Uma coisa estranha no ar

Por Eliana Tao*

2020 parecia ser um ano como os outros, com as pessoas animadas e esperançosas com o início de uma nova etapa em suas vidas enquanto eu apreciava tudo isso algumas vezes entendendo, outras não, mas feliz por elas estarem felizes.

Só que de repente aconteceu uma reviravolta. Passei a ouvir coisas novas: termos como síndrome respiratória aguda grave, COVID-19, pandemia, (novo) coronavírus passaram a ser ditos repetidamente.

Os humanos diziam que essa coisa tinha chegado a vários lugares do mundo, sendo que em março passou a ter em Foz do Iguaçu também, o que aumentou ainda mais o meu estado de alerta, bem como minha curiosidade: queria saber a aparência, que som fazia, principalmente o odor que exalava.

Mesmo sem resposta para as minhas dúvidas, logo pude perceber que era invisível, mas poderoso, capaz de afetar com muita força a vida das pessoas. Algo que os humanos chamam de doença. Ela bagunçou a rotina de adultos e crianças, inclusive das minhas donas, pois mamãe saiu para caminhar e voltou contado que alguém gritou: “vai para casa, idosa!” para ela. Não entendi tudo o que isso significa, mas não gostei que falou nesse tom com minha mamãe. Se eu tivesse por perto esse fulano ia levar um sustão, uma rosnada minha, uma mordida ou tudo junto.

Eu que estava acostumada com determinadas atividades no cotidiano também tive a agenda alterada. Mudaram o percurso dos meus passeios, ficando inclusive mais curtos. A mamãe e a minha dona passaram a sair menos de casa e quando se ausentavam colocavam um negócio esquisito que cobria a metade inferior do rosto, que modifica a voz delas: humanos chamam de máscara, mas pros mais chegados é “negócio” mesmo. Muitas vezes a mamãe voltou me arrastando do passeio por esquecer de colocar esse “negócio” na cara dela: 

– Eu não vou mamãe! Acabamos de sair! Eu nem esquentei meu “motor” e minhas patinhas! Para a minha alegria, colocada a máscara a gente saía de novo, mamãe e eu.

E ficava muito confusa. Faz tempo decorei os dias dos compromissos delas e não tinha mais. Quando me acostumava com elas o tempo inteiro em casa, passaram a sair, mas não os mesmos dias de antes. Depois de habituada com as mudanças não podiam sair novamente ou voltavam pros horários antigos. É muita informação para uma chow-chow que só tem três neurônios, ainda mais uma “jovem senhora” de sete anos, começando a ficar grisalha. Sem falar nas palavras novas distanciamento e isolamento social, sem esquecer do complicado lock down: se nem as pessoas entendem direito como funciona, imagina eu que sou uma pet.

A decisão de abrir mão da companhia dos pets durante a pandemia pode ser consequência da falta de informação

Outra coisa que percebi é que os amigos vinham, mas não entravam mais. Eu juro que não é culpa minha: o doutor passou a entregar os chocolates para a minha dona pelo portão e aquele rapaz que sentava na poltrona e dizia “eu tô de boa aqui” com cara de ironia também passou a ficar só do lado de fora da casa.

Menos mal que os impactos foram poucos por aqui, porém ouvi dizer que a situação ficou complicada em outros locais. Muitas pessoas passaram a trabalhar remotamente de suas casas ou perderam seus empregos. Infelizmente, tal realidade respingou nos bichanos, deixando muitos sem lar. 

Dados compilados por organizações não-governamentais, pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária e pela SaferNet Brasil, organização que monitora conteúdos que violam direitos na internet mostram que o número de animais domésticos deixados à própria sorte aumentou cinco vezes durante a crise de saúde gerada pelo coronavírus. 

A decisão de abrir mão da companhia dos pets durante a pandemia pode ser consequência da falta de informação. Muitas pessoas abandonam os animais temendo que os mesmos transmitam a COVID-19 apesar de não saber se é verdade ou boato. Também não se descarta a instabilidade financeira como sendo outro motivo provável do abandono dos outrora companheiros, mesmo a turminha tentando argumentar com aquela carinha de “Eu não te entendo, eu apenas dependo dos teus olhos pra ver, dos teus lábios pra dizer” como descreveu Paulo Ricardo. Já os ex-donos tentam amenizar a gravidade da situação com a justificativa de Lulu Santos: “Não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais”.

A constante sensação de insegurança afeta as pessoas e os animais.

Tem que ser muito valente para enfrentar uma barra pesada dessas. Felizmente a bicharada não se deixa abater pelas adversidades motivando-se com a energia boa do Tiago Iorc: “E se caso for, eu posso esperar a chuva passar pra tudo recomeçar”. Muitos viram o arco-íris depois da tempestade. Mais pessoas buscaram partilhar esse momento de crise, incerteza e isolamento social na companhia de animais domésticos, optando pela adoção. Eu como dog concordo plenamente com tal atitude, afinal podemos não ser Michael Jackson, mas temos nosso próprio jeito de dizer e demonstrar que: “You are not alone, I am here with you”.

Muitos imaginavam que a crise de saúde mundial seria algo passageiro. Mas não foi: meses e meses e nada! Essa ameba invisível só cresce afinal, alguns países vivenciam a chamada segunda onda. 

A constante sensação de insegurança afeta as pessoas e os animais. Dia desses tive uma crise de instabilidade emocional e sobrou para a dog idosa do Dr. Roberto, mas graças à intervenção dos nossos pais tudo não passou de um grande susto. Fosse em outros tempos, papai esperaria eu me acalmar, sentaria no chão e perguntaria: “Oh, Bem! Por que tanta raiva nesse coraçãozinho?”

– Tá bom!  Já me arrependi! Foi mal doutor! Mas você me entende né? A gente também fica estressado com essa situação esquisita causada pela pandemia e acabou sobrando para a sua cadelinha.

“Calma, amor! Tudo vai ficar bem!”, aconselha Vitor Kley. Temos que acreditar nisso apesar da visão nebulosa do futuro. A vacina ainda não existe, mas estamos aprendendo a lidar com essa coisa monstruosa, tentando mantê-la sob controle. Já percebi que algumas atividades de convívio social foram parcialmente retomadas.

Vejo mais humanos nas ruas e muitos estão com comportamento diferente, inclusive comigo. Acho que deve ser o fato de eu ter aparecido na televisão. Sei que não sou uma Garota de Ipanema canina, mas antigamente as pessoas ficavam suspirando, admiradas com aquela cara de “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça. (…) O seu balançado é mais que um poema, é a coisa mais linda que eu já vi passar”. Contudo, a mudança no meu visual chocou alguns, visto que o moço que só usa preto disse que eu estava pelada: 

– Mas que absurdo! Ele que não entende nada de estilo! Papai dizia que eu tenho um summer look para passar pelos dias quentes sem sofrer. O novo trato na pelagem faz muito sucesso, pois agora as pessoas gritam “linda!”, assoviam para mim, param para conversar, tirar fotos. Até proposta de casamento já recebi! Eu fico numa boa só observando se meus admiradores estão mantendo o distanciamento social.

Nossa! Eu só entretida nas lembranças das minhas peripécias. Agora que eu reparei que o tempo está virando! Vou correndo dar uma voltinha com a mamãe antes da chuva cair.

* Eliana Tao é jornalista em Foz do Iguaçu e colunista do H2FOZ.

Gostou do texto? Contribua para ampliar o jornalismo em Foz do Iguaçu. ASSINE JÁ

error: O conteúdo é de exclusividade do H2Foz.