Por Nathalie Husson – OPINIÃO
O engenheiro especialista em energia e clima Jean-Marc Jancovici, autor da HQ “O Mundo sem fim”, alerta há muitos anos para os limites físicos do nosso modelo energético. Mais do que o “fim do petróleo”, independentemente da questão climato, ambiental, trata-se do fim do petróleo bom, barato, abundante e capaz de sustentar o crescimento contínuo das economias modernas, medido pelo PIB.
Se, após o episódio do COVID, o mundo pareceu retomar uma certa normalidade, as tensões recentes, da guerra na Ucrânia às instabilidades no Oriente Médio, mostram o contrário. O duplo bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de um quarto do petróleo comercializado globalmente, evidencia a fragilidade estrutural de uma economia ainda profundamente dependente dessa fonte de energia.
Não se trata apenas de um risco regional, mas de um potencial choque sistêmico. O presidente da AIE declarou que o choque petrolífero atual é de uma amplitude maior do que em 1973, 1979 e 2022 combinados. Alguns analistas falam de um choque de deslocamento das cadeias de abastecimento.
As consequências já começam a ser sentidas com a elevação do preço da gasolina, resultado da redução dos fluxos físicos de petróleo, em particular pela destruição de infraestruturas petrolíferas, e das perturbações na circulação do produto. Mas limitar o problema ao combustível seria um erro de análise. Como sublinha Jancovici, os usos do petróleo estão na base do modo de vida da nossa sociedade fóssil.
Uma parte significativa não é queimada: cerca de um terço, na saída das refinarias, serve como matéria-prima petroquímica. A nafta, por exemplo, está na origem das fibras sintéticas do setor têxtil, dos plásticos, das sacolas às embalagens alimentares, dos materiais de construção, de inúmeros componentes de objetos do cotidiano, incluindo eletrodomésticos. O petróleo também permite a produção de lubrificantes e asfaltos, sem falar nos remédios e cosméticos. Em termos concretos, ele está em toda a parte.
Outro setor estruturalmente dependente é o da logística. Sem caminhões, as cidades deixam de ser abastecidas. Sem transporte marítimo e aéreo, o comércio global desacelera drasticamente. A agricultura moderna, por sua vez, depende de tratores, máquinas e insumos cuja produção e distribuição são intensivas em energia fóssil.
Se mais de 55% da população mundial vive hoje em áreas urbanas, a questão do abastecimento e da dependência energética se coloca de forma ainda mais aguda. Como destaca Stefano Mancuso em Fitópolis, a cidade funciona como um organismo com um metabolismo altamente intensivo: depende de entradas maciças de energia e de recursos, alimentos, água, materiais e, em contrapartida, produz grandes quantidades de resíduos e de poluição. Trata-se de um sistema aberto, estruturalmente dependente de fluxos externos.
É a partir dessa vulnerabilidade que a situação da região trinacional articulada em torno de Foz do Iguaçu se torna particularmente reveladora. Somando mais de um milhão de habitantes entre Brasil, Paraguai e Argentina, esse território depende de cadeias logísticas longas e energeticamente intensivas para garantir seu abastecimento cotidiano.
A cidade de Foz, com cerca de 285 mil habitantes, recebe ainda um fluxo anual de aproximadamente 5,8 milhões de turistas, atraídos pelas Cataratas do Iguaçu. Essa pressão populacional flutuante intensifica a necessidade de abastecimento contínuo, reforçando a dependência de fluxos externos.
Mais profundamente, o próprio modelo agrícola dominante, o agronegócio, é inseparável do sistema fóssil. Da mecanização intensiva ao uso de fertilizantes sintéticos, passando pelo transporte em larga escala, trata-se de uma produção altamente dependente de energia barata. Sem petróleo, ou com petróleo caro, todo esse sistema entra em tensão. Em outras palavras: inflação à vista. Combinado a uma recessão, entramos num momento de estagflação.
Mas há um ponto frequentemente negligenciado: o agronegócio não produz alimentos no sentido estrito, e sim commodities. Soja, milho, cana-de-açúcar e algodão são majoritariamente destinados à exportação, à ração animal ou à indústria. Nenhuma população vive diretamente desses produtos. Ao mesmo tempo, a alimentação disponível é cada vez mais composta por produtos ultraprocessados, associados ao aumento de carências nutricionais e de doenças crônicas.
Soma-se a isso a pecuária bovina, que mobiliza vastas extensões de terra e, ainda assim, contribui de forma relativamente limitada para o aporte nutricional global, evidenciando uma baixa eficiência entre uso do solo e valor alimentar.
Diante disso, emerge uma questão simples e decisiva: quem alimenta, de fato, uma região como a de Foz do Iguaçu?
A resposta é inquietante. O abastecimento alimentar depende amplamente de territórios externos e de cadeias logísticas longas, vulneráveis a choques energéticos e geopolíticos. Paralelamente, os solos urbanos e periurbanos, assim como áreas rurais próximas, estão submetidos à pressão crescente da especulação imobiliária, que tende a deslocar a produção local de alimentos em favor de usos mais rentáveis no curto prazo.
Esse duplo movimento, dependência externa e perda de capacidade produtiva local, fragiliza profundamente a segurança alimentar regional. Em um cenário de encarecimento ou de ruptura no fornecimento de energia, o abastecimento deixa de ser uma questão abstrata e se torna imediatamente concreta.
A crise energética revela, assim, uma crise mais profunda: a dissociação entre os territórios e sua capacidade de se alimentar. Recolocar a produção alimentar no centro das dinâmicas urbanas e regionais não é apenas uma escolha ecológica ou sanitária, mas uma condição de resiliência diante de um mundo em que a energia tende a se tornar mais cara, mais escassa e mais incerta.
Diante desse cenário, a questão deixa de ser apenas analítica: o que eu posso fazer?
A geopolítica não é distante. Ela atravessa diretamente o nosso cotidiano e precisa ser compreendida e apropriada por nós, cidadãos. Mas compreender não basta, é preciso agir.
Isso passa pela política no seu sentido essencial: cuidar da polis, da cidade, das condições concretas de vida coletiva. Isso implica defender a produção local de alimentos, preservar solos agrícolas e participar ativamente das decisões sobre o uso do território.
Em um mundo de energia mais cara e incerta, a autonomia local deixa de ser uma opção e se torna uma necessidade. Fazer política é, portanto, assumir — junto aos outros — a responsabilidade de tornar o futuro possível num território habitável.
Nathalie Husson
Terrestre, cidadã, membro do Cafi – Coletivo ambiental de Foz .


