No início da década de 1980, Amanda Villalba deixou Assunção, no Paraguai, e cruzou a fronteira em busca de ajuda espiritual. Em Foz do Iguaçu, conheceu uma senhora chamada Maria Benedicta de Souza.
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Mãe da casa Reino de Oxalá e idealizadora a festa de Iemanjá em Foz do Iguaçu no ano de 1976, Benedicta, também chamada por Vó Benedicta, deu um novo alento para a vida de Amanda, que deixou acabou saindo do país de origem para viver em Foz. Aqui, ela conheceu o marido e abriu caminhos para trilhar uma nova vida.
Já casada, Amanda se mudou para Minas Gerais, mas retornouem 1982. A partir daí, voltou a frequentar a casa Reino de Oxalá e criou um forte vínculo de amizade com Vó Benedicta, .
Amanda passou a trabalhar com Benedicta e acompanhá-la nas festas de Iemanjá. Em 2009, Benedicta faleceu, e ela acabou assumindo a incumbência de levar a celebração adiante, tornando-se a matriarca do evento.
“Eu amava fazer isso, pela memória dela, eu devia isso a ela, ensinamento, carinho. Ela fazia parte da minha família”, conta mãe Amanda, também conhecida por Amanda de Oxum. Hoje, aos 74 anos, mãe Amanda diz que espera manter a tradição por muitos anos ainda.
“Ela [Benedicta] merece, é um espírito de luz, e nós merecemos também.” Para Amanda, Foz do Iguaçu tem uma diversidade de cultos, credos e resistência para devoção.
Mãe Amanda foi uma das lideranças que marcaram presença, na manhã de domingo, 1.º, na abertura do jubilei da festa de Iemanjá em Foz do Iguaçu. O evento, na Praça da Paz, teve apresentações e reuniu a comunidade, autoridades e representantes das religiões afro. A programação segue nesta segunda-feira, 2, com carreata de procissão pelas águas dos rios Iguaçu e Paraná.
O Dia de Iemanjá, 2 de fevereiro, faz parte do Calendário Oficial de Eventos de Foz do Iguaçu desde 2023 e está amparado pela Lei Ordinária n.º 5.209, de 14 de fevereiro de 2023.
A matriz afro é bastante presente na cidade. Conforme estimativas dos próprios religiosos, Foz concentra hoje cerca de 300 terreiros.

Sociedade absorve tradição de Iemanjá
Presidente do Conselho Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais, Laismara Carneiro Eduardo veio de Curitiba exclusivamente para participar dos festejos em Foz. Para ela, a festa de Iemanjá em Foz ultrapassa a religiosidade afro e se constituiu uma identidade do município.
Filha de Iemanjá, ela frisa que a orixá agrega diferentes práticas de fé, reunindo católicos, espíritas, candomblecistas e umbandistas. Quando se trata dos povos de terreiro, explica Laismara, a tendência das pessoas é olhar apenas para o aspecto religioso.
“Mas a religião chega no dia a dia e sai do terreiro. Vestir branco, prática da umbanda, beber espumante, pular sete ondas [pedido de bênção], são muitas práticas de terreiro que a gente reproduziu no nosso cotidiano”, frisa.
Laismara lembra que hoje muito se fala da festa de réveillon em Copacabana, no Rio de Janeiro, que também começa com uma festa de Iemanjá, contudo se perdeu essa matriz. Por isso, é importante não só manter a festa como também a origem.
Sobre o jubileu de Iemanjá em Foz do Iguaçu, a presidente do conselho menciona que, apesar de Foz do Iguaçu não ter mar, tem rios. E Iemanjá originalmente é um orixá de água doce, do Rio Ogum.
Muito presente na sociedade, o racismo religioso é sentido na pele por muitas pessoas que frequentam terreiros.
Para Laismara, o racismo religioso ocorre, na maioria das vezes, em razão do desconhecimento e está muito vinculado ao sentimento que vem da ignorância.
Veja a programação
Segunda-feira, 2/2
13h30: concentração da procissão, na Praça da Paz
14h: início da carreata (Praça da Paz)
14h30: concentração Kattamaram
15h: início da procissão e apresentação dos afroatabaques
17h: final da procissão
17h30: início das atividades no palco Praça da Paz
18h: Baque Mulher
18h45: capoeira
20h: Escola de Samba Mocidade
21h: encerramento da exposição “Memórias de Vovó Benedicta e a Festa de Iemanjá” (Feira Afro)
21h: apresentação Afroatabaques (20 ogãs)


