Rádio Clube
H2FOZ
Início » Planeta Foz » História » Centenário, João Centurião morre aos 105 anos e deixa legado de resistência

História

História de vida

Centenário, João Centurião morre aos 105 anos e deixa legado de resistência

Morador da comunidade Tekoha Ocoy, Centurião viu seu povo perder a terra; cresceu sem saber ler, mas aos 102 anos foi para a escola

3 min de leitura
Centenário, João Centurião morre aos 105 anos e deixa legado de resistência
Centurião viu seu povo ser expulso da terra. Foto: Denise Paro

O centenário João Tupã Naravy Centurião, um dos mais longevos moradores da região Oeste, faleceu aos 105 anos. Morador da comunidade Tekoha Ocoy, em São Miguel do Iguaçu, a 45 quilômetros de Foz do Iguaçu, ele deixa um legado de resistência e sabedoria para o povo avá-guarani.

Leia também: Sob o lixo, história: antigo cemitério indígena é encontrado em aterro de Foz

Publicidade

Centurião morreu na madrugada de quarta-feira, 18 de março. Ele nasceu em agosto de 1920 em uma terra chamada Jacutinga, hoje região de Três Lagoas, em Foz do Iguaçu. Naquela época, a comunidade guarani vivia à beira do Rio Paraná e pouco imaginava como seria a vida dali para frente.

Ele cresceu seguindo os costumes dos pais e aprendeu a plantar, tornando-se um exímio agricultor. Andava de bicicleta, jogava bola e era conselheiro dos mais jovens. Como precisou trabalhar cedo, não pôde frequentar a escola. Só sabia mesmo assinar o nome. Mas Centurião pouco se intimidava com os desafios da vida.

Aos 102 anos, decidiu frequentar a Educação de Jovens e Adultos (EJA), na Escola Indígena Teko Nemoingo, que fica na comunidade Tekoha Ocoy. Nem mesmo os problemas de visão e audição, em razão da idade avançada, foram barreiras para ele estudar.

Referência na história da comunidade, era constantemente consultado pelos colegas quando o assunto era a história dos avá-guarani.

Centurião escola
Aos 102 anos, ele resolveu aprender a ler e escrever. Foto: Denise Paro

História de resistência

Na década de 1970, João Centurião fazia parte das últimas famílias que precisaram deixar a terra de Jacutinga para procurar outra moradia. Em um primeiro momento, ele foi morar no Paraguai.

Tempos depois, foi convidado por parentes para retornar ao Brasil e viver na comunidade Tekoha Ocoy, de onde não saiu mais. A reserva do Ocoy tem 231 hectares e lá moram cerca de 952 pessoas.

Centurião enfrentou a violência provocada pela disputa de terras na região, povoada por pistoleiros. Entre 1984-1988 assumiu o posto de cacique e liderou a comunidade para a demarcação de terras indígenas.

Em nota, Cimi faz homenagem a Centurião

O Conselho Missionário Indigenista — Cimi Sul divulgou uma nota em homenagem a Centurião.

“O Cimi Sul lamenta profundamente a partida de JOÃO TUPÃ NARAVY CENTURIÃO e manifesta sua solidariedade ao povo Avá-Guarani. Ao mesmo tempo, expressamos nossa imensa gratidão por todo o aprendizado e pela sabedoria partilhada ao longo de tantos anos de convívio e resistência. Sua memória permanecerá como guia em nossas caminhadas.

João Centurião ” viu a mata da região ser destruída e substituída pelo verde da soja e do milho, embranquecidos pelo veneno. Viu o Rio Paraná ser transformado em um imenso lago. Viu sua terra ser tomada por invasores que, com armas apontadas para a cabeça de seu pai, obrigaram toda a família a fugir. Viu o Estado brasileiro, por meio do Incra e da Funai, documentar os invasores e negar o seu próprio direito.

Naquele território (Tekoha Ocoy) ficaram enterrados sua mãe, sua esposa e seu filho, uma perda que marcou profundamente sua trajetória. Era conhecido por sua alegria, sabedoria e pela incansável luta por justiça e reparação ao povo Avá-Guarani”.

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e fique por dentro do que realmente importa.


    Você lê o H2 diariamente?
    Assine no portal e ajude a fortalecer o jornalismo.

    Denise Paro

    Denise Paro é jornalista pela UEL e doutoranda em Ciências Políticas e Relações Internacionais. Atua há mais de duas décadas nas Três Fronteiras e tem experiência em reportagens especias. E-mail: deniseparo@h2foz.com.br

    Deixe um comentário