Na presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), promulgou, na manhã desta sexta-feira (16), a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que acaba com a escala 6 por 1 e reduz a jornada máxima de trabalho para 40 horas semanais, sem diminuição do salário.
A mudança deve mexer na rotina de 53,8 mil trabalhadores com carteira assinada em Foz do Iguaçu. O número representa 71% dos 75,9 mil vínculos formais com jornada informada ativos na cidade no fim de 2025. A reportagem chegou a ele a partir dos microdados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Todos esses trabalhadores têm jornada contratual acima de 40 horas semanais, o novo teto previsto na PEC.
A proporção em Foz também supera a do país. Considerando todos os 78,6 mil vínculos formais da cidade, 68% têm entre 41 e 44 horas contratadas. No Brasil, a fatia é de 58%, segundo a RAIS 2025. A diferença acompanha o peso do turismo e do comércio na economia local.
Jornada de 44 horas é a regra em Foz
A maior parte dos trabalhadores formais de Foz do Iguaçu cumpre exatamente o teto atual. São 52,7 mil pessoas com 44 horas semanais contratadas, quase todos os 53,8 mil beneficiados pela PEC. Apenas 367 aparecem com jornada acima de 44 horas.
Sete em cada dez trabalham 44 horas
Dos 75.874 vínculos formais com jornada informada em Foz do Iguaçu, 53.764 (70,9%) têm jornada contratual acima de 40 horas, o novo teto previsto na PEC. As barras azuis mostram quem terá a jornada reduzida. Clique para ver os números.
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Até 30 horasmeio período6,9%▼
31 a 39 horasjornadas reduzidas7,0%▼
40 horasjá no novo teto15,2%▼
41 a 44 horasteto atual70,4%▼
Acima de 44 horasjornadas acima do teto0,5%▼
Por outro lado, apenas 22 mil trabalhadores já estão dentro do novo limite. Para eles, a PEC não reduz horas, mas garante os dois dias de descanso semanal. O comércio e a construção concentram as jornadas mais longas. Nos dois setores, mais de 93% dos vínculos passam de 40 horas.
Em números absolutos, o comércio varejista lidera, com 14,6 mil trabalhadores afetados. Entre as ocupações, vendedores do varejo e operadores de caixa encabeçam a lista.
Comércio e construção concentram as jornadas longas
Em agropecuária, construção, indústria e comércio, mais de 93% dos vínculos passam de 40 horas. Nos serviços, o setor público puxa a média para baixo. Na energia, onde está a Itaipu, a fatia é a menor. Clique para ver os números.
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Agropecuáriatodas as atividades97,4%▼
Construçãotodas as atividades96,1%▼
Indústriatransformação e extrativa94,1%▼
Comérciovarejo, atacado e veículos93,5%▼
Serviçosinclui setor público59,1%▼
Energia, água e saneamentoinclui Itaipu30,7%▼
Vendedores e operadores de caixa lideram a lista
As 12 ocupações com mais trabalhadores acima de 40 horas somam 20.581 pessoas, 38% dos afetados. Quase todas pagam remuneração mediana abaixo de R$ 3 mil. Clique para ver o total e o salário de cada uma.
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Vendedor do varejoCBO 5211103.690▼
Operador de caixaCBO 4211252.702▼
Auxiliar de escritórioCBO 4110052.096▼
Assistente administrativoCBO 4110101.811▼
Motorista de caminhãoCBO 7825101.793▼
FaxineiroCBO 5143201.539▼
Auxiliar de cozinhaCBO 5135051.412▼
RecepcionistaCBO 4221051.214▼
CozinheiroCBO 5132051.174▼
Repositor de mercadoriasCBO 5211251.064▼
Atendente de lojaCBO 5211401.064▼
GarçomCBO 5134051.022▼
No turismo, nove em cada dez terão jornada menor
O turismo, principal vocação econômica de Foz, aparece entre os setores mais atingidos. Das 14,3 mil vagas formais com jornada informada em hotelaria, alimentação, agências, atrativos e transporte de passageiros, 12,9 mil têm jornada acima de 40 horas. Isso equivale a 90% do segmento.
