Violência infantojuvenil: identificar sinais e denunciar

18 de maio é o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Saiba alguns mitos que envolvem o crime e como denunciar. 

Nos anos 1970, a menina Araceli Crespo, de apenas 8 anos, foi estuprada e morta e teve seu corpo desfigurado com ácido, em Vitória (ES). Com os suspeitos absolvidos, o crime foi arquivado. Em 2000, lei federal instituiu o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em 18 de maio, fazendo referência ao caso Araceli.

O objetivo da data é conscientizar a sociedade sobre a gravidade do tema e aprofundar as políticas públicas de enfrentamento e prevenção à violência infantojuvenil. De 2011 ao primeiro semestre de 2019, foram registradas mais de 200 mil denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes, segundo dados da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos, por meio do serviço Disque 100.

Apenas em 2021, o Disque 100 tem mais de 6 mil denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes.

Por trás das estatísticas estão seres humanos – crianças e adolescentes – que ficam marcados para o resto da vida, quando não são assassinados durante os atos violentos. Práticas, aliás, que na maior parte dos casos acontece no ambiente da família, envolvendo pessoas próximas dos pequenos.

Alguns mitos acerca da violência infantil são demovidos na cartilha “Abuso Sexual Contra Crianças e Adolescentes”, do governo federal.

Veja a verdade por trás de cada mito:

1. O agressor sexual de crianças e adolescentes é um psicopata, um monstro

Meia verdade. Só uma minoria dos agressores sexuais pode ser classificada como psicopata. Entre 85% e 90% desses agressores sexuais são pessoas conhecidas; 30% são pais; 60% são conhecidos da vítima e de sua família.

2. O abuso sexual de crianças e adolescentes é algo raro

Mentira. O fenômeno é comum. Uma em cada três a quatro meninas e um em cada seis a dez meninos serão vítimas de alguma modalidade de abuso sexual até completarem 18 anos.

3. As crianças inventam situações de abuso sexual

Meia verdade. Apenas 8% das crianças inventam essas situações e três quartos dessas histórias inventadas são induzidas por adultos. A maioria das crianças – 92% = fala a verdade.

Acesse a cartilha na íntegra em PDF

Durante a pandemia de covid-19, organizações sociais e poder público apontam para o aumento de todas as formas de violência contra crianças e adolescentes. Perceber os sinais de agressão sexual infantojuvenil é importante para impedir a continuidade da violência, responsabilizar os culpados e prestar atendimento à vítima.

O Disk 100 é um serviço nacional e gratuito para denúncias – Foto: Marcello Casal/ABR

Fique atendo aos sinais (*):

1. Mudança de comportamento

Alteração de humor, agressividade ou introspecção, vergonha excessiva, medo ou pânico.
Rebeldia, ataques de raiva.

Comportamentos infantis que já haviam sido abandonados, como chupar os dedos.

2) Problemas de saúde psicossomáticos

Enfermidades sem aparente causa clínica, como dores de cabeça, erupções na pele e alterações gastrointestinais.

3) Comportamentos sexuais

Interesse repentino por questões sexuais ou brincadeiras de cunho sexual, com palavras ou desenhos que se refiram às partes íntimas.

Pandemia reduziu acesso de vítimas aos serviços de saúde (**)

O Pequeno Príncipe, hospital paranaense que é referência em atendimento a vítimas de maus-tratos, informa que recebeu 20% menos crianças em comparação ao ano anterior. Dos 554 casos atendidos na instituição, 59% tinham até 6 anos.

A unidade de saúde recebe todos os anos centenas de crianças e adolescentes vítimas de todos os tipos de violência: sexual, física, psicológica, negligência ou autoagressão. Em 2020, foram 554 atendimentos, sendo que a violência sexual foi a predominante, com 362 crianças vítimas, o que corresponde a 65,3% do total de casos.

Fonte: Hospital Pequeno Príncipe

“São números estarrecedores, que ressaltam a importância de a sociedade estar atenta, ouvir os pedidos de socorro desses meninos e meninas, e denunciar sempre, pois a denúncia pode salvar vidas”, enfatiza a diretora-executiva do Hospital, Ety Cristina Forte Carneiro.

Especialistas são unânimes em dizer que a necessidade de ficar mais tempo em casa agravou os casos de violência contra as crianças. “Historicamente, em cerca de 80% dos casos de violência, o agressor é alguém da própria família ou conhecido da família. Na pandemia, a convivência com esses agressores está aumentada”, analisa a psicóloga do Pequeno Príncipe Daniela Prestes.

Veja, ouça, denuncie

O Pequeno Príncipe mantém, desde 2006, a Campanha Pra Toda Vida – A Violência não Pode Marcar o Futuro das Crianças. Por meio de manuais voltados a profissionais de saúde e da educação, livros sobre autoproteção direcionados ao público infantojuvenil e mobilização da comunidade, a ação busca dar visibilidade ao tema.

Neste ano, o tema é um chamado para a sociedade envolver-se na proteção às crianças e adolescentes. “Veja – Ouça – Denuncie” é um apelo e um pedido para que todos fiquem de olhos abertos, atentos aos pedidos de socorro das crianças e em ação, denunciando os casos suspeitos de violência, informa o hospital.

Canal de denúncia

O Disque 100 é o principal canal de denúncia dos crimes de violência contra crianças e adolescentes. A ligação é gratuita e não há necessidade de identificação do denunciante.

*Agência Brasil

**Hospital Pequeno Príncipe

 

Paulo Bogler - H2FOZ

Paulo Bogler é jornalista e repórter do H2FOZ. e-mail: [email protected] Veja mais mais conteúdo do autor.

Gostou do texto? Contribua para ampliar o jornalismo em Foz do Iguaçu. ASSINE JÁ

error: O conteúdo é de exclusividade do H2Foz.