Aida Franco de Lima – OPINIÃO
Provavelmente, você viu mais notícias sobre jogos de azar e “desinfluenciadores” que a notícia sobre a luta dos povos indígenas e comunidade local contra o projeto para transformar rios da Amazônia em hidrovias, atingindo trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. Falei aqui sobre esse tema quando as instalações da multinacional Cargill foram ocupadas como forma de pressionar o governo a reverter o Decreto 12.600/2025. A sede da empresa foi ocupada justamente porque ela é o símbolo de uma gigante do agronegócio que fatura na região.
A luta pela preservação da natureza é de interesse público, mas nem sempre do público. Nem sempre a mídia, a comunidade, é sensibilizada o suficiente. Há incontáveis outros temas que ganham destaque. Claro que o assunto teve repercussão na mídia, porém não com a intensidade e periodicidade como outros. E nessa terça-feira, 24, veio a tão esperada notícia. A luta da comunidade não foi em vão, nunca é. Alguma semente fica plantada, mesmo que às vezes demore a germinar.
Em reportagem publicada pelo Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), “para a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), a revogação da norma representa uma conquista construída com resistência e unidade”. Em publicação nas redes, a entidade afirmou que a decisão reafirma que direitos indígenas não são negociáveis e que qualquer medida que impacte seus povos deve respeitar o direito à consulta prévia. A organização também destacou que a mobilização fortalece o movimento indígena na defesa dos territórios, da autonomia e dos direitos constitucionais. “O Tapajós mostrou que a luta organizada é capaz de barrar retrocessos e afirmar nossos direitos constitucionais”, afirmou a COIAB.
Para o leigo ou aquele que conhece muito bem o sistema de hidrovias, mas tenta minimizar o impacto gerado, tal mobilização deixa de ser uma luta pela natureza, e sim contra o agronegócio. É sempre a mesma fala: “Precisamos de desenvolvimento, este é o preço do progresso. Com tal empreendimento, vamos gerar xis empregos”… e blablablá.
A proposta de entregar os nossos rios à exploração comercial está conectada à redução de custos logísticos e de distâncias e à ampliação da competitividade do agronegócio no cenário global. Para tanto, seria necessário mexer no curso natural, dragando os leitos para que os rios possam garantir a navegação mesmo no período de estiagem.
Em editorial publicado nesta quarta, 25, o jornal Estadão considerou o movimento em defesa dos rios “gritaria, episódios de violência e ataques a instalações privadas”. De outro modo, os manifestantes destacam que não houve consulta prévia à comunidade e que quem provocou violência foi um deputado do PL, denunciou o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (CITA):
- “Na noite desta quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026, durante a vigília do movimento indígena na barreira instalada na BR-163 (Santarém-Cuiabá) — que dá acesso ao terminal de cargas da transnacional Cargill, em Santarém (PA) — um veículo de alto padrão conduzido pelo vereador Malaquias Mottin (PL) avançou contra a barreira, empurrando pneus e estruturas de bloqueio. Nos vídeos que circulam nas redes sociais, é possível ver o político de extrema direita jogando o carro na direção de manifestantes, em uma área onde havia crianças, idosos e famílias”, afirmou a entidade.
Quando a sociedade se mobiliza para cuidar da natureza, para preservar a vida, é sempre tachada de violenta. Como se não fosse violência maior transformar rios que — são extremamente importantes para a biodiversidade — em meros canais de transporte. Como um asfalto seco e sem vida. A sociedade precisa, e muito, salvar o que resta da natureza daquele que deveria protegê-la e, invariavelmente, não o faz: o poder público.
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