Falta projeto para fixar população

Por Renato Martins | OPINIÃO

Há quem atribua o declínio da população municipal a fatores estritamente econômicos e comerciais, e considere que as causas do fenômeno decorrem sobretudo das barreiras ao livre comércio fronteiriço. De acordo com essa visão simplista, bastaria aumentar o limite das compras em Ciudad del Este para que a economia de Foz do Iguaçu voltasse a florescer, como já se observou em outros períodos da evolução econômica municipal.

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É óbvio que a geração de emprego e de renda é fator crucial para estancar o declínio populacional. Isso não se discute. O que se deve questionar, porém, é se isso seria suficiente para reverter a tendência de uma forma definitiva e sustentável. Eu penso que o enfrentamento do problema vai além dessa visão mercantilista. Acho que as elites locais têm parcela importante de responsabilidade pelo problema, uma vez que não lograram definir um projeto de longo prazo que fosse capaz de fixar a população na fronteira trinacional.

O exemplo internacional demonstra que cidades semelhantes a Foz do Iguaçu enfrentaram o problema associando os esforços de crescimento econômico à distribuição de renda, à inclusão social, ao respeito aos direitos humanos e ambientais e à participação democrática. Eu não vejo essas preocupações sendo consideradas pelas elites daqui.

Na área rural, por exemplo, que corresponde a uma parcela importante do território municipal, predomina o agronegócio, que como todos sabem concentra a propriedade e expulsa o pequeno agricultor, além de degradar o meio ambiente com o uso descontrolado de agrotóxicos. Em todos esses anos nunca vi ou ouvi uma proposta consequente de implantação de agrovilas, por exemplo, que seria uma forma de mitigar o problema. Há áreas no município que poderiam servir para essa finalidade. Em parceria com o MST se poderia produzir alimentos baratos, de qualidade, fixando o homem do campo no município. Essa medida simples ajudaria a preservar a cultura camponesa e a produzir alimentos saudáveis para a população. Esse é só um exemplo do que falo quando me refiro a uma mudança de mentalidade.

Os megaprojetos, as grandes obras, pontes e rodovias também são importantes, mas eles tampouco contribuem para estancar a diminuição da população quando geram um tipo de crescimento divorciado do combate às desigualdades sociais. O município fluminense de Maricá, que também se beneficia dos royalties de uma empresa estatal, tem se destacado na geração de emprego e renda, associando o crescimento econômico à distribuição da riqueza. Maricá se converteu num fator de crescimento regional, irradiando seu dinamismo para municípios vizinhos, como São Gonzalo e Niterói. A população municipal tem crescido lentamente nos últimos anos, e a base de tudo isso foi o programa de renda universal implantado pela administração municipal.

Algo similar poderia ser feito em Foz do Iguaçu, a fim de tornar a cidade mais humana e humanizada. Quem sabe dessa forma não viéssemos a reverter a tendência de decréscimo populacional que, combinada com o fim da janela demográfica, poderá tornar-se um problema econômico ainda maior nas próximas décadas.

É questão de torcer para que haja uma mudança de mentalidade das elites e de perfil do modelo de desenvolvimento econômico, de modo que eles sejam menos focados nos lucros imediatos e mais atentos ao destino de todos nós, cidadãs e cidadãos de Foz do Iguaçu – ainda mais nesse contexto de pós-pandemia, que não deixa de ser uma oportunidade para recomeçarmos em bases menos egoístas do que estávamos habituados.

* Renato Martins é sociólogo e professor da UNILA (Universidade Federal da Integração Latino Americana).

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