O futuro do turismo e a diversificação da matriz econômica de Foz do Iguaçu

Gilmar Piolla | OPINIÃO

A pandemia do novo coronavírus revelou a grande dependência econômica de Foz do Iguaçu em relação ao turismo. Somos um dos municípios mais impactados do estado do Paraná, em que pese o fato de estarmos em melhores condições na comparação com outras cidades brasileiras essencialmente turísticas. O turismo foi e continuará sendo o nosso principal eixo de desenvolvimento. E acredito muito na sua capacidade de se autorregenerar no pós-pandemia.

Mas o que podemos fazer no futuro para diversificar a nossa matriz econômica e evitar que crises como esta possam se repetir? Com um território limitado e poucas áreas cultiváveis, evidentemente que o agricultura em si não é uma alternativa. No entanto, poderemos abrigar aqui a inteligência do agronegócio.

Polo de tecnologia e inovação

Uma das nossas apostas é a consolidação do polo de tecnologia e inovação.

Já temos o Parque Tecnológico Itaipu aqui instalado. E teremos agora o Centro Municipal de Inovação, um investimento da Prefeitura Municipal na revitalização do antigo Centro de Artesanato, que abrigará o nosso condomínio de startups. Queremos o PTI e o Sebrae conosco na gestão desse empreendimento.

A Lei Municipal da Inovação (Lei Complementar nº 283/2017) é uma realidade e já foi regulamentada (Decreto nº 27.514/2019), estabelecendo claramente as atividades que terão direito aos benefícios fiscais, o que inclui a redução da alíquota de ISSQN de 5% para 2%.

Há também a Lei Estadual nº 14.895/2005, que garante a desoneração de até 80% do ICMS sobre importação de componentes destinados à produção de eletroeletrônicos, informática e telecomunicações. E já propusemos também uma lei federal para completar a política de incentivos fiscais para fomento do setor.

O projeto do Bairro Inteligente da Vila A, do PTI, começa a se materializar. Inovação combina com disrupção. Por isso, liberamos as empresas para que possam operar seus negócios no ambiente livre do regime de sandbox. Ou seja: não temos dúvidas que estamos no caminho certo para o desenvolvimento de um ecossistema favorável à atração de empresas de base tecnológica.

Polo de saúde

Outra área promissora é a saúde. O tão sonhado polo de serviços de saúde nunca esteve tão perto. Os investimentos na ampliação do atendimento do Hospital Municipal Padre Germano Lauck, sobretudo das unidades voltadas ao enfrentamento da Covid-19, vão se incorporar à estrutura permanente.

Considerado um dos melhores hospitais do interior do Paraná, o Hospital Ministro Costa Cavalcanti, mantido por Itaipu, passará por uma ampla reforma, com a expansão da área construída, instalação de novos leitos, aquisição de equipamentos e contratação de mais profissionais. Ficará ainda mais qualificado, com os investimentos de R$ 65 milhões que receberá de Itaipu.

A esses investimentos, soma-se o novo hospital da Unimed, que reúne investidores locais e do Norte do Paraná, e o edifício Day Medical Center, um empreendimento privado, com quase 30 mil m2 de área construída, projetado para consultórios médicos, clínicas, laboratórios e centro cirúrgico de baixa complexidade. O Day Medical Center é resultado de uma parceria da WTeixeira Seguros com a conceituada Pro Medical Consultoria, responsável por grandes empreendimentos na área de saúde em Porto Alegre, Campinas, São Paulo, Curitiba, Florianópolis e Belo Horizonte.

A esses estabelecimentos, agregam-se ainda as clínicas de estética, como a do Dr. Gustavo Capobianco, e as de odontologia, que já atraem público regional estrangeiro. A esses serviços, podemos incluir, ainda, o Centro de Medicina Tropical de Foz do Iguaçu e os laboratórios do curso de medicina da Unila – Universidade Federal da Integração Latinoamericana.

