O centenário João Tupã Naravy Centurião, um dos mais longevos moradores da região Oeste, faleceu aos 105 anos. Morador da comunidade Tekoha Ocoy, em São Miguel do Iguaçu, a 45 quilômetros de Foz do Iguaçu, ele deixa um legado de resistência e sabedoria para o povo avá-guarani.
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Centurião morreu na madrugada de quarta-feira, 18 de março. Ele nasceu em agosto de 1920 em uma terra chamada Jacutinga, hoje região de Três Lagoas, em Foz do Iguaçu. Naquela época, a comunidade guarani vivia à beira do Rio Paraná e pouco imaginava como seria a vida dali para frente.
Ele cresceu seguindo os costumes dos pais e aprendeu a plantar, tornando-se um exímio agricultor. Andava de bicicleta, jogava bola e era conselheiro dos mais jovens. Como precisou trabalhar cedo, não pôde frequentar a escola. Só sabia mesmo assinar o nome. Mas Centurião pouco se intimidava com os desafios da vida.
Aos 102 anos, decidiu frequentar a Educação de Jovens e Adultos (EJA), na Escola Indígena Teko Nemoingo, que fica na comunidade Tekoha Ocoy. Nem mesmo os problemas de visão e audição, em razão da idade avançada, foram barreiras para ele estudar.
Referência na história da comunidade, era constantemente consultado pelos colegas quando o assunto era a história dos avá-guarani.

História de resistência
Na década de 1970, João Centurião fazia parte das últimas famílias que precisaram deixar a terra de Jacutinga para procurar outra moradia. Em um primeiro momento, ele foi morar no Paraguai.
Tempos depois, foi convidado por parentes para retornar ao Brasil e viver na comunidade Tekoha Ocoy, de onde não saiu mais. A reserva do Ocoy tem 231 hectares e lá moram cerca de 952 pessoas.
Centurião enfrentou a violência provocada pela disputa de terras na região, povoada por pistoleiros. Entre 1984-1988 assumiu o posto de cacique e liderou a comunidade para a demarcação de terras indígenas.
Em nota, Cimi faz homenagem a Centurião
O Conselho Missionário Indigenista — Cimi Sul divulgou uma nota em homenagem a Centurião.
“O Cimi Sul lamenta profundamente a partida de JOÃO TUPÃ NARAVY CENTURIÃO e manifesta sua solidariedade ao povo Avá-Guarani. Ao mesmo tempo, expressamos nossa imensa gratidão por todo o aprendizado e pela sabedoria partilhada ao longo de tantos anos de convívio e resistência. Sua memória permanecerá como guia em nossas caminhadas.
João Centurião ” viu a mata da região ser destruída e substituída pelo verde da soja e do milho, embranquecidos pelo veneno. Viu o Rio Paraná ser transformado em um imenso lago. Viu sua terra ser tomada por invasores que, com armas apontadas para a cabeça de seu pai, obrigaram toda a família a fugir. Viu o Estado brasileiro, por meio do Incra e da Funai, documentar os invasores e negar o seu próprio direito.
Naquele território (Tekoha Ocoy) ficaram enterrados sua mãe, sua esposa e seu filho, uma perda que marcou profundamente sua trajetória. Era conhecido por sua alegria, sabedoria e pela incansável luta por justiça e reparação ao povo Avá-Guarani”.


