PARTE 2 – Uma cruz no Reino do cacique Taupá – Por Pedro Louvain
Uma tropa formada por dezenas de guerreiros indígenas remava contra a correnteza do rio Iguaçu em busca dos missioneiros, na região acima das Cataratas.
Quando se aproximavam do porto de Santa Maria, foram avistados pelos moradores, que correram para informar ao padre sobre a iminente chegada do conflito.
À frente da tropa, estava o cacique Taupá, pintado para a guerra, irritado com a mudança do assentamento jesuítico para fora da península do seu reino, ao lado das Cataratas do Iguaçu. Em sua canoa, vinha o xamã mais poderoso daquelas terras: o “feiticeiro” Yguiraró.
Eis que surge Yguiraró – “O famoso feiticeiro temido em todo o Paraná que parecia um demônio”
Yguiraró era um senhor de idade, criado nas artes nativas do xamanismo ameríndio. Sua influência nos povos guaranis se estendia do rio Iguaçu até o rio Uruguai. Era considerado o pajé dos pajés. Seu conhecimento oculto intimidava uns, ensinava outros e inspirava muitos.
Naquele dia, Yguiraró desembarcou em Santa Maria junto com o cacique Taupá e foram direto para o centro descampado do novo assentamento jesuíta. Ali os aguardavam o padre Boroa e o cacique-capitão Saulo Tabacambi, ao lado de uma grande cruz fincada no solo.
Furioso, Taupá desatou em reclamações por terem se mudado sem autorização de Ytepopó para aquele local, exigindo que retornassem imediatamente à península das Cataratas.
Padre Boroa contra-argumentou, dizendo que Deus pedira que fossem até aquele local e fincassem a cruz ali, e que, portanto, não era possível retirar a cruz do local, pois uma vez fincada no solo seria uma ofensa divina retirá-la dali. No entanto, disse que tinha guardado diversos presentes de metal para Taupá e seu povo.
Yguiraró começou a gritar em protestos. Escreveu o padre sobre o momento: “homem carnal e vicioso, veio a ver-nos em figura de demônio, como parecem quando se pintam todo o corpo e se enchem de plumas e outras coisas, com que ficam horríveis e disformes, queria me espantar por grandes vozes”.
Após intensa discussão, os jesuítas conseguiram permanecer no local e a tropa foi embora. Ao retornar a sua aldeia, o cacique Taupá percebeu que havia sido ludibriado em seus pleitos pelos padres e mandou um mensageiro de volta ao assentamento pedindo que retornassem.
Por ironia do destino, pouco tempo depois, o próprio cacique se mudaria pra redução jesuítica e seu filho seria batizado com o nome cristão de Miguel….
A Construção da Igreja – “50 pés de comprimento, 40 pés de largura e 13 pés de altura”
Segundo a orientação real, todas as reduções jesuíticas precisavam construir uma igreja em até 6 meses após sua fundação. Ela tinha que ter uma porta, e a porta, uma chave.
Porém, os santamarianos não tinham todo esse tempo. O superior geral das missões, provincial Nicolau Duran, anunciou que visitaria as missões do rio Paraná e que gostaria de conhecer Santa Maria do Iguaçu. A visita ocorreria em setembro, apenas cinco meses após sua fundação.
Para adiantar o processo, vieram voluntários indígenas cristãos de outros povoados.
A Igreja de Santa Maria foi feita com adobe, tijolos e pedras de basalto extraídas da região, além de palha sobre colunas forcadas e travessões de madeira para cobrir o telhado.

No sistema métrico atual, media cerca de 14 metros de comprimento, 11 de largura e 3 de altura. No espaço de 18 meses, ela triplicaria de tamanho com anexos laterais, ganhando novos cômodos, onde começaram as aulas de latim e leitura da bíblia, além de música e canto coral, conduzidas pelo padre músico Claudio Ruyer. Mais tarde, chegaria o sino, que foi pendurado em um cavalete de madeira.
As demais casas do povoado eram mais simples, com juncos cobertos de barro, sem janelas nem chaminés, com telhados de palha.
Visita do cacique Paraverá, o “Rio Resplandecente”
Segundo as orientações do Vaticano, toda missão católica deveria ter um cabildo, grupo encarregado do poder mundano e da ordem cotidiana do povoado. O cabildo deveria ser obrigatoriamente chefiado por um cacique indígena. Santa Maria já tinha o seu: cacique Taupá, que aceitou se mudar para o núcleo reducional e exercer o poder local, dessa vez em nome da Coroa. Junto com ele veio grande parte do seu povo.
No entanto, havia um outro grande cacique guarani que não queria se converter. Cacique Paraverá, que em guarani significaria “Rio Resplandecente”, liderava uma outra populosa aldeia no Iguaçu, localizada a algumas léguas rio acima da aldeia do cacique Taupá, com quem tinha boas relações. Apesar de serem amigos, Paraverá resistia em aderir ao projeto missioneiro.
A pedido dos padres, o cacique Taupá visitou a aldeia do amigo, para convidá-lo às festividades de recepção do provincial Nicolau Duran. Após aceitar o convite, Paraverá desceu o rio com sua comitiva real, visitou curioso a praça central de Santa Maria e viu pela primeira vez aquela curiosa edificação chamada “Igreja”.
Nessa época, a “Missão das Cataratas” já contava com cerca de 1.600 pessoas batizadas e a prioridade da comunidade era simples: preparar as festividades para recepção da comitiva eclesiástica.

