Produtor de soja e milho em Marechal Cândido Rondon, na região Oeste do Paraná, Cevio Alberto Mengarda seguiu os passos do pai na agricultura e hoje administra a propriedade da família. Mas, quando o assunto é seguro rural, a tradição não se manteve. Isso porque o cenário atual tornou a contratação inviável.
“Antes eu e meu pai fazíamos até campanha para incentivar outros produtores a contratar o seguro. Mas já faz cinco anos que abandonei a prática. Com a deficiência hídrica na região, que afetou a produção de milho, e os recorrentes atrasos do governo no pagamento da subvenção, as apólices ficaram caras e a cobertura diminuiu, tornando o serviço desinteressante”, afirma Mengarda.
O agricultor de Marechal Cândido Rondon faz parte da estatística que revela a retração do seguro rural no Paraná. Dados da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNseg) mostram que a arrecadação no Estado caiu de R$ 2,3 bilhões em 2022 para R$ 1,9 bilhão em 2025, redução de 17% no período.
O recuo é ainda mais expressivo quando se observa a quantidade de contratos. Informações do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), apontam que o número de apólices caiu de 82 mil em 2021 para 26 mil em 2025, queda de 68,3% em quatro anos.
Para o Sistema FAEP, o cenário acende um alerta, especialmente diante da intensificação dos eventos climáticos. “Parte significativa dessa queda está relacionada aos cortes anunciados pelo governo federal, nos últimos anos, para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. Isso desestimula o agricultor e coloca toda a atividade em risco”, afirma o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette. “O seguro rural é uma ferramenta fundamental que precisa ser valorizada e fomentada. Do contrário, diante das recorrentes intempéries climáticas, a produção de alimentos fica descoberta”, complementa.
Os dados orçamentários reforçam essa preocupação. Em 2025, cerca de 42% dos recursos previstos para o PSR foram bloqueados. Já em 2024, a execução ficou aproximadamente 40% abaixo do valor aprovado pelo Congresso.
Mesmo entre os produtores rurais que ainda mantêm o seguro, o desânimo é evidente. O produtor Eduardo Martins, do município de Alvorada do Sul, segue contratando o serviço, mas com ressalvas, para o cultivo de soja e milho. “O contrato traz segurança para o produtor investir. Mas, hoje, as indenizações não cobrem todo o prejuízo e, com a redução da subvenção, o custo ficou muito alto, o que dificulta a contratação”, relata. “O ideal é um modelo que garanta ao produtor a renda esperada da safra. Do jeito que está, ajuda, mas não resolve”, completa.
Área encolheu
Os dados do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural apontam, também, que o número de área assegurada no Paraná acompanha o declínio das apólices. Em 2021, o Estado protegia mais de 3,8 milhões de hectares, mas esse número encolheu para 1,25 milhão de hectares em 2025, queda de 63,8%.
“Sem o seguro, o produtor fica exposto aos riscos. Por outro lado, sem a subvenção, a conta não fecha e o agricultor acaba assumindo sozinho os prejuízos. Esse cenário precisa ser revisto. Com menos adesão, as apólices ficam mais caras e o ciclo se agrava”, reforça Meneguette.
Historicamente, os produtores paranaenses lideram a contratação de seguro rural no país. Em 2024, foram mais de 45,8 mil apólices, o equivalente a 37,5% dos contratos firmados via PSR. Ainda assim, a queda na contratação é nacional. Dados da CNseg mostram que a área segurada no Brasil caiu de 13,7 milhões de hectares em 2021 para 3,2 milhões no ano passado, recuo de 76,6%. Em 2025, a arrecadação do setor também diminuiu 8,8%, passando de R$ 14,2 bilhões para R$ 12,9 bilhões.
“Sem o seguro, o produtor acaba tendo que vender o gado, máquinas, caminhões e até parte das terras para cobrir prejuízos. É uma realidade difícil”, afirma Admilson Tavarez, produtor de soja, milho e trigo no município de Arapuã, na região Centro-Norte do Paraná.
Mesmo com as dificuldades, Tavarez ainda mantém o seguro em parte da propriedade. Porém, adverte que muitos agricultores não têm estrutura para absorver perdas. “Hoje a gente concentra só nas áreas mais críticas. O custo é alto e a cobertura não acompanha os prejuízos reais. Além da dificuldade para acessar a subvenção”, completa.
Produtor de soja e milho em São Mateus do Sul, na região Centro-Sul do Paraná, Marcos Pires deixou de contratar seguro rural há mais de seis anos, pois o custo parou de compensar.
“O preço dos nossos produtos não acompanhou a inflação. Pelo contrário, teve queda na última safra. Sem ajuda do governo, o custo do seguro não cabe na planilha. É uma questão macroeconômica, mas, com a atuação do Sistema FAEP, não lutamos sozinhos. Ganhamos força para manter viva a agricultura do Paraná”, afirma.
Engenheiro agrônomo, Marcos atua há 40 anos no campo e contratou seguro rural por cerca de 25 anos. Ele relata que, além da redução da subvenção, as mudanças nas regras de cobertura também afastaram produtores do serviço.
“Entendemos que as seguradoras precisam ter lucro, mas algumas alterações acabam colocando o produtor em prejuízo. Durante anos paguei seguro e, quando precisei acionar, muitas vezes havia alguma cláusula contratual que impedia o atendimento”, conta.