Também estamos de olho no potencial do aproveitamento do espaço que pertenceu à antiga Santa Casa. Além, evidentemente, do potencial minero-medicinal das águas termais do Aquífero Guarani, dos íons negativos do ar das Cataratas do Iguaçu, os banhos de florestas, as plantas medicinais e os recursos da medicina alternativa, com potencialidades ainda inexploradas.

Polo educacional

Educação é a base de uma cidade melhor, de um futuro com novas oportunidades para todos. O desempenho das escolas da rede pública municipal no Ideb é motivo de orgulho. Mas o que quero tratar aqui é do nosso polo universitário. Nenhuma cidade de porte médio se desenvolveu no mundo sem ter uma boa universidade como fator de desenvolvimento. Antes da pandemia, tínhamos 09 instituições de ensino superior e mais de 20 mil estudantes de graduação de pós-graduação. Nossa meta é chegar a 50 mil estudantes universitários ao final da próxima década.

A Unila corrigiu equívocos iniciais e hoje desponta como uma das melhores universidades públicas federais, com 175 mestres e 369 doutores. Seus cursos estão bem conceituados no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – Enade. Nascidos dentro da Itaipu, os cursos de engenharia da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste são referência de qualidade. Maior instituição em número de alunos, a UDC se destaca por oferecer ensino do maternal até graduação e a pós-graduação. E sonha com o seu curso de medicina. Já a UniAmérica, com a metodologia diferenciada da aprendizagem baseada em problemas, é uma instituição comunitária integrada com as demandas empresariais. De olho nesse mercado regional, o Grupo Positivo se instalou na cidade ao adquirir o colégio COC Semeador. E virão mais investimentos por aí.

Lojas francas

A chegada da pandemia e o consequente fechamento das fronteiras fizeram deslanchar o movimento de instalação das lojas francas em Foz do Iguaçu. Permitidas pela Receita Federal em cidades gêmeas de fronteira, essas lojas, também conhecidas como free shops, serão um chamariz para o turismo regional e o doméstico nacional. Pela legislação vigente, poderão ser vendidos produtos nacionais e importados até o limite de 300 dólares por CPF/mês para moradores e turistas. A esse limite se soma a cota de mais 500 dólares para quem atravessar a fronteira de Argentina ou Paraguai.

Pelo menos seis lojas estarão prontas e em funcionamento até o final do ano e algumas dezenas estão em fase de estudos, o que indica que o caminho é irreversível. Teremos até lojas francas de fábrica, de grandes marcas nacionais, aqui instaladas. Destaques até agora ficam por conta da loja da Cell Shop, de dois mil metros quadrados, no Shopping Catuaí Palladium; a loja da Duty Free Liberty no Shopping JL Cataratas; e as duas lojas da SKY Duty Free no Aeroporto. Demais ainda não posso falar.

Hub logístico

A localização geográfica privilegiada reforça a candidatura de Foz do Iguaçu a hub logístico da América do Sul, em especial do Mercosul e países andinos. Nosso novo porto seco deverá ser trimodal e não apenas rodoviário. Com a construção da Perimetral Leste, abre-se a possibilidade de realocação do atual porto seco para a entrada da cidade, para que incorpore futuramente os modais ferroviário e hidroviário.

Ao mesmo tempo, com a ampliação da pista de pouso e decolagem do Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu, dos atuais 2.195 para 2.800 metros de extensão, temos condições de abrigar aqui um hub/spoke aéreo, com ligações para as principais cidades brasileiras e da América do Sul, além de conexões diretas, sem escalas, para Estados Unidos (Miami e Nova Iorque) e países europeus (Lisboa e Madri).

Todos os passos para constituição do hub/spoke aéreo já foram dados: ampliação da pista de pouso e decolagem e repaginação do aeroporto, negociação com o Governo do Paraná para flexibilização do regime de incentivos autorizados pelo Confaz, redução das taxas aeroportuárias por parte da Infraero e articulação com as companhias aéreas.

Eixos de desenvolvimento

Obras da Perimetral vão destravar investimentos na expansão do nosso corredor logístico. Áreas do distrito industrial e empresarial serão valorizadas. Desde que entramos na secretaria, atraímos 36 novas empresas para o distrito industrial, que juntas irão gerar 885 empregos diretos e cerca de R$ 100 milhões em investimentos.

