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Diário de um torcedor

Diário de um torcedor

* Bruno Zanette

O sonho de toda criança que nos seus primeiros anos de vida começa a chutar uma bola é ser jogador de futebol. Claro que com o passar dos anos, ao longo da vida, esses sonhos mudam. Ou são desviados de suas rotas por uma ou outra circunstância. Há os que alcançam essa glória, se é que podemos chamar assim, e os que seguem para outras profissões.

Mas, antes de ser jogador a criança é, acima de tudo, torcedor. E foi num domingo ensolarado de maio que Pedro conheceu um estádio pela primeira vez. Acompanhado do pai, mal conseguia esconder a alegria e ansiedade que tomavam seu corpo diante de tamanha satisfação. Era final de campeonato. Quer partida melhor para estrear nas arquibancadas do que uma valendo taça?

Aquele domingo não poderia ser um domingo qualquer. Estava no ar. Até os pássaros pareciam cantar diferente. A programação esportiva no rádio informava desde as primeiras horas da manhã todos os ambientes. Hotéis das equipes, ruas nos arredores do estádio. O trajeto até o templo sagrado levou certo tempo. O movimento era grande, afinal todos queriam presenciar o espetáculo.

O protocolo era o mesmo. Filas, cambistas, vendedores ambulantes. Ingressos passados nas catracas, cadeiras escolhidas, era um bom setor, tinha boa visão do gramado. O pequeno Pedro olhava para todos os lados, numa tentativa de descobrir se o que via era mesmo real. Faltava pouco para a bola rolar. Eis que aos 45 minutos do segundo tempo da vida (não do jogo), chega um torcedor com um enorme sombreiro mexicano e senta em frente ao jovem garoto. O desespero lhe tomou conta. Como assistiria à partida, agora?

Acanhado e tímido, e sem querer arranjar confusão, Pedro evitou reclamar com o torcedor nonsense. Buscava maneiras de atenuar o fato, esticando o pescoço para a direita, ora para a esquerda, agoniado com os gritos da torcida em lances certamente de perigo de gol. Trocava olhares com seu pai, que naquele momento não percebia as súplicas do menino em poder mudar de lugar. Não havia outro lugar para sentar, estava tudo lotado.

Eis que veio o momento ápice do esporte, o gol! Foi nesse instante que o torcedor sem noção tirou seu chapéu completamente desnecessário, jogava para cima de felicidade e Pedro aproveitava os poucos segundos de liberdade visual para olhar o tapete verde. Afinal, quem marcara o placar?

Pela imagem que viu, com a maioria dos colegas abraçados em um único jogador, concluiu quem poderia ter aberto o marcador. Aquele sorriso fácil era inconfundível. O autor do tento sagrado era seu ídolo mor, de mesmo nome que o seu e sobrenome para ficar na história: Geromel.

Eis que o gol e a comemoração permitiram um contato visual entre Pedro e o torcedor à sua frente. Como num lapso, segurando o sombreiro, percebeu a besteira que estivera fazendo. A partir daí, não mais o colocou e Pedro pôde, enfim, contemplar o jogo até o final. Foi para casa satisfeito e realizado. Aquele título, aquele gol, aquele dia ficariam para sempre em sua memória.

* Bruno Zanette é jornalista e mora em Foz do Iguaçu.

*Texto originalmente escrito para o Concurso de Contos da Livrarias Curitiba.