Falta de crédito, de apoio do poder público e de mais espaços para comercialização se tornou um freio para o crescimento da agricultura familiar em Foz do Iguaçu. A cidade conhecida pelo turismo e serviços, por vezes, não enxerga o esforço de pequenos produtores que fazem chegar hortaliças, frutas e verduras frescas à mesa de casa.
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A maioria dos agricultores de Foz do Iguaçu está organizada em duas cooperativas: a Aproffoz (Associação dos Produtores Rurais Familiar de Foz do Iguaçu) e a Coafoz (Cooperativa da Agricultura Familiar de Foz do Iguaçu).
Presidente da Coafoz, Izabel Quaresma de Morais diz que os agricultores enfrentam uma série de entraves. Ela elenca dificuldades com condições climáticas, a exemplo da estiagem, para fazer a sucessão familiar nas propriedades e a falta de apoio dos poderes públicos.
Os agricultores ainda reivindicam estradas para o escoamento da produção, investimentos em tecnologia, inovação e incentivo à produção.
Opinião semelhante tem a tesoureira da Aproffoz, Luci Andreghetti dos Santos. Ela conta que a produção da cooperativa é direcionada à merenda escolar, no entanto existe muita sobra, que é comercializada nos mercados, e não há venda direta, o que ajudaria os preços a ficar mais em conta para o consumidor final.

“Nós somos movidos pela paixão”, ressalta. Luci também destaca o esforço dos agricultores, que plantam, planejam, colhem e levam os produtos aos mercados.
Uma das queixas dos produtores é o reduzido número de feiras livres em Foz do Iguaçu e os espaços inadequados nas existentes. Para se ter uma ideia, na tradicional Feirinha da JK, que ocorre aos domingos, as barracas de hortaliças são mínimas, a exemplo do que ocorre na Feira da Vila C.
Isso ocorre porque não há estrutura adequada para suportar o calor e eventuais chuvas e tempestades que muitas vezes fazem os agricultores perderem os produtos. Se comparadas a outras cidades, como Maringá e Londrina, Foz do Iguaçu não tem a tradicional feira livre onde a oferta de produtos agrícolas é farta.
Feirinhas da Unila têm produtos orgânicos
Uma das alternativas para os agricultores são as feiras que ocorrem na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) — uma no Campus Integração e outra no Campus do Jardim Universitário, onde são comercializados produtos orgânicos.
A cidade tem hoje 12 famílias que praticam a agricultura orgânica, das quais oito já são certificados e quatro já solicitaram o selo. Além das feiras da Unila, os produtos orgânicos são vendidos em sistema delivery e no Mercado Barrageiro, no box da Aproffoz.
O espaço cedido pela Unila oferece uma estrutura melhor para os feirantes com cobertura e movimenta o pequeno comércio agrícola, de gastronomia e artesanato.

A agricultora Lucivânia Félix de Melo, 50 anos, participa de três feiras em Foz, as duas da Unila e uma na Vila A. Para complementar o orçamento, faz entregas do modelo delivery. Ela avalia que falta apoio aos agricultores. “A agricultura aqui é pobre, não há assistência.”
Conforme Lucivânia, em outras cidades há apoio com sementes e adubos, ao contrário de Foz. Mais uma dificuldade é que os agricultores precisam pagar por galhos de árvores triturados resultantes da poda feita pela Copel. O custo é de R$ 100 a carga.
Produção da agricultura familiar é escoada para a merenda escolar
A maior parte da produção da agricultura familiar de Foz é escoada para programas de compras públicas, especialmente o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que faz parte da merenda escolar.
Professor do curso de Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar da Unila, Jeferson Tonin enfatiza que a comercialização da produção é um dos principais desafios da agricultura familiar não apenas em Foz, contudo na cidade a situação é mais complicada pelo pequeno número de feiras livres.
Tonin realça que há pontos individuais de comercialização, porém em muitos casos não são de agricultores, e sim de comerciantes.
Para ele, o fortalecimento das feiras existentes e a viabilização de novos espaços seriam essenciais para ampliação dos mercados e diversificação das fontes de renda da agricultura familiar.
O docente também destaca o panorama da agricultura em Foz do Iguaçu. . Enquanto o Paraná e a região Oeste tem menos de 30% dos estabelecimentos com menos de 5 hectares, Foz do Iguaçu possui 74,5%, o que indica um perfil diferente de propriedades rurais, predominando pequenos estabelecimentos, explica.
Crédito limitado
Conforme Tonin, na comparação com a região Oeste e com o estado, a agricultura de Foz também possui um baixo índice de acesso a crédito – apenas 8% , enquanto a média do oeste paranaense é de 37,7%.
Ele também ressalta que os dados do último censo agropecuário (IBGE, 2017) indicam que em Foz do Iguaçu 66,7% dos 565 estabelecimentos agropecuários são familiares, percentual inferior às médias regional, estadual e nacional.
Essas propriedades representam 23% de toda área ocupada por propriedades rurais, ou seja, 2/3 dos estabelecimentos do município, mas que ocupam apenas 1/4 da área.
O professor cita que uma das principais ações de fortalecimento da agricultura familiar é a disponibilização de políticas públicas específicas.
Embora o Pronaf seja uma importante política pública para agricultura familiar, analisa, percebe-se que há muitas dificuldades de torná-lo acessível aos pequenos produtores, especialmente de frutas e hortaliças de pouca escala.
