Bruno, Don e tantos outros… Até quando?

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Por Fabiano Severino – OPINIÃO

Até alguns dias atrás, muitos de nós não sabíamos quem eram Bruno e Don. Então ouvimos dizer que estavam desaparecidos na Amazônia. As primeiras informações relatam que um era indigenista e outro era jornalista. Logo, as redes sociais e veículos de comunicação começam a nos apresentar essas pessoas.

Bruno Pereira, recifense, 41 anos, servidor público federal vinculado à Funai, indigenista. Grande conhecedor, por opção e ofício, de povos isolados e recém-contatados da Funai, em que exerceu a coordenação dessa área até ser exonerado da função pelo então ministro da Justiça Sérgio Moro. Atualmente estava licenciado de seu cargo público e trabalhava com a Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), capacitando aquelas comunidades quanto à defesa e vigilância de seus territórios.

Don Phillips, britânico, 57 anos, jornalista que escreveu para o Washington Post, The New York Time e Financial Times. Morava no Brasil desde 2007 e atualmente escrevia um livro sobre desenvolvimento sustentável na Amazônia. Acompanhava Bruno numa viagem pelo Vale do Jaburu para entrevistar indígenas e ribeirinhos, coletando material para sua obra.

A Justiça precisará descobrir quem foi, ou foram, o responsável por disparar os tiros e ocultar os corpos. Terá de identificar, também, o(s) mandante(s), ou seja, quem ordenou e encomendou essas mortes.

O desfecho criminoso dessa história temos acompanhado. Já aparecem os autores desse crime violento e com toques de perversidade. Embora ainda não tenha(m) surgido o(s) nome(s) do(s) mandante(s), as balas que atingiram os corpos de Bruno e Don não estavam carregadas apenas com a munição, mas de outras coisas que conhecemos há muito tempo.

Estavam carregadas pela ganância por terras, pela ânsia de derrubar a floresta sob o argumento de desenvolvimento econômico, por meio de práticas comprovadamente já contestadas faz tempo. No Brasil não faltam pasto, área de plantio, minas de extração de minérios, madeira… Falta fiscalização, que este governo se empenha, desde que assumiu, para soterrar; falta cumprir a legislação sobre demarcação de terras indígenas; falta respeito a esses povos, respeito à natureza e defesa da vida.

A morte de Bruno, infelizmente, entrará para as estatísticas de outras tantas sofridas por ativistas que atuam onde o Estado não está, ou não quer, e defendem nada além do que é garantido constitucionalmente e pautado pela ciência. Lutam contra o negacionismo e essa pulsão de morte.

Don ousava exercer seu ofício, o de amplificar vozes daqueles que não são ouvidos. Falar sobre sustentabilidade e defesa de povos e natureza em um país onde cada vez mais se atacam jornalistas, justamente por exercerem sua profissão, e onde tantos defendem que indígenas e florestas devam ser derrubados.

O negacionismo, a ganância, o ódio, a impunidade, a negligência, a barbárie, a xenofobia e um discurso de desresponsabilização por parte do Estado, tudo isso compõe as balas que mataram tantos outros como Bruno e Don.

Não precisamos de mártires, mas de justiça e respeito, agora!

*Fabiano Severino, pedagogo, e iguaçuense por opção e persistência.
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Fabiano Severino

Fabiano Severino é pedagogo, trabalha na rede pública desde 2001. Especialista em Direitos Humanos na América Latina, pela UNILA. E um curioso e incomodado por vários assuntos. E-mail: [email protected] Veja mais conteúdo do autor.

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