Histórias de migrantes geralmente são marcadas por dor, preconceito e esperança de encontrar uma vida melhor em outro país ou continente. Cidade planetária, Foz do Iguaçu reúne estrangeiros de 95 nacionalidades com uma trajetória de resiliência e conquistas. E a comunidade haitiana é um exemplo.
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Estatísticas da Polícia Federal (PF) indicam que hoje vivem na cidade 554 haitianos, e a maioria fixou residência na área central e na Região Norte — nos bairros Vila C, Porto Belo e Polo Universitário.
Muitos foram obrigados a deixar o país de origem, que há mais de três décadas passa por uma crise econômica e social e sofre os efeitos do terremoto ocorrido em 2010, o qual deixou mais de 200 mil mortos.
Em Foz do Iguaçu, os haitianos estudam, trabalham e criam raízes. Eles são são estudantes, empresários, comerciantes, guias de turismo, recepcionistas em hotéis e hostels, trabalham como garçons ou lavam panelas, pratos e chão.
Graduado em Relações Internacionais, Stephanas Estephat, 35 anos, considera o grande terremoto o marco temporal da migração haitiana. Foi naquela época que muitos haitianos começaram a deixar o país, inclusive para estudar, porque muitas instituições de ensino foram destruídas.
Alguns deles vieram completar os estudos ou graduar-se na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), que tem processo seletivo para refugiados.
Estephat salienta que o país teve um presidente assassinado e o capital econômico está tomado por grupos armados. Por isso, quem tem família no Haiti e a possibilidade de chamá-la para viver no Brasil vai fazer isso. “As pessoas têm visto para vir e vão mudando a perspectiva para conseguir o que sempre sonhou.”
O jovem conta que quando chegou ao Brasil foi morar no Rio de Janeiro. De início, ficou um tempo sem trabalhar, porque o pai conseguia enviar-lhe algum dinheiro. Porém, esse período não durou muito, e ele começou a trabalhar em uma papelaria. Lá, diz, entrava às 7h50 e não tinha horário para sair. “Eu não fui registrado, e na condição de migrante você precisa aceitar isso”, afirma.
Secretário de Direitos Humanos da Associação dos Migrantes, Indígenas e Refugiados de Foz do Iguaçu (AMIRF), Estephat relata que os haitianos chegam sem saber português e, mesmo que tenham uma formação no país de origem, acabam fazendo um trabalho que não corresponde à qualificação que possuem. “Às vezes, você começa em um emprego que não gostaria, mas é um ponto de partida”, observa.
Uma das barreiras para conseguir um trabalho com carteira assinada de imediato é a demora para regularizar a condição migratória no Brasil, situação que tem mudado, pois muitos haitianos entram no Brasil a partir de pedidos de visto humanitário ou de reagrupamento familiar.
O período de adaptação é o mais difícil. Muitos imigrantes acabam submetidos a exigências descabidas de patrões até conseguirem falar português e ter garantias trabalhistas. “Você é sem voz, preguiçoso e não pode responder para o líder.”
Imigrantes não são uma ameaça
Presidente da AMIRF e mestre em Relações Internacionais, Roldy Julien frisa que, mesmo com a identidade brasileira e todos os documentos regularizados, os imigrantes continuam sendo tratados como “imigrantes”, e as pessoas os enxergam como uma ameaça.
Foz do Iguaçu, por exemplo, tem mais de 20 imigrantes haitianos com casas compradas à vista e que moram em outros países, como Canadá e Estados Unidos. São pessoas que pagam impostos, geram renda ou também estudam, tornando-se médicas, engenheiras, arquitetas e que aceitam o próximo e entendem que o próximo é diferente.
Hoje, na condição de brasileiro, empresário e estudante de pós-graduação que paga impostos e gera empregos, Julien vê nas ruas haitianos sendo maltratados e pessoas dizendo que eles recebem Bolsa Família do governo. “A pessoa não sabe o que você passou”, lamenta.
Parte da história de Julien é de persistência. Ele relata que, ao longo de três anos, dormia cerca de três horas por noite. Estudava na Unila de dia e às 18h ia ao Colégio Agrícola fazer curso técnico até as 23h. Ele ainda trabalhava como motorista de aplicativo e chegava a tomar remédio para conseguir ficar acordado durante as aulas.
Segundo Julien, atualmente há mais de 50 mil haitianos no Brasil trabalhando com carteira assinada, pagando impostos, e uma pequena parcela recebe ajuda do governo.
Ele ressalta o papel do migrante no Brasil. “Ninguém lembra do migrante quando come o churrasco. Quem mata esse animal geralmente são migrantes e pessoas negras. Quem trabalha no cultivo da cana-de-açúcar são pessoas pobres, a maioria negra e migrante.”