No turismo, nove em cada dez terão jornada menor
Das 14.307 vagas formais ligadas ao turismo em Foz, 12.866 (89,9%) passam de 40 horas semanais. A hotelaria lidera. Cada barra soma 100%; a parte azul é a fatia afetada pela PEC. Clique para ver os números.
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Hospedagemhotéis e pousadas95,9%▼
Atrativos e lazerparques, museus, cultura95,4%▼
Agências e operadorasturismo receptivo e emissivo89,7%▼
Alimentaçãorestaurantes e bares85,4%▼
Transporte de passageirosrodoviário, aéreo, aeroporto73,9%▼
Turismo (total)inclui locação de veículos89,9%▼
Foz do Iguaçutodos os setores70,9%▼
A hotelaria lidera o ranking. Em hotéis e pousadas, 96 de cada 100 trabalhadores cumprem mais de 40 horas por semana. Nos atrativos, como parques e museus, a fatia é de 95%. Nas agências e operadoras, chega a 90%, e na alimentação, a 85%.
Empresas seguiram contratando com 44 horas
Mesmo com a PEC em tramitação, as contratações de 2026 mantiveram o padrão de jornada longa. Em janeiro e fevereiro, Foz registrou 7.590 admissões com carteira assinada, segundo o Novo Caged. Desse total, 83% (6.313) tiveram jornada contratual acima de 40 horas, quase todas com 44 horas.
A proporção supera a do estoque de empregos, que é de 71%. No turismo, 89% das 2.155 admissões passaram de 40 horas. Na hospedagem, o índice chegou a 92%. Entre os jovens de 18 a 24 anos, 86% das contratações já vieram com jornada longa.
Quem são os afetados: jovens e sem diploma
O perfil de quem trabalha acima de 40 horas em Foz é mais jovem que a média. A idade mediana desse grupo é de 35 anos, contra 40 entre quem já cumpre até 40 horas. Um terço dos afetados tem até 29 anos. Entre os trabalhadores de 18 a 24 anos, 85% têm jornada longa. Entre 40 e 49 anos, a fatia cai para 63%.
A escolaridade separa ainda mais os grupos. Entre quem possui curso superior completo, só 39% passam de 40 horas. Nas demais faixas de escolaridade, a proporção fica entre 76% e 87%. Assim, seis em cada dez afetados (59%) apresentam ensino médio completo, e somente 15% têm diploma universitário.
Diploma universitário afasta a jornada longa
Só 39% de quem tem curso superior completo trabalha mais de 40 horas em Foz. Nas demais faixas, a proporção passa de 75%. Seis em cada dez afetados (59%) têm ensino médio completo. Clique para ver os números.
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Até fundamental incompletoescolaridade87,4%▼
Fundamental completoescolaridade86,6%▼
Médio incompletoescolaridade75,6%▼
Médio completoescolaridade82,4%▼
Superior incompletoescolaridade79,3%▼
Superior completoinclui pós-graduação39,4%▼
O tipo de contrato também pesa. Nove em cada dez contratos temporários passam de 40 horas. Já nenhum dos 8,1 mil servidores estatutários está nessa situação.
Servidor público já trabalha no novo teto
Nove em cada dez contratos temporários e oito em cada dez contratos comuns de carteira assinada passam de 40 horas. Nenhum dos 8.140 servidores estatutários de Foz está nessa situação. Cada barra soma 100%. Clique para ver os números.
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CLT prazo determinadocontratos temporários90,3%▼
CLT indeterminadocarteira assinada comum81,3%▼
Aprendizjovem aprendiz3,9%▼
Estatutárioservidor público efetivo0,0%▼
Quem trabalha mais ganha menos
Os dados também mostram que as jornadas mais longas se concentram nos salários mais baixos. Em dezembro de 2025, a remuneração mediana de quem trabalhava mais de 40 horas em Foz foi de R$ 2.655. Já entre quem labutava 40 horas ou menos, a mediana chegou a R$ 4.292.
Quem trabalha mais ganha menos
A remuneração mediana de quem cumpre mais de 40 horas em Foz é de R$ 2.655, cerca de 38% menor que a de quem trabalha 40 horas ou menos (R$ 4.292). Clique para ver os números.
