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400 Anos de Fundação da Missão Jesuítica do Parque Nacional do Iguaçu (1626-2026)

No dia 9 de maio, a fundação de Santa María del Iguazú, povoado fundado pelos jesuítas, completa 400 anos.

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400 Anos de Fundação da Missão Jesuítica do Parque Nacional do Iguaçu (1626-2026)
Parque nacional do Iguaçu. Foto: Marcos Labanca/Urbia Cataratas

PARTE 1 – O Nascimento de Santa MariaPor Pedro Louvain

Era indispensável fundar uma missão jesuítica acima das Cataratas do Iguaçu.

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A Coroa planejava ligar o rio Iguaçu ao rio Piquiri através de uma trilha, criando uma rota alternativa ao fluxo do rio Paraná, formando assim um grande anel de circulação entre povoados espanhóis.

Portanto, a “Missão das Cataratas” nasceria, sobretudo, como um entreposto.

Um local de descanso ao viajante fluvial, que precisasse transpor as quedas d´água carregando sua própria canoa nas costas, e assim contornar aquele gigantesco “quebra-molas” dessa avenida chamada Iguaçu.

Em 9 de julho de 1623, em Assunção, o governador Manuel de Frias deu a ordem. A pedido da Companhia de Jesus, autorizou a fundação de uma redução iguaçuense, inaugurando um capítulo especial na história da região trinacional, que marcaria profundamente a vida dos personagens envolvidos, narrados a seguir.

A Primeira Tentativa de Fundação – “Vire a ponta da sua canoa de volta rio abaixo

Os padres não perderam tempo. Poucos meses após a autorização real, a partir da redução de Encarnação, pegaram suas canoas e navegaram até a foz do Iguaçu, com uma comitiva de 10 a 12 indígenas cristianizados.

Ao subir o Iguaçu, perceberam que estavam sendo observados nas margens. Silhuetas passando na densa vegetação e galhos se movendo davam conta de que estavam sendo acompanhados.

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Em certo ponto, avistaram uma aldeia e desembarcaram com cruzes na mão, pregando em guarani. Liderando a expedição, padre Diego de Boroa escreveu sobre o momento: “na primeira vez que fui, me saiu ao encontro mais de 100 índios armados, pintados e cobertos de plumas com vontade de brigar.”

Os nativos pediram enfaticamente que fossem embora. Os clérigos, então, mudaram a tática. Ofereceram presentes de metal, como panelas e lâminas de machado, na tentativa de conquistar a simpatia indígena. Foi quando obtiveram a poética resposta: “Vire a ponta da sua canoa de volta rio abaixo”. A recusa de presentes era um indicativo claro para os jesuítas deixarem o local imediatamente, antes de um desfecho fatal.

Naquele dia, partiram. No entanto, estavam apenas começando.

Tapuias brasileiros dançando (Eckhout, 1634).

A Segunda Tentativa de Fundação – “Faltou pouco que não matassem a mim”

Frustrada a primeira tentativa, os jesuítas voltaram seus esforços para o rio Acarai, onde conseguiram fundar uma redução, em 17 de março de 1624, com a anuência do cacique Arerapa. A partir de “Nossa Senhora de Natividade do Acarai”, padre Boroa organizou diversas expedições ao Iguaçu para tentar fundar um povoado jesuíta.

Contava agora com a ajuda do padre francês Claudio Ruyer— aquele que, um dia, se tornaria professor de música da “Missão das Cataratas”. Em 1625, ao navegarem pelo Iguaçu entrando novamente pela sua foz, conseguiram fazer amizade com alguns caciques de pequenos povoados e rezar ali a primeira missa.

Ao prosseguirem rio acima, desembarcaram em outra praia, na região do baixo Cataratas, onde pegaram uma trilha para tentar atravessar a península e chegar na região do alto Cataratas.

