Não é o que parece

Eliana Tao | OPINIÃO

Dia desses, a minha dona estava murchinha, meio nostálgica, folheando um caderno cor-de-rosa. Ela abriu em uma das páginas marcadas e leu em voz alta: “Entre os sonhos e a realidade, alguns optam pelos sonhos e vivem de fantasias; outros optam pela realidade e sobrevivem com certo ar de pessimismo”.

Faz quase uma década que essa mensagem foi escrita, e fiquei pensando com meus três neurônios que a pessoa certamente não fazia ideia de quão profundas e atemporais são tais palavras, afinal qual a ilusão do momento? A de que a doença da covid-19 já passou, já acabou!

Eu juro que tento, mas muitas vezes não consigo entender os humanos! Põem nas redes sociais os temas que falam que amam a família, para mandar a pandemia embora, mas fora das telas fazem tudo ao contrário. Sábio é este Tiago Iorc, que descobriu que esses seres são uma espécie de zumbi digital que “seguiu o bando a deslizar a mão para assegurar uma curtida”.

E não estou exagerando. Tem muita gente respeitando as regras de distanciamento e isolamento social, mas também tem um montão que é doida por uma aglomeração: seja fila de barzinho, festa clandestina, praia, chácara, centro de comércio popular, inauguração de danceteria cheia de frescurites.

São humanos que se importam somente com o presente: “Nós só temos hoje. Em seguida, ele gira e gira e para sempre não está à espera. E o tempo continua a contagem regressiva para o agora”, como retratou o cantor country canadense Paul Brandt. Já outros tomaram como mantra o instante de rebeldia do Vitor Kley: “Não vou passar mais uma noite esquentando o sofá! Preciso sair pra rua!”.  

Essas pessoas acreditam ser blindadas para o coronavírus, fantasiando ser super-heróis: “Eu tenho a força! Sou invencível! (…) Unidos venceremos a Semente do Mal!”. Verdade que há muita coisa que não faz parte do mundo dos pets e que muito foge da minha compreensão. Complicado dizer se estão vencendo alguma coisa, mas fato é que a ameba invisível da pandemia está crescendo de maneira assustadora. Importante lembrar que todo herói tem um ponto fraco: Super-Homem cai do cavalo e fica tetraplégico. Até a Mulher-Maravilha teve receio e acabou mudando todo seu plano para as férias de 2020 por conta da síndrome respiratória aguda grave.

É claro que cada pessoa pode viver como quiser: mais realidade ou mais fantasia. Mas será que dá para fazer isso sem piorar a situação atual? Outro dia saí com a mamãe para uma voltinha rápida, e encontramos um admirador meu. A pessoa abaixou a máscara e exclamou: “Ela é linda!”. Lógico que gostei do elogio, mas entenderia mesmo se fosse dito com a boca e o nariz tapados. Como teve um fulano que gritou “vai pra casa, idosa!”, tempos atrás, eu resolvi alertar em idioma cachorrês:

— Ponha a máscara do jeito certo, humano! E mantenha distância! Agora mais do que nunca é “cada um no seu quadrado!”, como diz a música. Humanos sabem muito bem o que fazer para frear essa doença, falta boa vontade para seguir as normas sanitárias. Enquanto isso, um profissional da área de saúde esgotado física e emocionalmente desabafa: “Fiz plantões direto sábado e domingo!”.

Mas eu tenho uma ideia para a turma que curte viver uma fantasia. Façam de conta que vocês são Michael Jackson! Já na década de 1990, o Rei do Pop saía usando máscara cirúrgica cobrindo o nariz e a boca. Agindo dessa forma, além de proteger-se e proteger os outros, estarão atendendo a um pedido do astro da música: “Cure o mundo. Faça dele um lugar melhor para você e para mim e toda a raça humana. Há pessoas morrendo. Se você se importa o suficiente com os que vivem, faça dele um lugar melhor para você e para mim”.

Em 2020 e muito provavelmente também no futuro próximo, a festa é sua sim, mas nem sempre é nossa e em hipótese nenhuma é de quem quiser, quem vier. Mesmo já escancarando que você orgulhosamente integra a galera que não está nem aí para os outros, faça o que estiver ao seu alcance para a conter a disseminação da covid-19, pois “é inegável que sua vida é algo precioso”, como lembrou a banda INXS em uma de suas canções. Não menospreze um conselho de uma chow-chow famosinha: a fileira de cinco vidas só existe nos jogos eletrônicos. Fora das telas é difícil encontrar um bônus para a vida atual e mais raro ainda é ser agraciado com uma vida extra. Na vida real, o game over é definitivo.

* Eliana Tao é jornalista em Foz do Iguaçu e colunista do H2FOZ.

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Eliana Tao

Eliana Tao é jornalista e colunista do Portal H2FOZ. Veja mais mais conteúdo da autora.

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