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Francisco Amarilla, um homem movido a paixões

Francisco Amarilla, um homem movido a paixões

H2Foz - Renata Thomazi

 

VIDAS DO IGUAÇU

Apaixonado pela vida, Francisco Amarilla é um desbravador da natureza, ciclista militante do meio ambiente que leva a vida de modo simples e com a generosidade de quem se propõe a observar e preservar a história. Contamos no Vidas do Iguaçu desta semana um breve relato sobre as trilhas que Amarilla conquistou e percorreu.

Alguns membros da família de Francisco Amarilla / Arquivo pessoal

Nascido em 25 de outubro de 1955, ele é um dos 15 irmãos de uma família de Itapé, cidadezinha do interior do Paraguai, a 240 quilômetros de Ciudad del Este. Ele conta que o pai e os dois irmãos mais velhos chegaram a CDE em 1959 e que eles migraram para ajudar a construir a cidade paraguaia.

Naquela época, CDE se chamava Puerto Flor-de-Lis, ou Puerto da Miséria, como também era conhecida a região. "Eu só cheguei em 1960, e não tinha nada por aqui. A região ainda estava sendo desmatada, era um pantanal", relembra.

Em Porto Presidente Stroessner, hoje Ciudad del Leste - 1964; Francisco acompanhado pela irmã Teresa, e o irmão Ernesto / Arquivo pessoal

O propósito do pai e dos irmãos foi cumprido, e a família toda migrou para Flor-de-Lis, que futuramente se tornaria Puerto Presidente Stroessner e, quase três décadas depois, por meio de um plebiscito (1989), passou a ser o distrito de Ciudad del Este.

“Era como se fosse um sonho. Viemos em cima de um caminhão que carregava madeira de extrativismo. Veio a galera toda, apenas com a roupa do corpo e pertences pessoais. Eu tinha 5 anos, era muito pequeno, então a minha percepção era de uma grande aventura, de uma nova conquista.”

A mudança foi uma decisão certeira; a família conquistou um terreno para se abrigar. Lugar preservado até hoje, localizada a menos de dez quilômetros da Ponte Internacional da Amizade (PIA), no lado paraguaio.

A história de Amarilla cruza com a expansão do município, talvez por isso seja tão apaixonado pela natureza, história e cultura do país nativo. Até hoje é dono de um sotaque sutilmente paraguaio, porém muito familiarizado com o português. Naquela época, Amarilla já transitava, mesmo que de balsa, entre os países vizinhos. A PIA não existia, e ele se orgulha de relembrar que a família participou da construção da principal via de acesso dos dois países.

 

Aeroporto do Gresfi

O primeiro emprego em Foz do Iguaçu foi como engraxate no primeiro aeroporto da cidade, o Gresfi (Grêmio Esportivo e Social de Foz do Iguaçu), entre os anos de 66 a 68. O domínio da geografia local o levou a ser guia de turismo. “Como sou aventureiro e sempre gostei de explorar a natureza, levava as pessoas no Salto de Monday (PY) e em diversas cachoeiras dos dois países.”

Fascinado por história, Amarilla registrava tudo: escrevia e fazia fotos. Com isso foi acumulando perspectivas diferentes. Inclusive muitas aventuras foram feitas sobre duas rodas, pois desde pequeno ele carrega consigo outra paixão: o pedal.

 

Ciclismo

Aos 12 anos, em 1967, ele conquistou uma Monark aro 26 e guarda com carinho a imagem da primeira bicicleta. Acompanhado por muitas “magrelas” ao longo da vida, ele percorreu incontáveis quilômetros em expedições ciclísticas. Uma delas deu origem ao livro El Paraguay que poca gente conoce (O Paraguai que poucas pessoas conhecem). “Foram 2.750 quilômetros no Paraguai, cruzando 14 estados para colher fotos e informações”, revela.

Com a primeira bicicleta, uma Monark aro 26 (Maringá); Imagem em monóculo, ano 1967, Amarilla com 12 Anos: "Começava a paixão pela bicicleta" / Arquivo pessoal

O jornalista Wemerson Augusto, conhecido também como Ceará, é amigo pessoal do ciclista e conta que o conheceu pelas ruas da cidade. Tornaram-se próximos quando Amarilla compartilhava com ele informações interessantes sobre a fronteira.

Amizade e bicicleta: a parceria que percorre a fronteira / Arquivo Pessoal: Wemerson Ceará

Segundo Ceará, ele aparecia na redação com um disquete e muitas ideias na cabeça: “Ceará, preciso falar com você”; “Ceará, encontrei uma foto histórica, muito preciosa”; “Encontrei uma pessoa que é parente de Cabeza de Vaca”; ou então: “Você sabia que aquela rua é uma homenagem a fulano de tal, mas na verdade o nome dele era outro?”, diverte-se o jornalista lembrando.

