Cenas de miséria explícita em Puerto Iguazú, num país que vê a pobreza se multiplicar

H2FOZ – Cláudio Dalla Benetta

Para entender uma cena terrível, a de moradores de Puerto Iguazú desenterrando músculos de frango sem condições de consumo, é preciso saber como está hoje a economia do país, que atravessa sua enésima recessão, agora agravada pela pandemia de covid-19.

O Produto Interno Bruto (PIB) argentino já tinha despencado 19,1% no segundo trimestre deste ano, afetando a classe média baixa e, principalmente, os pobres. E a situação piorou – e vai se agravar ainda mais – com a pandemia e as medidas de combate à expansão do vírus.

O governo argentino, lembra o portal espanhol El País, protegeu o emprego formal com leis e subsídios. Mas os trabalhadores informais ficaram sem rendimentos ou com ganhos abaixo do limiar da pobreza.

O número de pobres cresceu mais de cinco pontos percentuais na primeira metade do ano: de 35,5% para 40,9%. Quase 7% da população está em situação de indigência, o que corresponde a cerca de 3 milhões de pessoas.

É o caso das 100 famílias que sobrevivem em condições de extrema pobreza no bairro San Juan, em Puerto Iguazú, nas proximidades de um lixão a céu aberto.

O pouco dinheiro que essas famílias conseguem obter de “bicos” ou até de esmolas é transformado em alimentos. Não sobra nada para comprar algum material de construção para melhorar a qualidade de suas precárias moradias, informa o portal El Territorio.

Frango enterrado

Quando o caminhão foi embora, os moradores retiraram os músculos de frango, enterrados por estarem em mau estado de conservação.
O que ficaria como lixo, iria agora para as mesas de famílias indigentes. Fotos La Voz de Cataratas

São moradores nesta situação que aparecem em imagens que “magoam, produzem indignação e tristeza”, como noticiou o portal La Voz de Cataratas, em matéria publicada na terça-feira, 17.

A reportagem registra que, ao chegar um caminhão carregado com caixas de músculos de frango impróprio para consumo, que seriam enterradas num terreno do município, os vizinhos ficaram esperando até que o trabalho terminasse. Quando o caminhão saiu, escavaram até encontrar as caixas, levando-as para suas casas.

Os músculos de frango haviam sido apreendidos um dia antes pela fiscalização da Prefeitura, porque a mercadoria não contava com notas fiscais. Ao verificar a carga, os fiscais perceberam que estava em mau estado de conservação, com risco de contaminar e intoxicar a população, e decidiram enterrar as caixas.

Crise agravada

A pandemia de covid-19, que já transformou a Argentina no quarto país com mais mortes, proporcionalmente à população (atrás apenas de Bélgica, Peru e Espanha), agravou ainda mais a já combalida economia do país, que vive sequência de crise após crise, com medidas adotadas pelo governo que nunca dão certo e não tiram o país do buraco, seja este governo de direita ou de esquerda.

O curioso é que o argentino, mesmo na pobreza, se considera de classe média, como disse o economista Jorge Colina, master em Economia pela Universidade de Georgetown e em Finanças pela Universidade de Amsterdan.

Em entrevista ao jornal argentino La Nación, Colina afirmou que “as pessoas, que em sua grande maioria se consideram de classe média, pressupõem que o Estado é que deve garantir-lhes esse status, quando os dados demonstram que isso está longe de ser realidade”.

Ele lembrou que, de 2012 a 2020, a Argentina passou de 26% a 41% de pobreza. No entanto, 85% da população se considera de classe média. Isso é resultado, segundo ele, da crença de que a Argentina é um “país abençoado pela natureza, cheio de riquezas” (lembra o que também pensa o brasileiro), o que leva a dois problemas: a demanda tem níveis de consumo que não condizem com os níveis de produção do país; e as pessoas têm expectativas que a economia não pode cumprir”.

A Argentina do tango e das riquezas de um país que teria tudo para ser uma potência, é agora também a Argentina dos miseráveis. Foto José Coriolano jcorifjr/Pixabay


Uma família indigente

Análises e teorias à parte, o portal El Territorio ouviu uma família que mora no bairro San Juan, de Puerto Iguazú, como exemplo das tantas outras que ali residem.

Gabriela Fines, de 23 anos, veio com o marido e dois filhos de Buenos Aires (ela esperava o terceiro), depois que foram despejados de uma casa que cuidavam. A chegada deles em Puerto Iguazú foi em março, pouco antes do confinamento gerado pela pandemia.

Na cidade vizinha, a família foi acolhida pela mãe de Gabriela. Com o nascimento do filho mais novo de Gabriela, a moradia precária, que não conta com água encanada, passou a abrigar 12 pessoas.

Ninguém da família tem salário fixo. Tanto o marido de Gabriela como seu padrasto se dedicam a fazer bicos para sobreviver.

A família de Gabriela recebe uma espécie de bolsa família por filho e conta com um carnê alimentício, mas isso não chega para se manter e para comprar as coisas necessárias para as crianças. É por isso que, em diferentes oportunidades, eles vão ao lixão para encontrar roupas e calçados velhos.

Mas Gabriela também precisa – e não consegue – comprar alguns medicamentos, tanto para ela como para um dos filhos, que tem problema de pele. Ela acredita que isso se deve ao fato de que tomam banho e lavam a roupa num arroio próximo, que estaria contaminado.

“Aqui nos trazem água em caminhões uma vez por semana, mas nem sempre para todos, são seletivos na entrega. Quando conseguimos, guardamos para cozinhar e beber”, contou Gabriela ao El Territorio.

Deve piorar ainda mais

Os prognósticos para a Argentina pós-pandemia estão entre os piores do mundo. A Argentina foi o país que mais sofreu, com uma das quarentenas mais longas e rígidas da América Latina, diz reportagem do jornal El País.

A economia argentina deve fechar 2020 com uma queda de 12,3% no PIB e quase o dobro de pobres do que no início do ano.

Segundo El País, “o governo do presidente Alberto Fernández aplicou medidas de estímulo no valor de 3,5% do PIB, mas a Argentina, sobrecarregada por problemas de solvência durante décadas, não pode sustentar esse esforço indefinidamente”.

Já com uma das taxas de inflação mais altas do mundo (que também contribuem para o aumento da pobreza), a Argentina poderá ter agravada a espiral inflacionária, devido justamente ao endividamento público, o que por sua vez desestimula potenciais investidores.

O Banco Mundial acredita que o PIB da Argentina não retornará ao seu nível pré-pandêmico antes de 2023. E o nível pré-pandêmico já não era bom, pelo contrário.

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