Três rios, um só problema: falta de chuvas. Puerto Iguazú sem água, hidrovia Paraguai-Paraná prejudicada

Desde sexta-feira, 2, a vizinha Puerto Iguazú, na Argentina, sofre com a falta de água. O nível do Rio Iguaçu, de onde a empresa distribuidora retira a água que abastece a cidade, baixou 4 metros.

E o sistema emergencial, de bombas que operam numa balsa justamente para períodos críticos, funcionou só parcialmente, porque uma das bombas estragou por falta de manutenção. Os moradores já fizeram uma série de protestos e, nesta terça, 6, vão de novo se manifestar no Marco das Três Fronteiras e também em frente à sede da companhia de água, como informam os portais El Territorio e El Independiente Iguazú.

Embora com uma população 5,5 vezes menor que a de Foz e 6,6 vezes inferior à de Ciudad del Este, no Paraguai, Puerto Iguazú tem um histórico de falta de água, porque o abastecimento quase que só se resume ao Rio Iguaçu, conhecido pela sua variação hidrológica, de grandes enchentes a secas intensas.

O monitoramento hidrológico feito pela Copel mostra que o problema não está na retenção de água por parte das usinas hidrelétricas do Iguaçu, como informam os meios de comunicação argentinos, mas sim porque a falta de chuvas está, progressivamente, diminuindo a vazão do rio.

Na cidade de União da Vitória, localizada a montante (acima) das hidrelétricas, a vazão está em apenas 246 metros cúbicos por segundo, mesmo depois de o Rio Iguaçu receber água dos principais afluentes.

USINAS DO IGUAÇU

Ainda com boa reserva, a usina de Foz do Areia, a maior do Rio Iguaçu, libera mais água do que recebe. Foto Copel

Nas usinas, os reservatórios ainda estão com nível razoável, como em Foz do Areia, a maior do Rio Iguaçu, com 78% de reserva; Salto Santiago, com 73%; e Salto Caxias, já mais perto da foz, com 58%. A última usina do rio, a do Baixo Iguaçu, no entanto, está com 46% de reserva.

A usina do Baixo Iguaçu é a única que está liberando menos água do que recebe em seu reservatório: chegam 352 metros cúbicos de água e, pelas turbinas, depois de produzir energia, voltam ao rio 283 m³/s; Salto Caxias tem uma vazão afluente (água que chega ao reservatório) de 224 m³/s, mas devolve ao rio 396 m³/s de água turbinada.

É o mesmo caso da usina de Foz do Areia, a maior do Rio Iguaçu: recebe 285 m³/s e despeja 665 m³/s de água turbinada. Portanto, essas usinas estão gerando energia a partir da água de seus reservatórios, já que o volume que chega não é suficiente. A exceção é a usina do Baixo Iguaçu, que liberou apenas a água que utilizou para a geração, mantendo um pequeno estoque, devido a seu reservatório estar baixo.

No ano passado, o governo argentino pediu – e o governo brasileiro atendeu – que as usinas do Iguaçu liberassem mais água do reservatório, para atender Puerto Iguazú.

Pode ser que ainda não seja o caso. A vazão nas Cataratas do Iguaçu, nesta terça-feira, é de 519 metros cúbicos por segundo, um terço da normal, mas ainda distante dos menos de 200 m³/s registrados no mesmo período do ano passado. De qualquer forma, baixou uns 100 metros nos últimos três dias.

NO RIO PARAGUAI, SECA E FALTA DE DRAGAGEM

No Rio Paraguai, paisagem continua desoladora. Seca é persistente, apesar das chuvas do início do ano. Foto Última Hora

A situação dos rios Paraná e Paraguai começa a ficar também preocupante, lembrando o que aconteceu no ano passado, quando a navegação pela hidrovia formada por eles ficou sem possibilidade de uso. De forma emergencial, a usina de Itaipu liberou água de seu reservatório, que já estava baixo, para permitir principalmente o escoamento da safra paraguaia, parada em portos e armazéns.

No caso do Rio Paraguai, à seca se soma outro problema: há muito tempo os armadores fluviais reclamam que seja feita a dragagem de trechos mais baixos do rio, onde as embarcações não conseguem passar com carga total, como atualmente, quando o máximo é de 80% da capacidade.

E o Rio Paraguai está em baixa, enquanto as obras não começam, embora já tenha sido feita uma licitação há mais de oito meses. A escolha empacou porque uma das empresas selecionadas pertence ao irmão de um ex-assessor do presidente Mario Abdo Benítez. A empresa foi envolvida num escândalo na construção de uma passarela para pedestres, que teve um custo exagerado.

Esteban Dos Santos, presidente do Centro de Armadores Fluviais e Marítimos do Paraguai, disse ao jornal Última Hora que a baixa profundidade do rio, principalmente nos trechos que precisam ser dragados, provoca sobrecustos ao setor fluvial. Muitas empresas de navegação deixam de fazer o transporte de mercadorias porque os custos não compensam, segundo ele, o que acaba provocando um impacto no comércio internacional paraguaio, tanto na exportação como na importação.

Só o que o Paraguai exporta de grãos, lembrou Santos, representa 35% do Produto Interno do Paraguai. Além disso, todas as importações de outras partes do mundo, que não sejam da Argentina, chegam por via fluvial. “Então, se dependemos em grande parte do rio para viver – praticamente 80% de nossa economia -, deveria se dar maior prioridade a este recurso”, critica o empresário.

A licitação para a dragagem do Rio Paraguai, desde o Rio Apa até a confluência com o Rio Paraná prevê um custo mínimo de US$ 6,5 milhões e um máximo de US$ 13 milhões, por meio de contratos plurianuais que irão até o ano que vem.

RIO PARANÁ EM QUEDA LIVRE

O ABC Color publicou esta foto pra mostrar a situação do Rio Paraná. Lembra imagens da seca de 2020.

A hidrovia Paraguai-Paraná, que liga Assunção aos portos da Argentina e especialmente do Uruguai, enfrenta ainda o início da seca do Rio Paraná, numa situação que começa a ficar parecida com a vivida no ano passado.

O jornal ABC Color diz que, só nos últimos 12 meses, o Rio Paraná registrou uma queda de mais de 13 metros na área de Ciudad del Este, e parte do leito do rio, formado por pedras, já está à vista.

O nível normal do rio, segundo o ABC Color, com dados da Direção de Meteorologia e Hidrologia do Paraguai, é de 16,25 metros, mas estava em 5,12 metros, segundo o último informe, de 30 de março. De lá para cá, não choveu.

POUCA CHUVA

Para o Paraná, onde nasce o Rio Iguaçu, as perspectivas de chuva não são boas. Será um outono mais seco do que o normal (e outono já não é mês chuvoso) e, no inverno, a situação piora, porque chuvas ficam ainda mais escassas.

Na região metropolitana de Curitiba, o racionamento de água será inevitável, nos próximos meses.

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Claudio Dalla Benetta - H2FOZ

Cláudio Dalla Benetta é repórter do H2FOZ. e-mail: [email protected] Veja mais mais conteúdo do autor.

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