Com grupo do pedal no Marco das 3 Fronteiras paraguaio / Arquivo Pessoal: Wemerson Augusto

Companheiro de aventuras ciclísticas, entre outras, Ceará relata que Amarilla é um personagem dentro das próprias histórias. “Nestas conversas sempre aprendo algo com ele. Amarilla é um ser simples e extremamente generoso. Ele tem uma ânsia de contar histórias. Quer registrar para os amigos e para o mundo o que vê, o que sente.”

Ceará e Amarilla conversando sobre o futuro - Marco das 3 Fronteiras, Foz do Iguaçu / Arquivo Pessoal: Wemerson Augusto

Cachoeiras

Foi por meio de um livro que André Alliana e Amarilla se conheceram. André conta que, durante a pesquisa sobre as cachoeiras da região, deparou-se com o livro As belezas escondidas de Foz do Iguaçu – as cachoeiras. O livro traz a localização e o registro de 33 quedas d’água urbanas da cidade.

Respeito e admiração pela natureza / Arquivo Pessoal: Francisco Amarilla

André encontrou na internet várias matérias sobre o “caçador de cachoeiras” e precisava conhecê-lo antes de pôr em prática a ideia de negócio que havia tido. “Francisco Amarilla é um ser extraordinário. Quem convive com esse coração gigante, com esse cara sonhador, com esse amante e conhecedor da natureza que sabe como ninguém sobre Foz do Iguaçu, sabe do que eu tô falando.”

Amarilla e Alliana - parceiros no empreendimento Iguassu Secret Falls / Arquivo Pessoal: André Alliana

De acordo com Alliana, “a empresa Iguassu Secret Falls está ranqueada no TripAdvisor com nota máxima, e muitos comentários dos clientes são sobre a excelência de atendimento que Amarilla faz”. Atualmente os amigos são sócios no negócio, que propõe aos turistas passeios e aventuras entre as matas e cachoeiras da região.

“Desde o começo, ele ajudou a planejar e a definir cada passo da Secret Falls. Ele é um superparceiro, e nós dependemos dele. Ele é um cara maravilhoso.”

 

Paixão

Movido a paixões, atualmente Amarilla mora em Foz do Iguaçu, mas já morou em Maringá, Rolândia e Londrina. Casou-se com uma brasileira, é pai de três filhos e já atingiu a “categoria” de vovô. “Tenho duas netas gêmeas lindas.”

A nova "namorada" - Princesa Mirian / Arquivo Pessoal: Francisco Amarilla

Ele acumulou a produção de 22 obras literárias, entre elas dez edições da revista independente chamada Gente Linda e outros 12 livros. A revista é feita artesanalmente. “Como eu não tenho patrocinador, eu mesmo digito, encaderno, costuro as páginas e faço somente sob pedido.”

Denys Grellmann é editor-chefe da Revista 100fronteiras, que circula na região trinacional. Grellmann informa que o vasto conhecimento de Amarilla já foi fonte de inspiração muitas vezes para a revista, como quando desenvolveram juntos a pesquisa sobre a casa e o museu de Bertoni e sobre o Horto Municipal.

O jornalista lembra que Amarilla tem um projeto em Foz que se chama Pedal Cultural. A ideia é percorrer lugares históricos do município em grupo e de bicicleta. “Eu convidei minha noiva, nos reunimos no Colégio Agrícola, fomos pela antiga estrada que ia até as Cataratas, percorremos o que as pessoas dizem que foi o Passeio de Peabiru. Depois do Pedal, eu me tornei ainda mais conectado à história da Tríplice Fronteira.”

Amarilla dando orientações ao grupo de pedal / Arquivo Pessoal: Wemerson Augusto

Ainda segundo Denys, “o amigo Amarilla é um ícone em defesa, divulgação e amor pelo meio ambiente da Tríplice Fronteira, um grande conhecedor e incentivador da integração verdadeira entre os moradores e turistas com a natureza. Ele sempre demonstrou um amor e respeito muito grandes pela história das pessoas e da região. Ele é um cara sensacional”.

 

Cultura viva

Entre os mais distintos apelidos, como o “Caçador das Cachoeiras”, “Tio das Sementes”, “O Homem do Rio” e “Homem das Trilhas”, Francisco Amarilla é um exímio contador de histórias. Acumula as mais diversas passagens e faz questão de registrá-las. Ele é o que se pode dizer uma lenda viva, e com a sua vivência colabora para que a memória da região seja preservada!