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Acima de 40 horasafetados pela PECR$ 2.655▼
Até 40 horasjá no novo tetoR$ 4.292▼
A diferença cresce com a idade. Entre os jovens de 18 a 24 anos, os dois grupos ganham valores próximos. Entre 40 e 49 anos, porém, a mediana de quem cumpre jornada longa (R$ 2.912) é quase metade da de quem trabalha até 40 horas (R$ 5.358).
A diferença salarial cresce com a idade
Entre os jovens de 18 a 24 anos, quem trabalha mais de 40 horas ganha até um pouco mais que os demais. Entre 40 e 49 anos, a mediana de quem cumpre jornada longa (R$ 2.912) é quase metade da de quem trabalha até 40 horas (R$ 5.358). Clique para ver os números.
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18 a 24 anosacima de 40hR$ 2.307▼
até 40hR$ 2.101▼
25 a 29 anosacima de 40hR$ 2.623▼
até 40hR$ 3.234▼
30 a 39 anosacima de 40hR$ 2.818▼
até 40hR$ 4.544▼
40 a 49 anosacima de 40hR$ 2.912▼
até 40hR$ 5.358▼
50 a 59 anosacima de 40hR$ 2.817▼
até 40hR$ 5.518▼
60 anos ou maisacima de 40hR$ 2.806▼
até 40hR$ 4.544▼
O contraste fica mais evidente no setor público e na geração de energia. Os 8,1 mil servidores estatutários efetivos da cidade têm, todos, jornada de até 40 horas. Na geração de energia, em que está a Itaipu Binacional, só 4% dos 1,4 mil vínculos passam de 40 horas, e a mediana salarial supera R$ 20 mil.
As jornadas longas também atingem mais os homens. Entre eles, 78% trabalham acima de 40 horas. Entre as mulheres, a proporção cai para 63%.
Jornada longa pesa mais entre os homens
Entre os homens com carteira assinada em Foz, 78% trabalham acima de 40 horas. Entre as mulheres, a proporção cai para 63%. Cada barra soma 100%. Clique para ver os números.
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Homensvínculos formais78,4%▼
Mulheresvínculos formais63,2%▼
O que muda e quando
A mudança acontece em duas etapas, sem redução de salário. Em 60 dias, as empresas adotam a escala 5 por 2, com dois dias de descanso por semana, e a jornada máxima cai de 44 para 42 horas. Em 14 meses, a jornada máxima reduz para 40 horas semanais, com limite de oito horas por dia.
O texto também prevê exceções. Profissionais com curso superior e salário a partir de R$ 21.188,87 poderão negociar a jornada diretamente com o empregador, desde que mantenham as duas folgas.
Como chegamos aos números
A reportagem usou os microdados da RAIS 2025, disponibilizados pela Base dos Dados. A análise considerou os 78.612 vínculos ativos em Foz do Iguaçu em 31 de dezembro de 2025. Desses, 2.738 tinham jornada não informada (código 99, comum em funções sem controle de ponto) e ficaram fora dos cálculos de jornada. A tabela oficial do MTE registra 77.691 vínculos na cidade; a diferença, de cerca de 1%, vem do tratamento das bases.
O recorte do turismo reúne as atividades de hospedagem (CNAE 55), alimentação (56), agências e operadoras (79), atrativos, lazer e cultura (9101 a 9103, 9321 e 9329), transporte de passageiros e locação de veículos (7711).
Por que mediana e não média?
A remuneração da RAIS é a bruta paga em dezembro e inclui vínculos com mês incompleto, como admissões e afastamentos. Por isso, a reportagem usa a mediana, menos sensível a esses casos.
A mediana é o valor do meio: metade dos trabalhadores ganha menos que ela, e a outra metade recebe mais. Já a média soma todos os salários e divide pelo número de pessoas, por isso poucos valores muito altos a puxam para cima. Em Foz, 98 vínculos passam de R$ 50 mil, muitos deles em cargos de direção. Com isso, a média geral chega a R$ 4.282, embora três em cada quatro trabalhadores ganhem menos que esse valor. A mediana, de R$ 2.852, retrata melhor o salário típico da cidade.
Há três limitações. Primeiro, a RAIS registra a jornada semanal, não a escala: parte dos trabalhadores com 44 horas já folga dois dias. Além disso, a base cobre só o emprego formal, sem informais e autônomos. Por fim, os dados retratam 31 de dezembro, período de alta temporada em Foz.

