A forte presença de argentinos em Foz do Iguaçu, hoje parte do cotidiano das Três Fronteiras, já foi considerada um verdadeiro fenômeno econômico. É o que mostra uma publicação do jornal Hoje Foz, de 1980, que registra um dos períodos mais intensos de entrada dos vizinhos na cidade. O conteúdo é do Museu da Imprensa.
O fluxo daquele período só encontrava paralelo em um episódio anterior, na década de 1960, comparou a publicação, ouvindo lideranças, a fim de evidenciar a dimensão da integração entre Brasil e Argentina na fronteira. Na época, o movimento era impulsionado principalmente pela desvalorização do cruzeiro, a moeda brasileira, o que tornava os produtos extremamente atrativos, frisou o periódico.
O resultado foi de hotéis lotados, comércio aquecido e prateleiras esvaziadas. Argentinos compravam produtos de todos os gêneros, de alimentos a eletrodomésticos, provocando e fomentando um ciclo de expansão econômica local contundente.
“Graças à desvalorização do cruzeiro, compram tudo o que podem: de aparelhos de tevê a confecções. De gêneros alimentícios (principalmente o trigo que eles próprios produzem e exportam para nós) aos eletrodomésticos”, escreveu o noticioso.
Ruas da cidade chegaram a registrar quantidade de veículos argentinos rivalizando com os brasileiros, um sinal visível da intensidade do fluxo, citou a reportagem. Detalhe: não existia a Ponte Internacional Tancredo Neves. Por isso, muito do vai e vem de turistas e moradores fronteiriços fluía por embarcações, pelo Rio Iguaçu, com acesso pelo Porto Meira.
O noticioso iguaçuense ditou números expressivos, contextualizando a visitação parcial de dezembro. Para aquela alta temporada de verão, com um todo, todavia, a expectativa era de que Foz do Iguaçu recebesse entre 150 mil e 200 mil visitantes, superando amplamente os registros de anos anteriores.
Sotaques e investimentos
O impacto não se limitava ao turismo, uma vez que o interesse argentino avançava sobre o setor imobiliário e outros empreendimentos. Mas, um caso emblemático foi mencionado pelo Hoje Foz, a compra de um dos maiores hotéis da cidade, o San Martin, de propriedade do ex-senador João de Mattos Leão, estabelecimento que passou a atender majoritariamente esse público.

Empresários locais viam o movimento com entusiasmo. O setor hoteleiro, por exemplo, dependia fortemente dessa clientela em períodos de baixa ocupação. O jornal argumentou que, sem os turistas argentinos, determinados intervalos do ano teriam praticamente “movimento zero” em alguns meios de hospedagem.
“Quero lotar meu hotel de argentinos”, disse à reportagem da época o hoteleiro Pedro Roth, dono do Sun Hotel. O empresário, já falecido, também foi um dos fundadores e primeiro presidente do Sindicato dos Hotéis de Foz do Iguaçu (Sindhotéis).
Região trinacional
O cenário pujante somava outros vetores de crescimento da época, como a construção da Itaipu Binacional e a expansão agrícola no Paraguai, em que Foz do Iguaçu se consolidava como polo regional. O aumento da circulação de dinheiro ampliava o consumo e estimulava investimentos.
Autoridades e lideranças da época atribuíram o boom à maxidesvalorização do cruzeiro, alteração da moeda nacional feita em 1979, medida adotada pelo governo federal, e à melhora das relações diplomáticas entre os dois países — em 1985, os mandatários de Brasil e Argentina inaugurariam a Ponte Tancredo Neves.
Integração Brasil-Argentina
O recorte demonstra que a relação entre brasileiros e argentinos na fronteira não é recente, mas resulta de um processo histórico, que envolve desde a integração entre os dois povos e países até a complementaridade das economias. É um curso de adapta-se e molda-se ao longo do tempo.
Revisitar a história permite extrair ensinamentos sobre ciclos e decisões internas nos países, nos âmbitos cambial, político e de segurança. São movimentos, não raramente unilaterais, tomados de um lado da fronteira, com efeitos nas duas margens do Rio Iguaçu, nas cidades coirmãs de Puerto Iguazú e Foz do Iguaçu.
Acesse o conteúdo original e na íntegra.
Museu da Imprensa
Acervo digital de jornais, revistas e publicações impressas de Foz do Iguaçu, com acesso público e gratuito. Reúne documentos que testemunham a trajetória do município e de sua gente, em imbricação com as Três Fronteiras — Argentina, Brasil e Paraguai.
A coleção inicial reúne quase 20 mil páginas, cobrindo um período histórico de seis décadas, a partir de 1953. O conteúdo é resultado do esforço coletivo de resgate, preservação e valorização desse patrimônio. O projeto é uma iniciativa da Associação Guatá, com apoio da Itaipu Binacional.
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