Foi então que aconteceu o memorável encontro entre duas grandes lideranças: de um lado, o cacique Taupá, do outro, padre Diego de Boroa. Dois mundos separados pelo Oceano Atlântico se encaravam pela primeira vez. Um encontro inicialmente nada amistoso, mas que marcaria para sempre a história de milhares de pessoas.

Subindo a trilha, já entrando nos limites do Reino de Ytepopo[ii], os missioneiros foram abordados pelo cacique mais poderoso da região e sua tropa. Taupá estava “posto em armas com mais de 60 soldados pintados e carregados com flechas, para matar o cacique que me havia acompanhado e faltou pouco que não matasse a mim”, escreveu padre Boroa, “que me levassem logo ao ponto de embarcar”. Mais uma vez, a ponta da canoa jesuítica foi virada rio abaixo.

Trajeto terrestre aproximado com 1 légua linear de comprimento (5,5 km), ligando os portos de canoas do baixo e do alto Cataratas, passando dentro da área de influência do Reino do cacique Taupá.

A Terceira Tentativa de Fundação – “Uma grande bebedeira para tratar se nos deixariam entrar ou não

De volta à redução do rio Acarai, os padres Boroa e Ruyer convidaram o cacique Saulo Tabacambi para uma nova tentativa de colonizar o Iguaçu.

Tabacambi, batizado com o nome cristão de Saulo, era um guerreiro guarani que liderou uma revolta nativa contra os católicos no Paraguai, converteu-se e passou a participar ativamente do projeto missioneiro. Formaram uma comitiva e partiram novamente, no dia 1º de maio de 1626.

Dessa vez, haviam conseguido de antemão a anuência do cacique Taupá. A essa altura, Taupá já sabia da conversão do cacique Arerapa do Acarai e, através de emissários, autorizou os padres a construírem uma igreja perto da sua aldeia, na península de Ytepopo. A decisão teria sido motivada pois, após a segunda expulsão da comitiva missioneira, teria ocorrido uma enfermidade muito grave que vitimou as principais lideranças contrárias à presença católica na região. O fato teria sido interpretado pelo cacique Taupá como um castigo sobrenatural, por terem se recusado a receber os forasteiros cristãos.

Celebração Tupinambá (Theodore de Bry, 1596).

Oito dias após a partida, foram recebidos na aldeia do cacique Taupá com um banquete antropofágico. Padre Boroa afirmou que houve “uma reunião geral com uma grande bebedeira para tratar se nos deixariam entrar ou não”.

Após as festividades “pagãs”, o anfitrião levou os missioneiros até o local permitido para se estabelecer. Assim, no dia 9 de maio de 1626, ergueram a cruz, rezaram a missa e fundaram o que mais tarde se chamaria Santa Maria do Iguaçu.

As fontes dizem que partiram para fundar Santa Maria do Iguaçu “no dia de São Felipe e São Tiago”, portanto, 1º de maio, conforme o Calendário Tridentino no Missale Romanum (1574) usado na época.

O Primeiro Assentamento “Fomos até a margem do rio e ali fizemos nosso rancho

No local escolhido, acamparam. A recepção dos nativos foi ótima. Lideranças e crianças indígenas do entorno vieram curiosos visitar os novos vizinhos e trocar pequenos presentes.

Havia, porém, um problema: o local indicado por Taupá não atendia às necessidades para sustentar um povoado. Após alguns dias, sem comunicar o cacique, a comitiva reembarcou no alto Cataratas, navegou rio acima e desembarcou em outro ponto fora da península. Lá escolheram um local em que pudessem ter mais recursos e autonomia para estabelecer, enfim, uma colônia de acordo com as orientações do Vaticano.

Cais na região do alto Cataratas na contemporaneidade.

Quando os mensageiros informaram Taupá a mudança dos jesuítas, o cacique ficou furioso. Reuniu dezenas de guerreiros armados “acompanhados de canoas que cobriam o rio” e foi rapidamente fazer uma visita aos padres. Indignado, precisava tirar satisfação sobre a mudança não autorizada.

O conflito era iminente.

Continua na Parte 2….

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