Lembra também que a cachaça, a cerveja, a carne gostosa, a taça de vinho e a roupa bacana que muitos usam são pessoas pobres que produzem. “São pessoas pobres que produzem e se sacrificam para a economia básica do país. Essas pessoas não têm nem um centavo desse bilhão.”
Julien ainda desafia alguém mostrar um haitiano pedindo esmola na rua. Conforme ele, a cultura no país de origem é de trabalho. “A gente foi educado a estudar e trabalhar. O trabalho pode ser difícil, pesado. Você dorme pouco, trabalha muito e ganha seu dinheiro com dignidade”, completa.
O presidente da AMIRF faz outro desabafo. “A sociedade não quer saber o quanto você sofre, mas quer saber se você consegue chegar lá.”
Migração é interiorizada, diz professora
Professora doutorada do curso de Relações Internacionais e Integração, do Mestrado em Relações Internacionais da Unila e coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Melo — Universidade Federal da Integração Latino-Americana (CSVM-ACNUR), Karen Honório explica que o principal motivo que estimula a chegada de haitianos ao Brasil é a situação do país natal, onde há uma combinação de crise econômica, social e violência.
O Haiti, destaca, sofreu um golpe no final dos anos 1990 e nunca mais conseguiu estabilizar-se.
A professora relata que a migração haitiana é bastante interiorizada. Os haitianos, de acordo com ela, costumam fixar-se em cidades menores, nas quais há mais oferta de empregos. Ela informa que boa parte deles que chega ao Brasil tem uma escolaridade muito superior aos trabalhos que ocupam.

A dificuldade de revalidar diplomas os leva a trabalhar em cargos inferiores à capacidade que têm. Em Foz, muitos haitianos trabalham no turismo justamente por falarem várias línguas, sendo as principais o francês e o inglês.
Ela ainda diz que a cidade está se ganhando visibilidade em governança migratória e acolhimento com atividades desenvolvidas por diversas instituições, tais como a Casa do Migrante, Cáritas e universidades.
Preconceito é barreira
Uma das grandes barreiras enfrentadas pelos haitianos no Brasil é o preconceito. Se não bastasse a xenofobia, eles também sofrem por serem negros, diz a professora. “No Brasil, há uma estrutura racista que acaba se projetando nos imigrantes, que é um preconceito ligado à nacionalidade e à raça.”
A situação que eles enfrentam é diferente em relação à de outro grupo de migrantes, que são os árabes, cuja migração já está estabelecida no país.
A relação entre o Brasil e o Haiti é próxima. O Brasil participou da operação de paz promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) e, depois do terremoto que atingiu o país, estabeleceu o visto humanitário para acolher os imigrantes, condição que elimina barreiras burocráticas e facilita a chegada deles ao território brasileiro.
Com a criação desse vínculo, o fluxo de imigrantes começou a crescer a partir de 2010, com a Operação Minustah — Missão de Paz da ONU no Haiti, conduzida pelo Brasil entre 2004 e 2017, explica Karen.
Politicamente, esclarece a docente, o Haiti vive uma forte disputa entre o governo e grupos armados, os quais atuam como se fossem milícias em um cenário de instabilidade política e de muita violência.
Foz é porta de entrada de haitianos
Entre o final de dezembro e o início de janeiro, Foz do Iguaçu recebeu três voos fretados trazendo haitianos. São imigrantes que já têm parentes no Brasil e usufruem o direito de vir para o país com base no reagrupamento familiar.
Cerca de 300 haitianos passaram pela cidade, contudo apenas três permaneceram em Foz com o objetivo de estudar na Unila. Para receber os imigrantes, foi feita uma ação integrada entre diversos órgãos e entidades.
A passagem transitória deles pela cidade já foi suficiente para gerar preconceitos. Nas redes sociais, moradores de Foz do Iguaçu fizeram comentários demonstrando preocupação com a possibilidade de os imigrantes ficarem nas ruas pedindo esmola ou de eles disseminarem doenças.

O apoio veio da prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Assistência Social, Polícia Federal, Receita Federal, Associação dos Migrantes, Indígenas e Refugiados de Foz do Iguaçu, Comitê Municipal de Migração, Itaipu Binacional, Agência Nacional de Vigilância Sanitária e Vigiagro.
A maioria dos imigrantes tinha como destino o Sudeste, o Sul e o Centro-Oeste para estudo.
País protagonizou revolução anticolonialista e antiescravagista
Haiti significa “terra das montanhas altas”. O país caribenho foi colônia francesa nos séculos 17 e 18, tendo sido palco de uma revolução que culminou na conquista da independência em 1804. O movimento foi protagonizado pelo ex-escravo Toussaint Louverture.
A revolução haitiana é considerada de extrema importância na história, porque foi a única que acabou com o colonialismo europeu e a escravidão, e o país passou a ser governado por não brancos.


