Aida Franco de Lima – OPINIÃO
Nove horas de viagem entre São José dos Campos e Maringá. Ao chegar, a autora Juliana Montanari não se deparou com ninguém da organização para receber os escritores. Seu relato em vídeo, que alcançou cerca de 40 mil visualizações, expõe um lado da FLIM 2026, a Festa Literária Internacional de Maringá que merece ser ouvido: a experiência de quem levou seus livros e suas expectativas, mas encontrou desamparo.
Entre os dias 14 e 18 de outubro de 2026, Maringá recebeu a 13.ª FLIM. Organizada pela prefeitura, por meio da Secretaria de Cultura, a edição reuniu nomes como Marcelo Rubens Paiva, Itamar Vieira Junior, Marilene Felinto, Rafael Calça, Bethânia Pires Amaro, Auritha Tabajara, José Falero e Michel Alcoforado.
Também participaram Mel Duarte, Amara Moira, Geni Núñez, Márcia Kambeba, Ryane Leão, Tatiana Nascimento, Júlia Raiz, Clara Alves, Rodrigo Ciríaco e a escritora venezuelana María Elena Morán. Uma programação de peso, cuja capacidade de atrair leitores exigia uma estrutura à altura — tanto para acolher o público quanto para criar oportunidades para os autores independentes.
Autores independentes na FLIM 2026: falta de acolhimento
Mas a experiência relatada por Juliana ajuda a colocar em discussão o tratamento destinado aos autores independentes. Também participei da FLIM. Também voltei com a sensação de que nossa presença merecia muito mais cuidado.
Como autora independente, não recebi cachê para estar lá. Ao contrário: paguei as despesas do próprio bolso. Participar significa investir tempo, deslocamento, dinheiro e expectativa. Levamos nossos livros e a esperança de encontrar leitores, estabelecer contatos e ampliar o alcance de um trabalho construído, muitas vezes, sem editora, distribuidora ou assessoria de imprensa. O que encontramos, porém, foi uma experiência de abandono.
Parece que a organização levou a palavra “feira” ao pé da letra. Na área do estacionamento do Estádio Willie Davids, havia uma sequência de barracas, dessas que se veem em feiras agropecuárias, e até uma estrutura que lembrava um pequeno circo. O problema estava na adequação daqueles espaços a um evento daquele porte. Era previsível que os convidados conhecidos atraíssem muita gente. Era razoável esperar, também, que essa movimentação favorecesse o encontro do público com os independentes.
Amarga ilusão. Com atrações de grande interesse em horários coincidentes e uma programação que disputava o público consigo mesma, ficamos na lanterninha, à espera de que alguém nos descobrisse.
Itamar Vieira Junior, Marcelo Rubens Paiva e Michel Alcoforado exigiram retirada prévia de senhas, com acesso sujeito à lotação dos locais. A organização informou que seriam distribuídas uma hora antes de cada atividade. Entre o público, todavia, a reclamação era de que a distribuição havia começado antes do horário anunciado. Muita gente ficou de fora. Literalmente. Nas entradas, pessoas se apertavam e gritavam: “Abre! Abre!”
Os nomes eram grandes; as tendas, pequenas para o público que atraíam. A procura era previsível, no entanto o espaço oferecido transformou o encontro com escritores em disputa por ingresso. A chuva daquela semana agravou as dificuldades de circulação e de abrigo.
Para os independentes, faltava até o básico: barracas sem estrutura adequada, sem tomada, sem suporte para trabalhar. Aos poucos, viramos ponto de informação. Tínhamos livros para apresentar, contudo éramos procurados para explicar onde ficavam as outras atrações. Em vez de conversar sobre nossas obras, indicávamos o caminho para a programação alheia.
Limites de capacidade precisam ser respeitados. A escolha de um espaço capaz de acolher o público, entretanto, faz parte do planejamento. Quando uma cidade recebe um grande show sertanejo, a expectativa de público orienta o tamanho da estrutura, o acesso e a acomodação das pessoas. Por que, numa festa literária, leitores precisam disputar uma fresta na entrada?
Quem procura um escritor merece o mesmo cuidado de quem vai assistir a um cantor. E quem leva seus próprios livros à feira precisa de condições dignas para apresentá-los.
O encontro com Marcelo Rubens Paiva expôs essa contradição. Inicialmente previsto para quinta-feira, 15 de outubro, foi transferido para sexta-feira, dia 16, por questões logísticas, segundo o comunicado divulgado pela prefeitura.
Na sexta, diante da insistência do público, a tenda foi aberta, e cadeiras foram espalhadas para acomodar mais pessoas. A entrada ocorreu sem a limitação de ingressos inicialmente prevista. Até São Pedro colaborou: a chuva deu uma trégua. Com o espaço ampliado, o improviso quase ganhou aparência de planejamento.
Marcelo, autor de Ainda Estou Aqui, levou à FLIM uma obra cuja adaptação para o cinema ampliou o alcance da história de sua família. Do espaço dos independentes, o título também poderia expressar um recado à organização: nós também ainda estamos aqui.
Estamos aqui escrevendo, publicando, visitando escolas, formando leitores e movimentando a cultura durante o ano inteiro. Continuamos aqui depois que os convidados vão embora, as tendas são desmontadas e os refletores se apagam.
Uma festa literária deveria ajudar o autor independente a avançar. Oferecer divulgação, oportunidades de encontro, circulação de público e estrutura para apresentar seus livros é uma medida concreta de valorização. Reservar uma barraca e incluir um nome na programação está muito longe de dar conta dessa tarefa.
O sentimento que fica é de humilhação. Quem chegou com livros e histórias para compartilhar não deveria ter saído com a impressão de que serviu para preencher espaço e informar onde acontecia o que realmente importava à organização.
É este o triste fim da FLIM: terminar a festa com autores que deveriam ter sido acolhidos sentindo-se esquecidos. Celebrar a literatura, enquanto parte de quem a produz volta para casa com os livros, as despesas e a frustração.
Juliana percorreu nove horas para estar lá. Outros autores também viajaram, organizaram suas vidas e custearam a própria participação. Recebê-los, orientá-los e oferecer condições de trabalho a eles deveria ser parte elementar do compromisso assumido por quem os convidou.
Nós ainda estamos aqui, com livros para apresentar e histórias para contar. Até quando teremos de pedir espaço numa festa que também deveria ser nossa?
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