Para o homem de preto

Eliana Tao | OPINIÃO

Embora a situação continue crítica em terras tupiniquins em decorrência da COVID-19 é importante ser capaz de controlar a preocupação excessiva, visando a manutenção da saúde física e emocional.

Tivemos que abrir mão (momentaneamente, eu espero) dos lazeres coletivos para ajudar a conter a propagação da doença. Nesse sentido, muitas pessoas se voltaram – novamente – para aquela distração individual, enquanto outros descobriram uma nova paixão.

É o caso de um amigo que se tornou um profundo apreciador de telenovelas turcas com legendas em espanhol. Eu já gosto da produção nacional, mas vez ou outra uma trama chinesa, exibida no canal de televisão fechado chama a minha atenção e acompanho a estória desde o início.

Por essa razão alegra-me ver a trajetória de José Alfredo Medeiros retornar para a telinha após um espaço de tempo relativamente curto. Mas calma, Comendador! Não sou outra interessada em desmantelar o seu império, só sinto uma pontinha de inveja por você pertencer a uma obra de ficção coletiva baseada na livre criação artística e sem compromisso com a realidade.

Não! Não estou exagerando! A realidade está preta por aqui, mais preta do que seu figurino monocromático. Sei que aprecia a fala sincera e direta: a verdade é que “o Brasil tá lascado!” (ainda mais de 2014 para cá).

As semelhanças entre ficção e realidade não param por aí. Ao longo de sua caminhada, incluindo as derrapagens no caminho, o “homem de preto” enfrentou um inimigo invisível. Pois é! Nós temos que encarar um também. Trata-se do vírus SARS-CoV-2, também chamado de (novo) coronavírus ou covid-19: uma coisa minúscula, porém difícil de combater por ter comportamento resistente, traiçoeiro e camaleônico, deixando marcas em diferentes partes do planeta.

 Só que no Brasil o efeito foi e está sendo mais devastador. De patrões a funcionários, todos foram afetados. Muitos se sentiram perdidos, sem saber o que fazer como o João Lucas. Outros ficam como a Cristina, preocupados, afinal, de acordo com o provérbio inglês não há nada tão ruim que não possa piorar.

Os primeiros a sentir o baque foram os trabalhadores de nível operacional, como Ismael, auxiliar de almoxarife na Império das Joias. Colaboradores com baixo grau de instrução são os primeiros a serem dispensados na pandemia.

O marido da Lorraine ficou decepcionado, mas não se deixou abater. Tentou voltar a conseguir o seu ganha-pão como catador de recicláveis, porém em virtude das medidas restritivas para frear o avanço do vírus tais itens se tornaram quase tão escassos e raros quanto o espatifado diamante cor-de-rosa do Comendador. Recorreu ao auxílio emergencial do Governo Federal, benefício esse que auxilia cada vez menos a cada rodada de pagamento.

Os empresários do ramo da gastronomia também sofreram com os decretos municipais e estaduais que alteraram os horários de atendimento dos estabelecimentos. O Bar do Manuel ficou um bom tempo de portas fechadas e posteriormente num abre e fecha para cumprir as normas sanitárias. Até Cláudio Bolgari viu a sua agenda de eventos esvaziar, ter a data postergada ou ficar em aberto, pois comemorações não estavam sendo permitidas por causarem aglomerações. O “festeiro” também partilhou das dúvidas dos demais profissionais que atuam no segmento de alimentos e bebidas, pois como canta Raffa Torres: “A vida é um rio. Estamos no mesmo barco. Remaremos juntos”.

Apesar de todos os desafios os donos de empresas adotaram a postura descrita por Jay Vaquer: “me esforço, me lanço, me queimo no fogo. Insisto, resisto, invisto no jogo. Sem cartas na mesa, certeza nenhuma”. Como se isso não bastasse, ainda têm que se proteger de tipos como Severo e Magnólia que sempre viveram de arrancar o dinheiro dos outros. Em razão do distanciamento e isolamento social a dupla passou a fazer vítimas no mundo digital aplicando golpes como o do falso boleto, o do novo número (de whatsapp), o do pix agendado e muitos outros.

