistir às batalhas de 2019 a 2026, incluindo participação de MCs iguaçuenses em eventos fora da cidade. Alguns nomes que integravam a lista de duelistas eram Liam, Rubin, KL, CL, Kow, Hugo, Bart, Guto, JW, Gugu, Oliveira, Kim, Iguin, GPX, Allmany, Sullivan, Luquinha, Baiano da Djamba, Jhady, Big Show, Sisko e Vhoid.


Guto MC contou já ter feito parte de outras edições que hoje estão em hiato. A Praça Boulevard, citada pelo artista, recebeu duelos no passado, bem como já existiram a Batalha da Fonte, em frente à Praça do Mitre, a Batalha do Gramadão, a Batalha do Bosque e a Batalha da Praça da Bíblia.

Em 9 de julho de 2017, o coletivo de hip-hop Banca 16 organizou a “Batalha pela conclusão das obras na pista de skate do bairro Morumbi”, referindo-se à construção paralisada em meio a escândalos de corrupção. Na data, a prefeitura afirmou que não tinha recursos para finalização — e até hoje ainda não foi concluída.

A voz dos autorais

Na Batalha dos Tronos, de 12 de março, o MC Yuri comemorava mais uma vitória na noite em que a reportagem esteve presente: “Hoje, eu ganhei minha quarta Tronos seguida”, revela. Natural do estado de São Paulo, a primeira participação dele num confronto de rimas foi na Batalha do Villa Lobos (SP), em 2019.

Agora residente em Foz, o paulista ressalta as batalhas pela característica de espaço com aprendizado constante. “O único jeito de evoluir é colar e participar, ver como os caras rimam, sentir a energia do bagulho”, diz.

Naquela noite estava na roda de improviso uma referência de MC Yuri, o Rubin. “Já faz uns anos que o Rubin é o melhor MC da cidade. Sempre que tem evento grande ele tá ali, representando”, afirma. Como já mencionado em textos anteriores desta coluna, o iguaçuense foi eleito o melhor MC de 2025 e divulgou em janeiro a mixtapeFlores e Fases.

Das praças para o estúdio

Dentre os muitos MCs que frequentam batalhas e desenvolvem trabalhos autorais, está Gonzalez. “Minha ligação com as batalhas começou ali pelos 16, 17 anos. Foi quando comecei a entender também o lado coletivo da cultura hip hop”, conta.

Muitas pessoas o reconhecem pelas batalhas mais antigas, e ele mesmo lembra que “colava todas as quebradas de Foz”. Uma das provas da história do funkeiro na cidade é o projeto Cypher 045, de dez anos atrás. Trata-se de marco na cena de hip-hop da região, que reuniu grupos independentes, em 2016, para sons coletivos.

Naquele ano fazendo parte do Front City, Gonzalez rimou ao lado de Efeito Placebo, Viela 45, Bob Kurupi e Johnniê, em Cypher 045(02). Com produção de Oeste e os Ban, a primeira edição do projeto reuniu Profetas de Calça Larga, Terceiro Milênio, Weed School, Acionários MDL, Boyka, Cenourah, Magrellow, PZR e Delangelo MC.


Segundo ele, esses encontros sempre tiveram uma dimensão que vai além da competição, reunindo “todas as quebradas de Foz”. O artista, que estará em cenas gravadas para a terceira temporada da série DNA do Crime, realça que “não é só gravar música ou fazer clipe, é um trabalho que acontece na rua, em contato direto com as pessoas”.


Ao observar a nova geração, Gonzalez aponta uma evolução técnica evidente. Para ele, a frequência das batalhas e a circulação entre diferentes pontos da cidade contribuíram para o desenvolvimento dos MCs. “Os moleques rimam muito”, destaca.

Dentre os nomes que já ostentam vitórias estão Rubin, Ed Loko, Pisquila, Dmenor MC, Dunbim, Caleb MC, Avalos, Lian, Sika, Cassimiro, Aguirrez e NS MC. Todos presentes nas temporadas de 2025 e 2026.


O H2FOZ segue acompanhando e mapeando a cena das batalhas de rima e do hip-hop em Foz do Iguaçu, registrando sua história, seus personagens e os movimentos que mantêm a cultura viva nas ruas. MCs, coletivos e iniciativas podem ser indicados para futuras matérias e conteúdos nas redes sociais do portal (@h2foz).

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    Lufe Sahn

    Lufe Sahn é jornalista em Foz do Iguaçu, colabora com o H2FOZ na editoria de cultura e arte das Três Fronteiras.

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