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Opinião de leitor

10 questões sobre a adequação das grandes vias ao contexto urbano.

O objetivo desta opinião é questionar quais órgãos irão se responsabilizar pelo fracasso de uma obra mal projetada e inadequada para a cidade.

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10 questões sobre a adequação das grandes vias ao contexto urbano.
Foto: Manuel Corman

De: CAFI , Self (Y) GuaSSu, TIPPA
Para: DER Paraná, DNIT, ITAIPU Binacional, o GOVERNO DO ESTADO e o GOVERNO FEDERAL

Contextualização global

“Em 2017, a humanidade está a viver a crédito. Esgotamos todos os recursos que a Terra pode produzir num ano. Para continuarmos a alimentar-nos, a transportar-nos e a aquecer-nos até ao final de 2017, estamos a explorar os ecossistemas e a sua capacidade de regeneração. Nas últimas décadas, estamos a chegar ao dia em que a Terra será ultrapassada a um ritmo cada vez mais rápido”.

Habitando o Mundo, por Felwine Sarr (tradução nossa)

Troncos deitados, na frente do Hotel Carimã, Av. das Cataratas, Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2025.

Contextualização local

Nossa cidade e nossa região vêm se fragmentando pelos interesses do poder e do dinheiro — uma “Cidade-Frankenstein”, “Cidade-Ornitorrinco”, “Cidade-Fluxo”, “Cidade-Empresa” ou “Cidade-Corredor”.  As placas tectônicas estão de novo entrando em fricção, fragmentando o espaço (o território que precisa ser transformado para corresponder  à visão occidental do território de uma cidade) e o tempo (como um ciclo que sempre volta por não conseguir resolver os traumas do passado). Essas formas se materializam nos ciclos de ocupação territorial, quase sempre marcados pela violência e pela marginalização de quem habita o território. Parece que essa lógica faz parte do próprio DNA da cidade, como já apontava o documentário As Muitas Faces de uma Cidade (2010), realizado por Mano Zeu e Danilo Ribeiro, que reflete sobre as contradições de Foz do Iguaçu: uma cidade que, ao mesmo tempo em que ostenta suas belezas naturais, ignora seus profundos problemas sociais. Essa reflexão também dialoga com a dissertação Metamorfoses na Cidade: Tensões e Contradições na Produção e Apropriação do Espaço Urbano em Foz do Iguaçu (2015), de Danilo Ribeiro.

Indicações do corredor turístico, Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2024.
Canteiro de obra na Av. das Cataratas, Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2025.

A dissertação analisa Foz do Iguaçu como uma “cidade-corredor”, moldada pelo turismo, pela logística e pela circulação de capital. A barragem de Itaipu Binacional, as grandes obras urbanas e o avanço de um urbanismo desenvolvimentista deslocaram comunidades, apagaram culturas locais e transformaram a paisagem em mercadoria. O trabalho denuncia as vítimas colaterais desse capitalismo predatório: moradores invisibilizados, territórios destruídos e populações afastadas de seus vínculos históricos e afetivos com a fronteira.

Troncos deitados depois da Aduana Brasileira indo para a Argentina,  Av. Mercosul, Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2025.

Ao final, a pesquisa destaca a necessidade de encontrar formas mais sensíveis, coletivas e territoriais de habitar a cidade. Não como um retorno romântico ao passado, mas como uma tentativa de reconstruir vínculos entre paisagem, memória e vida cotidiana. Em vez de uma cidade desenhada apenas para o capital e para o olhar estrangeiro, o trabalho defende uma cidade capaz de reconhecer seus próprios habitantes, suas histórias e seus múltiplos modos de existir na fronteira.

Ponto de ônibus no canteiro na Av. Cataratas na saída do Bairro Carimã, quase inacessível em horário de pico, Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2025.