A visita do supervisor Nicolau Duran – Setembro de 1626 – “Música de flautas da terra e violinos e toda gente com grande alegria”
O provincial Nicolau Duran tinha a responsabilidade de visitar as reduções jesuíticas do alto rio Paraná e relatar aos seus superiores da Companhia de Jesus o desenvolvimento de cada uma. O objetivo da sua comitiva era subir o rio Paraná, visitando diversas reduções em seus afluentes, como o Paranapanema, Ivaí, Piquiri, Acarai e Iguaçu.
Quando desembarcou no porto de Santa Maria do Iguaçu, foi recebido por dois coroinhas que o saudaram com versos em espanhol. A trilha do cais até o povoado, com cerca de um quilômetro, estava decorada com arcos de flores para receber os visitantes.
Ao chegarem, foram recebidos com festa, comida, música e encenações teatrais. Afirmou padre Ruyer sobre aquele momento: “também houve danças de crianças, musica de flautas da terra, e violinos e toda gente com grande alegria por verem-se favorecidos pela visita de sua reverência”.
O provincial Nicolau Duran mencionou a importação de instrumentos: “fizeram danças com muito engenho ao som de boa música de violinos e outros instrumentos que haviam levado os padres de outras reduções”. Um dos nativos chegou a ser batizado com seu nome, Nicolau, em sua homenagem.
Em sua comitiva, também estava o padre Roque Gonzalez de Santa Cruz, que seria morto apenas dois anos depois pelo cacique Nheçu e canonizado pelo papa João Paulo II, três séculos mais tarde.
Pouco tempo após a partida da comitiva, o cacique Paraverá decidiu se converter ao cristianismo e se mudar para Santa da Maria do Iguaçu. Com ele veio sua aldeia, cerca de 200 famílias. Foi batizado com o nome cristão de Cristovão Paraverá, pai do príncipe Diego Paraverá, batizado em homenagem ao padre Diego de Boroa.
Porém, não havia apenas aldeias da nação Guarani no rio Iguaçu.

O Ataque Surpresa da Nação Caaigua – “Movidos pela curiosidade entraram nas terras dessa população e avançaram”
Caaigua seria um termo que significaria “índios que vivem dentro dos montes”. Segundo padre Ruyer, seu povo falaria uma “língua peregrina muy dificultosa”, idioma do qual os jesuítas não compreendiam palavra, pois pertencia ao tronco linguístico Jê, distinto do tronco Tupi-guarani, que era a língua mais falada em Santa Maria.
Navegando rio Iguaçu acima, para além do local da antiga aldeia do cacique Paraverá, havia o País dos Caaiguas, muito característico pelas suas casas subterrâneas e pela produção de vinho de mel, o kiki, bebida ritual do kikikoi. Estavam há séculos em guerra com a nação Guarani, com frequentes episódios de revanches e antropofagias. Para eles o rio Iguaçu tinha outro nome: Goyo-Covo.

Quando os caaiguas perceberam que os conflitos com os guaranis haviam diminuído e que os ataques do cacique Paraverá haviam parado, sentiram que havia algo estranho. Resolveram atacar a aldeia dele. Chegando lá, nada. Apenas vestígio da aldeia do antigo inimigo. Abordaram alguns indivíduos na região para entender o que havia acontecido, que apontaram para o rio Iguaçu abaixo, gesticulando a existência de outra grande aldeia.
Dezenas de guerreiros caaiguas decidiram, então, continuar descendo o rio Goyo Covo para encontrar e atacar aquele novo povoado fundado por seus rivais guaranis.
A guerra se aproximava de Santa Maria do Iguaçu.
Continua na Parte 3…

