O impeachment do ex-presidente do Paraguai Santiago Peña mostra como a instabilidade política ainda assombra o país e a falta de diálogo entre governo e Congresso pode comprometer um mandato. O episódio abala a confiança na economia e é capaz de frear a abertura de contas no território paraguaio por parte de brasileiros.
Professor doutor de Ciência Política e Sociologia da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Junior Ivan Bourscheid acredita que o resultado do julgamento político de Santiago Peña corroborou as análises que sinalizavam a inabilidade política dele e a tentativa que tinha de posicionar-se como um tecnocrata.
O professor frisa que o ex-presidente agia como não se fosse necessário construir acordos políticos dentro de seu próprio partido, por isso afastou o Congresso do seu governo.
“A crise do ueno ficou marcada como a crise de Santiago Peña, o tecnocrata economista especialista na gestão financeira. A confluência das problemáticas da esfera financeira com as da esfera política culminou na sua deposição por unanimidade no Senado”, realça.
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Na análise dele, o Congresso respondeu à mobilização popular, que clamava por punição a Peña, e isso não passava pela aceitação da renúncia — a qual manteria foros ou privilégios, evitando a prisão.
Para ele, cabe agora observar como o novo presidente, Pedro Alliana, atuará até o encerramento do governo, em agosto de 2028, ou seja, se ele conseguirá compor uma aliança dentro do Congresso que lhe permita ter a governabilidade para concluir o mandato, atuando como se espera de um cargo político.
Economista e pesquisador na Unila, Alexandre Costa aponta que há informações de que não só brasileiros, mas também paraguaios estão trazendo aplicações e dinheiro para o Brasil. Ele avalia que a crise do ueno bank não tem capacidade para desestabilizar a economia do país, porque a microeconomia e os índices macroeconômicos estão estáveis.
No entanto, é preciso que o governo atue de modo rápido e eficiente para liberar o dinheiro do banco para a população. A demora pode diminuir a credibilidade da economia e prejudicar o crescimento e desenvolvimento do Paraguai em longo prazo, pois as pessoas vão acabar tirando dinheiro do país, sobretudo investidores estrangeiros, que avaliam ser fundamental a confiança e a expectativa na economia.
Cronologia das crises políticas no Paraguai
- 1999 — O vice-presidente do Paraguai Luis Maria Argaña é assassinado em Assunção, gerando uma crise política que culmina com o Marzo Paraguaio. O presidente Raúl Cubas renuncia ao cargo e foge para o Brasil. O então presidente do Senado Luis Ángel González Macchi assume o comando do país.
- 2012 — Impeachment do presidente Fernando Lugo após um episódio de embate agrário em Curuguaty, envolvendo policiais armados e campesinos, que resulta em 17 mortes. O vice, Federico Franco, assume o governo.
- 2017 — Manifestantes invadem o Congresso e ateiam fogo após uma tentativa do ex-presidente Horácio Cartes de aprovar a reeleição. Por pressão popular, o projeto não é aprovado.
- 2026 — Crise do ueno bank e impeachment de Santiago Peña. O vice, Pedro Alliana, assume o governo.
Entenda o caso
Santiago Peña foi deposto após o Senado aprovar o impeachment por 44 votos a favor e nenhum contra, com 44 dos 45 senadores presentes.
A crise política que resultou na cassação do mandato do então presidente ocorreu após o Banco Central do Paraguai (BCP) determinar o bloqueio de todo o dinheiro depositado no ueno bank, maior banco digital do país.
A medida afetou quase três milhões de correntistas, número significativo em um país com cerca de sete milhões de habitantes. Peña era acionista do banco até março deste ano.

