No registro de nascimento, o nome dele é Roberto Oscar Bruno, mas por aí é mais conhecido por Tito. A vida desse argentino, de 53 anos, é moldada pelos revezes típicos de quem vive em fronteiras. Portenho, Tito chegou a Foz com os pais em 1985, ainda criança, quando tinha 13 anos.
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O motivo? A família buscava um novo rumo no Brasil. À época, a Argentina era comandada por Raúl Alfonsin (1983–1989), primeiro presidente civil após o regime militar, e o país amargava uma hiperinflação que beirava 1.000%.
O presidente, na tentativa de reverter a situação, lançou a Plano Austral, criou uma moeda, congelou preços e fez ajustes fiscais, porém a política econômica acabou fracassando em longo prazo e fez os argentinos sentirem na pele os efeitos de viver sob a égide de uma inflação descontrolada, como acontece hoje.
Em busca de sobrevivência, a família de Tito, que vivia em Buenos Aires, deixou a capital e cruzou a Ponte Tancredo Neves para morar em Foz do Iguaçu, onde ele já tinha um irmão. Meses depois da chegada ao Brasil, lembra Tito, seu pai faleceu. A irmã e a mãe resolveram voltar para a Argentina, contudo ele, com 14 anos, quis ficar.
Aos 15 anos, Tito conheceu a mulher que seria sua primeira esposa e mãe da filha dele. No entanto, na fronteira, nada é estável. Em busca de oportunidades, o fronteiriço às vezes é levado a ir de um lado para outro, de uma ponte para outra.
E foi isso que ocorreu. A situação difícil em Foz o levou de volta a Argentina, dessa vez para trabalhar na loja de um tio em Puerto Iguazú. Com a labuta, ganhou experiência e, tempos depois, começou a vender mercadorias argentinas para conhecidos em Foz.

Remando nas intempéries fronteiriças
Tito seguia remando, ora a favor, ora contra a maré. Fazia de tudo um pouco para se virar. Trabalhou em casa de câmbio e de ambulante e teve lanchonete.
Eis que, por volta dos 30 anos, ele conseguiu estudar e conquistou dois diplomas. Cursou Letras e Turismo e concluiu um curso técnico de guia. Gabaritado na área de turismo, por muito tempo aproveitou o potencial do setor na região e prestou serviços de transporte entre Buenos Aires e a fronteira.
Um dia, percebeu que a atividade não compensava mais. Os ganhos não correspondiam ao esforço empreendido, como hoje muitos trabalhadores do setor ainda argumentam. Virou as costas para a empresa e resolveu seguir sozinho.
Por volta de 2009, o argentino deixou a atividade turística e abriu um boteco na Vila Portes. A partir daquele momento, as interações do dia a dia passaram a ser com a movimentação comercial do Paraguai. Tito chegava de manhã e saía tarde de lá.
O lugar virou um ponto de happy hour para quem trabalhava na região da Ponte da Amizade. Lá tinha porções, lanches e no inverno, Tito variava. Servia vinhos e fazia panelões de vaca atolada, rabada e buchada.
Compristas, “laranjas” ou qualquer categoria de trabalhador de fronteira baixava por lá. O negócio caminhava, mas com o tempo o incansável Tito resolveu vender o ponto para um cliente.
Novamente, tentou trabalhar na Argentina, acabou voltando para o Brasil e abriu uma lanchonete perto da aduana. Lá, servia pastel, café com leite, café e, às vezes, almoço.

Sem carro, de bicicleta
A lanchonete até que ia bem, até que em 2012 o movimento no Paraguai caiu, o dono do ponto pediu o espaço, e Tito levou outro baque. O jeito foi ir para as ruas. Ele subiu na sua Fiat Strada, que era nova, e saiu vendendo pastéis.
A vida seguia, até que um dia Tito estava rodando com o carro próximo a BR-277, na altura do viaduto, e, por volta das 5h30, um comprista de São Paulo “encheu” a traseira da Strada, a ponto de o motor sair. Parecia estar dormindo ao volante. E o prejuízo? Até hoje não foi ressarcido.
Depois dessa, Tito recomeçou. Sem veículo, ele recorreu a uma bicicleta. Começou a rodar com a “magrela” pela Vila Portes para voltar a vender comida de rua: pastéis e bebidas geladas eram o carro-chefe. Como a vida de Tito é uma linha de emoções, veio outra onda: a pandemia da covid-19.
Praticamente sem clientes nas ruas e com a Ponte da Amizade fechada, ele sentiu na pele os efeitos da pandemia, porém não desistiu. Com máscara no rosto, seguiu em frente.
Passada a crise sanitária, seria a hora de retomar os negócios com força. Só que não foi bem assim. Com a Ponte da Amizade aberta, Tito viu a concorrência no comércio ambulante crescer, até que ele disse: “Não dá mais.”
Para Tito, sai governo, entra governo, nada muda. “Eu nunca senti diferença entre um governo, independente da ideologia.”
Feira livre e empanadas argentinas
A saída foi deixar a fronteira e recorrer à feira livre. Como já tinha alvará de feirante, o fronteiriço começou a vender pastel na feirinha da Vila A. Um ano depois, foi para a feirinha da JK e, há três anos, também tem um ponto nas duas feirinhas da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), que ocorrem nos campi Integração e Jardim Universitário.
O menu mudou. O pastel e as bebidas geladas, campeãs de preferência na Vila Portes, deram lugar às saborosas empanadas assadas. O café com leite perdeu espaço para o mate gelado com limão, especialidade da casa. Na Vila Portes, Tito aprendeu: a bebida gelada alavanca vendas para quem é assalariado.
As empanadas de vários sabores, com tempero típico da Argentina, fazem sucesso e deixam o comerciante feliz, porque ele coloca em prática a habilidade culinária. “Sempre gostei de cozinhar, é uma maneira de mostrar o carinho com o outro”, pontua.
Hoje, Tito é a própria empresa. Cuida da administração e finanças do pequeno negócio, que o faz feliz. Diz ele que, quando era mais jovem, tinha o sonho de ficar rico, no entanto isso já passou, como também se foi a depressão e as crises de ansiedade que teve na vida.
Pai solo, Tito mora com a filha Carolina e diz ter o maior orgulho dela. Nascida no Brasil e graduada em arquitetura, Carolina trabalha na área que escolheu e sempre foi um porto seguro para o pai. “Foi meu maior incentivo neste vida e quem me empurrou para não desistir nunca”.
Mesmo diante de todos os revezes, Tito preserva um sorriso no rosto. O sonho de ficar rico não se tornou realidade, contudo a felicidade sim. “Eu não troco o Brasil por nada.”


