Na semana que termina, polêmicas envolvendo a abertura da rodovia Perimetral Leste ao tráfego e a “paternidade” de obras como a Ponte da Integração tomaram conta do noticiário e das rodas de conversa em Foz do Iguaçu.
Leia também:
Cobertura do H2FOZ sobre o impasse envolvendo a Perimetral Leste em Foz do Iguaçu
As discussões giraram em torno de quem financiou, quem iniciou, quem levou adiante e quem finalizou, bem como quem terá o direito de aparecer na foto oficial da inauguração.
Para a população, contudo, interessa mais saber quando e como as estruturas estarão em funcionamento. O quem tem baixa relevância, pois o dinheiro (mesmo o de Itaipu Binacional, empresa vinculada aos governos dos dois países) vem do contribuinte.
A Ponte da Integração Brasil–Paraguai, vale lembrar, está oficialmente pronta desde agosto de 2023, mas segue sem uso.
Já a Perimetral Leste foi liberada na última quinta-feira (11), após visita do governador. Entretanto, órgãos como o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT) pediram o fechamento da maior parte dos trechos, por necessidade de adequações.
Em paralelo a obras tão importantes quanto a Perimetral Leste e a Ponte da Integração, outras, como a duplicação da BR-469, seguem inacabadas, mesmo após repactuações de custos, cronogramas e responsabilidades.
Foz do Iguaçu e região têm pressa para que seus principais corredores percam o status de canteiro de obras e entrem, de fato, para a logística do transporte fronteiriço.

Até parece “replay”… (1)
Seis décadas antes da construção da Ponte da Integração, porém, a fronteira viveu impasse similar, na década de 1960, com a Ponte da Amizade.
Conforme compilado pelo H2FOZ em retrospectiva histórica sobre o tema, a cerimônia de início das obras ocorreu em 6 de outubro de 1956, com a presença dos presidentes JK e Stroessner.
Em janeiro de 1961, o mandato de JK estava nos últimos dias, mas a obra não dava mostras de que terminaria. Stroessner, então, convidou o colega para uma “inauguração simbólica”, que serviu apenas para as fotos.

Cinco dias após a visita, JK passaria o cargo para Jânio Quadros, que renunciaria em agosto daquele ano. O presidente seguinte, João Goulart, governou em meio às tensões que levaram, em 1964, a um golpe de estado.
Assim, com outras prioridades no horizonte, a Ponte da Amizade foi caindo no esquecimento dos governantes. Desde 1962, por exemplo, a ponte já estava aberta e sendo usada pela população local, mas nenhum presidente apareceu para cortar a fita.
O dia 27 de março de 1965 entrou para a história como a data oficial de inauguração da passarela fronteiriça, com um encontro entre Stroessner e Castelo Branco.

Com a Ponte da Amizade inaugurada após três anos de espera, porém, ainda faltava um detalhe: a BR-277 continuava em obras, dificultando seu uso contínuo até Paranaguá.
O asfaltamento completo da rodovia terminaria apenas quatro anos mais tarde, em 1969. A cerimônia oficial teve novamente a presença de Stroessner (que ficou 35 anos no poder no Paraguai), acompanhado pelo também militar Costa e Silva.
Até parece “replay”… (2)
Em 29 de novembro de 1985, os presidentes do Brasil e da Argentina, José Sarney e Raúl Alfonsín, vieram à fronteira inaugurar a Ponte Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú.
Sarney e Alfonsín foram os primeiros presidentes de seus países após a redemocratização. De imediato, surgiram debates sobre a “paternidade” da obra, com setores argumentando que governos civis jamais teriam capacidade para realizá-la.

Discussões fora de foco
Na visão do H2FOZ, porém, vale o escrito no início do texto: quando o dinheiro pertence a todos, como no caso do orçamento público, o quem deveria importar mais para efeitos de responsabilização, não para promoção particular de governante “A” ou “B”.
No próximo dia 20, em paralelo à Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Países Associados, os presidentes Lula e Santiago Peña terão a oportunidade de aproveitar a agenda na fronteira para inaugurar a Ponte da Integração.
Se a liberação (ainda que parcial) para o tráfego, de fato, acontecer, ponto para brasileiros e paraguaios. Que as discussões estéreis não contaminem o debate e não atrasem, ainda mais, a resolução dos problemas estruturais da fronteira.
Apoie o jornalismo em Foz do Iguaçu e fronteira. Assine o H2FOZ!
Obrigado pela leitura e ótima semana!
Guilherme Wojciechowski colabora diariamente com o H2FOZ e redige, aos domingos, a edição semanal da Carta ao Leitor.