Ainda de acordo com o docente, é preciso ampliar os mercados da agricultura familiar, garantir acesso à assistência técnica e à extensão rural e fortalecer as organizações coletivas, como cooperativas e associações.
Outras soluções, menciona, seriam ampliar os programas de compras públicas, viabilizar infraestrutura física para operacionalização de feiras e integrar as redes da agricultura familiar local aos circuitos do turismo iguaçuense.
Para Tonin, o fluxo de turistas, o interesse pelos produtos locais e a rede hoteleira podem ser explorados. “Aquilo que, por um lado, pressiona o espaço rural, por outro, pode constituir uma estratégia de ampliação de mercados”, frisa.
No entanto, o professor pontua que tais iniciativas não podem ser isoladas ou individuais, por isso é preciso uma articulação do poder público com as demais organizações locais.
Box social para a agricultura familiar
Uma das tentativas de comercialização da agricultura familiar é por meio do conceito de box social do Mercado Público Barrageiro, administrado pelo Itaipu Parquetec. Apesar da iniciativa, somente um box vende frutas, verduras e hortaliças no mercado.
O Parquetec explica que o conceito de box social é uma política de apoio, estruturada para viabilizar a implantação e a consolidação desses empreendimentos.
Nesse modelo, o mercado contribui com a estrutura e adota condições facilitadas de entrada, com isenção total no primeiro ano, cobrança de só 25% no segundo ano e progressão gradativa até a integralização dos valores no quarto ano.
Atualmente, estão no mercado as cooperativas Coaffoz, voltada à comercialização de produtos da agroindústria e de pequenos produtores locais, e a Casa da Colônia (Aproffoz), que atua com restaurante e hortifruti, reunindo mais de 120 famílias de produtores rurais.
Ambas cumprem papel relevante ao conectar a produção de seus associados e cooperados diretamente aos visitantes do Mercado Barrageiro, informa o Parquetec.
Em nota, o Parquetec ainda ressalta que será inaugurado o Armazém do Campo (Coopercam), cooperativa regional com cerca de 1.800 cooperados ativos, com foco no encurtamento da cadeia de comercialização, na valorização da produção local e na ampliação da oferta de produtos no empreendimento da Vila A.
Também está em processo de montagem a Sustentec, com inauguração prevista para os próximos 60 dias, voltada ao cultivo orgânico e agroecológico, especialmente de plantas medicinais.
Segundo o Parquetec, há uma estreita articulação com a Secretaria Municipal de Agricultura, com a qual o Mercado Público Barrageiro já realizou ações conjuntas de valorização dos produtores locais, incluindo a Feira Sabores do Campo, em que reuniu diversos agricultores e produtores da agroindústria e Feira do Peixe.
Há também parceria com a Itaipu Binacional para viabilizar a instalação de uma peixaria, conectando associações de pescadores ao espaço para comercialização dentro do Mercado Barrageiro.
Prefeitura diz que investirá em barracas
Questionada sobre a falta de apoio à agricultura familiar, a prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Agricultura (SMDE), apresenta os seguintes esclarecimentos sobre as políticas voltadas à agricultura familiar em Foz do Iguaçu:
No que diz respeito à infraestrutura de comercialização, informamos que, embora não existam queixas formais registradas por produtores ou seus representantes sobre as feiras atuais, o município está em fase avançada de captação de recursos para a aquisição de barracas padronizadas destinadas à Feira Semanal do Produtor Rural, no centro.
Ainda sobre espaços de venda, cabe destacar a situação da área na Avenida das Cataratas. O local, cedido para a agricultura familiar, ficou abandonado pela instituição responsável por mais de quatro anos.
O município iniciou o processo de reintegração de posse, mas, em respeito aos produtores e após a apresentação de um novo plano de trabalho pela entidade, decidiu conceder uma nova oportunidade para que o espaço cumpra sua finalidade social e econômica.
Quanto à estrutura administrativa, a gestão atual reconhece que a extinção da Secretaria de Agricultura em períodos anteriores foi um erro estratégico que reduziu a capacidade de fomento ao setor.
O trabalho atual, no entanto, é de reconstrução. Foz do Iguaçu vive hoje o maior volume de investimentos na história da agricultura local, com recursos expressivos para pavimentação de estradas rurais e reformas estruturais. O objetivo é fortalecer as políticas públicas para que a recriação da Secretaria seja uma consequência natural do robusto volume de atividades em curso.
Complementando esse fortalecimento, estamos ampliando a capacidade logística e de distribuição do Banco de Alimentos e estruturando iniciativas inéditas, como o Programa Compra Direta Municipal, o Fundo Municipal de Saúde e Segurança Nutricional e a criação do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural.
Por fim, sobre o apoio mecanizado, esclarecemos que a afirmação de falta de equipamentos não condiz com a realidade. O município mantém uma frota ativa e em constante reforço. Recentemente, o suporte ao produtor foi ampliado com a doação de uma retroescavadeira e uma escavadeira hidráulica, viabilizadas pelo Deputado Federal Luciano Alves.
Somado a isso, o município possui um processo de licitação em trâmite interno, na ordem de aproximadamente R$ 4 milhões, para a aquisição de novas máquinas e equipamentos, valor que poderá ser expandido conforme a demanda técnica.