Assim como as obras de duplicação da Rodovia das Cataratas darão o start que precisávamos para atração de investimentos na ampliação dos atrativos, parques temáticos (Blue Park, Dreams Motor Show e Movie Cars) meios de hospedagem, gastronomia e lojas francas.

O aproveitamento do potencial termal do Aquífero Guarani, juntamente com os novos empreendimentos hoteleiros multipropriedade (MyMabu, Aquan Prime e Hard Rock Hotel) e os condomínios residenciais de alto padrão (Village Iguassu, Royal Boulevard Yatch e Majestic Residence) são um indicativo de tendência, apontando para a fidelização do nosso público e o crescimento do turismo de segunda residência no destino. Anotem aí: seremos uma espécie de “riviera” brasileira em cinco anos, o refúgio natural e seguro para brasileiros e sul-americanos, um hub de lazer e de serviços.

Cidade que mais atrai investimentos

Foz do Iguaçu se consolidou nos últimos anos como a cidade turística brasileira que mais atrai investimentos públicos e privados. A sinergia construída entre os governos municipal, estadual, federal, Itaipu Binacional, Dnit, DER/PR e Infraero é digna de reconhecimento. São cerca de R$ 1 bilhão em investimentos, sobretudo da Itaipu Binacional, que vão transformar a nossa infraestrutura (Segunda Ponte Brasil – Paraguai, Perimetral Leste, duplicação da Rodovia das Cataratas, repaginação do terminal de passageiros e ampliação da pista de pouso e decolagem do aeroporto, viaduto da Avenida Costa e Silva, trincheiras, iluminação do trecho urbano da BR-277, asfaltamento de ruas, obras de drenagem, ampliação da Avenida Beira Rio etc).

E são mais de R$ 2 bilhões em investimentos previstos pela iniciativa privada, incluindo a futura concessão do Parque Nacional do Iguaçu; concessão do Centro de Convenções; construção de 2.500 novos apartamentos na rede hoteleira (dois novos hoteis da rede Viale, retrofit do antigo hotel Carimã, ampliações diversas, como a do San Juan Eco, novo empreendimento da rede portuguesa Moov etc); casas em condomínios de luxo, já citados anteriormente; novos atrativos turísticos (fase dois do Blue Park, complexo do Movie Cars, ampliação do complexo Dreams Park Show, revitalização do Espaço das Américas, Mercado da Cobal, Parque da Vila A, roda gigante FozStar, dentre outros); além dos investimentos nos polos de saúde, educação, tecnologia inovação e no distrito industrial e empresarial.

Ambiente favorável

Muitos fatores contribuíram para essas conquistas. Convém destacar os principais: 1) a sinergia entre as instituições públicas e privadas, especialmente o apoio da Itaipu aos projetos de infraestrutura; 2) o fortalecimento da sociedade civil organizada (Comtur, Codefoz, Observatório Social e o programa Acelera Foz); 3) uma agenda de desenvolvimento com projetos idealizados pelo Fundo Iguaçu; 4) a imagem positiva da cidade gerada com campanhas de marketing e exploração das mídias espontâneas; e 5) a unificação das secretarias de Turismo, Indústria, Comércio e Projetos Estratégicos, que passou a atuar em parceria com o Sebrae-PR, o planejamento urbano e outras pastas para destravar o ambiente econômico.

Ainda temos muitos desafios a vencer. Precisamos manter o foco e evitar retrocessos. Diversificar a matriz econômica de uma cidade complexa como Foz do Iguaçu é um trabalho que leva pelo menos uma década. Importante que todos os candidatos a prefeito assumam o compromisso de dar continuidade a esse conjunto de ações, que já está gerando resultados a olhos vistos. Agradeço a oportunidade de trabalhar com entusiasmo e paixão nessa missão, que tem sido muito desafiadora, porém, gratificante e abençoada!

*Gilmar Piolla, jornalista, é secretário de Turismo, Indústria, Comércio e Projetos Estratégicos de Foz do Iguaçu.

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Alexandre Palmar

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