Por conta da pandemia Xana Summer ficou dividido: o dono do salão de beleza de Santa Teresa ficou triste por ter que deixar de tratar da autoestima dos amigos e clientes, mas honrado por voltar a ter seu crachá de enfermeiro Adalberto Couto, de modo a poder cuidar da saúde das pessoas no auge da transmissão do coronavírus.

Felizmente, depois de um longo e tenebroso ano, a situação está melhorando mundo afora. Em solo brasileiro também, pois mesmo com muita desordem vemos progresso na imunização da população apesar de aqui parecer amostra grátis. Mas tudo bem, afinal cada nova remessa da vacina que chega aumenta a proteção e a esperança nas pessoas.

Ainda assim é difícil responder minimamente como será o amanhã e essa visão nebulosa de futuro deixa muitos com o coração apertado. Aí a gente se inspira no Comendador José Alfredo Medeiros que dia desses estava incentivando um jovem conterrâneo ao recordar que “eu vim debaixo. Derramei muito suor, lágrima e até sangue. Batalhei e sobrevivi, como todo mundo faz”.

  Era a injeção de ânimo e coragem que faltava para seguir a diante. Além de lembrar que uma suposta frase atribuída a Charles Darwin muito apropriada para o momento: “as espécies que sobrevivem não são as mais fortes, nem as mais inteligentes, e sim aquelas que se adaptam melhor às mudanças”.

  No meio empresarial o movimento de incorporação do novo normal já começou. Independente do segmento de atuação e do porte do empreendimento o comércio eletrônico ganhou um forte impulso. A princípio, apreensivos, uns tornaram como mantra o refrão de um hit do Nando Reis “não vou me adaptar!”.

Cláudio Bolgari implantou as vendas online no seu restaurante com retirada na porta. Além disso, reestruturou a equipe de garçons: todos têm habilitação para conduzir motocicleta, assim podem trabalhar de maneira escalonada servido os clientes no local ou por meio de delivery. E não para por aí: o avanço do processo de imunização permitiu a Bolgari, bem como outros do seguimento de eventos abrirem suas agendas para comemorações e outras atividades que reúnam mais pessoas em um mesmo espaço, obviamente respeitando as determinações dos protocolos sanitários e de segurança.

Em Santa Teresa já tem um tempinho que o Bar do Manuel divulga e comercializa eletronicamente delícias da culinária nordestina com o uso de aplicativos de pedidos de refeições e outras ferramentas digitais. Para lidar com as modernices conta com a ajuda da Lorraine e para as entregas conta com o apoio de algum ex-comerciante do camelódramo, além do Ismael que conhece a cidade como a palma de sua mão. Com sorte após a chegada da refeição atendem outras demandas do mesmo cliente, como o de “marido de aluguel” por exemplo.

A grande paixão do Xana é exaltar a beleza das pessoas por meio do seu salão. Assim que controle da pandemia permitiu a retomada do funcionamento presencial de seu estabelecimento o cabeleireiro fez algumas mudanças: além do atendimento no local, passou a vender o kit preventivo COVID com máscara de tecido e minifrasco de álcool em gel para ninguém ficar desprotegido. Também trouxe a opção atendimento em domicilio para serviços de corte e tintura capilar, além de manicure e pedicure já ofertados anteriormente. A novidade foi o agendamento do serviço de massagem relaxante, voltado principalmente para os que trabalham em home-office.

 Apesar de tudo, a vida precisa continuar, da melhor forma possível, com todos os cuidados. Uma nova semana se aproxima e lembrar de trechos de canções da Legião Urbana motiva muita gente a seguir a diante: “Quando o sol bater na janela do teu quarto lembra e vê que o caminho é um só”. “Sempre em frente não temos tempo a perder”. Foi um prazer te escrever esta carta, Comendador José Alfredo Medeiros! Te vejo mais tarde no Plim-Plim!

* Eliana Tao é jornalista em Foz do Iguaçu e colunista do H2FOZ.

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