Crônica de uma tragédia anunciada

Leia a opinião do geógrafo Genilson Costa sobre a falta de investimentos significativos na prevenção de emergências climáticas em Foz do Iguaçu.

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Genilson Costa | OPINIÃO

Apesar da tragédia que ocorre atualmente no Rio Grande do Sul na forma de enchentes ser algo inédito nessas proporções, ela está longe de poder ser considerada inesperada. Eventos meteorológicos e climáticos extremos como esse estão previstos para acontecer com cada vez mais intensidade e com maior frequência em virtude das mudanças climáticas e do processo de urbanização, cabendo à sociedade e ao poder público decidir se preparar para eles ou alegar surpresa a cada vez que ocorrerem.


Desde o final do século passado, diversos estudos apontam as causas e consequências das mudanças climáticas em curso, de modo que atualmente já há um forte consenso na comunidade científica em relação a como as atividades humanas são responsáveis por inúmeras mudanças nos padrões climáticos globais. Por um lado, esse entendimento aponta para a necessidade de se diminuir as atividades humanas nocivas ao planeta, o que certamente é necessário e urgente. Porém, também é consenso que muitas dessas mudanças apontadas são irreversíveis numa escala de tempo da vida humana, sendo assim fundamental se preparar enquanto sociedade para lidar com os riscos e tentar diminuir os impactos no bem-estar e na integridade física das pessoas e comunidades.


O foco nesse segundo ponto é especialmente importante no caso das áreas urbanizadas em função tanto da maior densidade populacional desses locais quanto da impermeabilização do solo e dos problemas socioambientais já existentes nas nossas cidades, que fazem com que elas sejam mais vulneráveis, por exemplo, às enchentes.


Olhando para a nossa região, um estudo feito em 2017 pela Universidade de Leeds, da Inglaterra, focado em dar um panorama das principais vulnerabilidades da Região da Tríplice Fronteira frente às mudanças climáticas, aponta, por exemplo, a tendência de aumento de chuvas extremas na nossa região. O estudo traz ainda o alerta de que esses grandes volumes concentrados de chuva, acima do que estávamos acostumados a ver, devem levar a grandes inundações nas planícies inundáveis dos nossos rios, que muitas vezes estão escondidos sob asfalto. Como sabemos que essas planícies correspondem a boa parte da área ocupada das cidades da Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, somente ações contundentes no escoamento e contenção desse fluxo d’água poderá evitar que as trágicas enchentes que vemos agora no Rio Grande do Sul não se repitam por aqui cedo ou tarde.


Assim, seria natural termos maciços investimentos em drenagem, construção de parques lineares e áreas de absorção de águas pluviais, além da desocupação das áreas mais críticas e da elaboração de planos de emergência. Porém, o que vemos em Foz do Iguaçu é um orçamento que parece ignorar esses riscos. Entre os grandes investimentos divulgados nos últimos anos pelos entes governamentais para a cidade, nos quais podemos citar a conclusão da sede da UNILA (R$ 750 milhões), construção do Porto Seco (R$ 500 milhões ), duplicação da BR-469 e construção da segunda ponte entre Brasil e Paraguai (R$ 129 e R$ 233 milhões, respectivamente ), poucos estão vinculados ao aumento da resiliência da cidade frente a desastres naturais, demonstrando a falta de prioridade governamental nessa área crítica.


Dessa forma, é fundamental que os riscos ambientais sejam inseridos na agenda governamental de forma séria e comprometida, e não apenas na forma de discursos em momentos de crise. E isso inclui, certamente, investimentos em estudos que esclareçam nossas prioridades em relação às estratégias de adaptação às emergências climáticas, assim como que essas prioridades estejam refletidas no orçamento público, de forma que possamos investir mais em prevenção no presente e menos em reconstrução no futuro.


Genilson Costa é geógrafo e reside em Foz do Iguaçu.

1 – SAKAI, P. et all. (2017) Vulnerability Assessment and Adaptation Strategies of the Triangle-City Region, a report by the Climate Resilient Cities in Latin America iniciative, Climate and Development Knowledge Network (CDKN) and Canada’s International Development Research Centre (IDRC).
2 – https://www.h2foz.com.br/pense-nisso/grande-investimento-para-foz-do-iguacu/
3 – https://www.gazetadopovo.com.br/parana/maior-porto-seco-da-america-latina-comeca-obras-foz-do-iguacu/
4 – https://www.aen.pr.gov.br/Noticia/Com-apoio-do-Estado-Foz-do-Iguacu-vira-canteiro-de-obras-e-preve-crescimento-no-turismo

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