Os moradores de Foz do Iguaçu têm vivido uma situação complicada em relação ao fornecimento de energia elétrica. A combinação de altas temperaturas com a privatização da Copel criou uma crise de atendimento sem precedentes. De 2024 para 2025, o número de reclamações contra a concessionária via site da prefeitura aumentou 97% na cidade.
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Desde a privatização da companhia, em agosto de 2023, a insatisfação popular deixou de ser apenas uma percepção para virar estatística. As queixas mais recorrentes não são somente sobre a falta de luz, mas tocam no bolso: 35,8% das reclamações em 2025 se referem a “cobranças por irregularidade ou defeito”, casos em que a empresa aplica multas após inspeções nos medidores, gerando contestação imediata dos usuários.
O colapso do atendimento humano
Para quem trabalha no setor, a raiz do problema é a mudança radical no modelo de gestão. Roberto Bispo dos Santos, empregado da companhia e diretor do Sindicato dos Eletricitários de Foz do Iguaçu (Sinefi), denuncia que a lógica do lucro atropelou a qualidade técnica. Segundo ele, após a privatização, a Copel terceirizou 100% do atendimento presencial, substituindo funcionários de carreira por mão de obra com treinamento precário.
“A falta de qualificação e treinamento dos terceiros prejudica muito. Um eletricista próprio da Copel fazia um treinamento inicial de 40 dias, entre teórico e prático. Hoje, um treinamento para um terceiro é de dez horas online“, revela o diretor sindical.
Além disso, o sindicato vê como um problema a extinção de equipes próprias e a manutenção preventiva. “Hoje, existe a manutenção corretiva e com baixa qualidade, devido à terceirização”, explica. Ele também alerta que a empresa tem distribuído mais de 75% do lucro em dividendos para acionistas, em vez de reinvestir na rede, que em alguns pontos possui mais de 30 anos sem melhorias significativas. “Acredito que o Brasil e Foz do Iguaçu terão um colapso em poucos anos.”
O paradoxo da energia solar e o calor
Além da gestão, há um gargalo técnico. A infraestrutura da cidade não acompanhou o crescimento urbano. “Muitas subestações operam no limite, e outras já dependem de carretas móveis. É um sinal de capacidade insuficiente”, contextualiza Roberto Bispo dos Santos.
Outro fator que pressiona a rede é, ironicamente, a solução que muitos consumidores buscaram: a energia solar. Com a instalação de placas fotovoltaicas, as famílias aumentaram, sobretudo, o número de aparelhos de ar condicionado. O problema ocorre, sobretudo, à noite, quando a geração solar para e todos os equipamentos são ligados simultaneamente na rede da Copel, que não foi dimensionada para essa nova carga.
“Com a popularização das placas solares, o consumidor instala mais equipamentos e eleva a carga. Quem tinha um aparelho de ar condicionado passa a ter três e os usa à noite, porque tem reserva de energia gerada pelas placas. O problema é que a rede da Copel não está preparada”, ressalta.

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A batalha pelo ressarcimento
Na ponta final desse curto-circuito está o consumidor, que lida com as oscilações da rede e até equipamentos queimados. As queixas chegam ao Procon em Foz do Iguaçu, que analisa e encaminha os procedimentos. O diretor do Procon em Foz do Iguaçu, Sidney Calixto, atribui esse aumento das queixas a alguns fatores, como a infraestrutura envelhecida e a expansão urbana. “Parte da rede elétrica foi implantada há décadas e passa por modernização gradual, gerando mais demandas. O crescimento populacional amplia o consumo e as interações com a concessionária”, sinaliza.
O diretor também atribui o pico à maior visibilidade e atuação do Procon nas redes sociais e nos canais digitais, o que facilita o acesso da população ao órgão e incentiva a população a formalizar reclamações que, antes, muitas vezes não registrava oficialmente. “O Procon acompanha esses indicadores de forma técnica e mantém diálogo institucional com a concessionária sempre que necessário, buscando aprimoramentos no atendimento e na prestação do serviço”, informa o diretor.
Ademais, para o caso de equipamentos queimados, a orientação do Procon é reunir documentação, como nota fiscal, laudo do dano e provas do evento, como registros meteorológicos. “Essa documentação é essencial para análise do nexo causal.” A reclamação deve ser feita online, pelo link https://sistemas.pmfi.pr.gov.br/RP/SMTIPublico/Procon/reclamacao.
Na sequência, o Procon verifica respeito aos direitos, transparência e ausência de abusos. Com provas consistentes, o ressarcimento ocorre na maioria dos casos. Contudo, controvérsias técnicas demandam avaliação individual.
Por fim, Calixto também esclarece que o Procon não possui capacidade técnica nem atribuição regulatória para realizar perícia em medidores ou para avaliar tecnicamente se houve, de fato, adulteração, rompimento de lacre ou irregularidade estrutural no equipamento. “Quando a concessionária apresenta laudo técnico indicando fraude ou violação do medidor, a contestação dessa conclusão depende, em regra, de prova técnica em sentido contrário”, finaliza.
Sem respostas
O H2FOZ entrou em contato com a Copel para solicitar esclarecimentos sobre a situação. Desde o dia 13 de fevereiro, foram feitas tentativas de comunicação em seis diferentes dias, mas a equipe não recebeu resposta até o prazo estipulado para o fechamento desta matéria. O portal permanece à disposição da companhia para atualizar o conteúdo, caso ela se manifeste posteriormente.