Olhando para o desenho da cidade hoje, parece que não conseguimos levantar este debate para frente, ele só fica na esfera privada, um assunto que sempre volta mas sai pouco na esfera pública, talvez o medo de sujar a imagem turística de Foz do Iguaçu. Rodovias cortando bairros, aumentam o fluxo de carros e caminhões, aumentando a velocidade desse fluxo,  e dificultam a vida de quem anda a pé e mora na margem desses eixos, E também aumentam o risco mesmo para quem circula motorizado. Tudo passa a ser pensado para o fluxo — não para as pessoas. E aí surge uma pergunta importante: projeto estratégico para quem? 

Pegadas de animais, humanos e máquinas na terra, Av. das Cataratas Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2025.

Desde a barragem da Usina Hidrelétrica de Itaipu, algo foi rompido. Como se o território tivesse deixado de ser habitável para se tornar apenas utilizável. Como se fosse um detalhe o fato de o território ser habitado. Parece que nessa região se experimentam ciclos de violência e quem sofre é o povo que está perto destas grandes infraestruturas.

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A Avenida das Cataratas da Perimetral, Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2025.

Então entre o final de 2025 e início de 2026 duas grandes obras foram inauguradas em Foz do Iguaçu.
Nos últimos anos, Foz do Iguaçu vem sendo redesenhada como um corredor logístico continental, se materializando na Perimetral Leste e a Ponte da Integração entre o Brasil e o Paraguai. Faz parte de um projeto maior que liga o Atlântico ao Pacífico para facilitar o transporte de mercadorias, chamado de Rota 4 – Bioceânica de Capricórnio. E acontece ainda a  quadruplicação da Avenida das Cataratas para aumentar e facilitar o fluxo de trânsito na região sul de Foz do Iguaçu, aumentando a velocidade para levar os turistas às Cataratas.

As máquinas chegando no Bairro Mata Verde – encontro entre a quadruplicação da Avenida das Cataratas e da Perimetral, Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2021.


Os canteiros de obras começaram em 2021, mas hoje, que a obra está terminando e sendo entregue, o transtorno é maior ainda para todos, mas principalmente para quem anda a pé, de bicicleta e de ônibus. Porque esperar tanto tempo para terminar a obra, e ainda constatar o dinheiro público sendo usado contra os moradores é muito cruel. Talvez no mapa, de longe, isso parece fazer sentido. Muitos pensam no progresso. No nível global se fala em desenvolvimento, integração e crescimento. Mas será que este pensamento ainda funciona no meio da crise da mudança climática que o mundo está vivenciando?

Tronco picado perto do encontro entre a quadruplicação da Avenida das Cataratas e da Perimetral, Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2021.

Voltando no concreto do local, perto das obras a sensação é outra.  A perimetral e a quadruplicação da avenida Cataratas estão impactando a vida cotidiana. Foi um transtorno composto de barulho, fauna e flora destruídas, transformação da paisagem, muitas vias sem saída,  espera do ônibus com as crianças no meio da poeira do canteiro de obra e dos trânsitos, carros atolados depois dos dias de chuva, animais atropelados pelas máquinas. Se trata de uma ruptura territorial e simbólica. Enfraquecer  a circulação das pessoas para privilegiar aqueles que vêm de fora desenvolve um sentimento de não pertencimento em seus moradores.

Desculpe o transtorno, Av. Das Cataratas Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2025.

O político dominante, se justificando, fala para os moradores que precisamos fazer grandes obras de infraestrutura para atrair recursos. Mas quem vai aproveitar tudo isso? O dinheiro produzido aqui com as infra estruturas feitas com recursos públicos está sendo aproveitado por grandes do setor privado.  Nossa qualidade de vida nunca vai melhorar com essa filosofia de “tudo pelo dinheiro”. Por exemplo, em São Paulo, que é o ícone resultado deste pensamento, quem tem qualidade de vida?

Canalização do Rio Carimã, as máquinas , e o ciclista, Av. das Cataratas Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2025.

Podemos lembrar de uma audiência pública em que foi levantada a questão por um morador de que, durante a obra, a circulação de pedestres era quase impossível. O representante da construtora afirmou que havia sim passagem para pedestres. Podemos confirmar, com nossos pés, que não havia. E agora, com a obra terminada, se antes já era difícil, ficou ainda mais. Não temos como atravessar nenhuma das vias. O morador pergunta: “Não teve engenharia nesta obra?” Talvez tenha sido o engenheiro dos grupos econômicos. O capital desenha o território, sem consultar interesses populares.

Canteiro da Perimetral parada por causa da camada basáltica do solo, esperando os explosivos, Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2024.

Tudo isso digo para pensar: será que vamos continuar com essa desilusão deste tipo de visão chamada “progresso”? Porque as pessoas que moram perto deste lugar, sabem que isso não é nada de pró-gresso.

Troncos de árvores na frente do hotel Carimã, Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2023.

Na América do Sul ainda persiste o papel colonial de abastecer países ricos por meio do agronegócio — cana-de-açúcar, soja, milho, carne — além de minério e petróleo. Em outras palavras, trata-se de um modelo ainda colonial baseado na extração e exportação de commodities.

Trincheira da Perimetral rasgando a floresta,  Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2024.

Essa lógica também sustenta uma visão de mundo que separa o ser humano da natureza, colocando-o como dominador de tudo o que é vivo — o que contribui para o esgotamento do planeta e para um colapso de sentidos e vínculos. Tudo isso gera uma ansiedade generalizada: mesmo quando as transformações acontecem ao nosso redor, sentimos que não temos papel nelas, não temos como interferir.  Ainda podemos sonhar e imaginar outras formas de habitar o mundo, mas a máquina se impõe, redesenhando tudo em função do fluxo de mercadorias. 

Dissemos tudo isso pra introduzir nosso pedido de explicação.

Caminhão saindo da trincheira da Perimetral,  Foz do Iguaçu. Foto: Manuel Corman, 2024.

PEDIDO DE EXPLICAÇÃO PARA DER PR, DNIT, ITAIPU Binacional, o GOVERNO DO ESTADO e o GOVERNO FEDERAL: 10 questões que não querem calar.


O objetivo desta carta é questionar quais órgãos irão se responsabilizar pelo fracasso de uma obra mal projetada e inadequada para a cidade:

  1. Como será garantido o acesso e a circulação das pessoas? (Já sabemos que passarelas não são uma solução adequada.)
  2. O poder público local deixará de oferecer,  sem nenhuma explicação, a estrutura necessária para assegurar o direito à mobilidade urbana? (Observa-se, inclusive, o desaparecimento de diversos pontos de ônibus, e em alguns bairros o desaparecimento de linhas de ônibus).
  3. De que forma a Perimetral e a Avenida das Cataratas serão integradas à cidade? (A Perimetral atravessa cerca de 15 km sem oferecer passagens seguras para pedestres).
  4. Como evitar que esses jogos de poder e interesses destruam a vida no território a partir da gestão local?
  5. Como humanos e animais poderão atravessar a Avenida das Cataratas sem colocar suas vidas em risco? (Um adolescente morreu atropelado na via Perimetral há menos de um mês, 28 de abril, em Foz do Iguaçu, enquanto atravessava a via para ir para a escola).
  6. Onde foi realizada a compensação ambiental de todo o desmatamento causado por essa obra? 
  7. Qual será a área considerada para a compensação e o reflorestamento? Qual a conta desta compensação?
  8. Qual  será a atribuição de cada órgão para as compensações?
  9. Como será desenvolvido o plano/projeto para o redesenho das vias para sua adequação ao contexto urbano, com segurança, acessibilidade e recomposição ambiental ?
  10. Quem vai financiar e quem vai gerir este projeto para a adequação das vias ao contexto urbano?

Cafi (coletivo ambiental de Foz do Iguaçu)
Tippa (Grupo de Pesquisa “Territórios Interioranos, Paisagens e Povos na América Latina”)
Self(Y)GuaSSu

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