A cena drag queen e LGBTI+ de Foz do Iguaçu esteve ligada não apenas à vida noturna, mas também a espaços de militância, performance, moda, produção cultural e sociabilidade. Com origem independente, por meio de artistas locais, concursos, bares, coletivos e eventos comunitários, essa cultura se manteve viva na cidade ao longo das últimas décadas.
Voltando para 2019, a relação entre a fronteira e a cultura drag ganhou maior projeção nacional com a passagem de Pabllo Vittar pela cidade em março daquele ano. O show, realizado no Rafain Expocenter, integrou a turnê internacional Não Para Não Tour, enquanto vídeos da artista interagindo com fãs em estabelecimentos locais viralizaram nas redes sociais. Hoje, ela é a drag queen com mais seguidores no mundo.
Quando Pabllo Vittar subiu ao palco naquela noite, porém, a cena local já possuía uma trajetória consolidada. Concursos, apresentações independentes, espaços culturais e artistas locais vinham desenhando essa história havia mais de uma década. Entre os nomes mais conhecidos daquele período estava Ceciliah Bally, figura central em Foz.
A House Bally
Ceciliah Bally é a personagem artística de Cícero Adolfo, professor de artes e performer ativo desde 2005. Em entrevistas concedidas ao longo dos anos, relatou que começou a montar-se após contato com amigos ligados à cultura drag, inicialmente como forma de animar festas e encontros. Com o tempo, a atividade deixou de ser apenas um hobby e passou a ocupar papel mais relevante em sua vida artística.
A construção estética de Ceciliah passou inicialmente por referências ligadas ao universo burlesco e por figuras como Cher, Madonna e Beyoncé. Ao longo dos anos, a personagem incorporou elementos mais experimentais e conceituais, utilizando figurinos, maquiagem e performance como forma de expressão artística e construção de discurso.

Além da atuação nos palcos, também esteve ligada à militância da diversidade. Participou de eventos comunitários, apresentações em paradas pela diversidade e ações culturais e manteve vínculo direto como madrinha da ONG Casa de Malhu, voltada a pessoas LGBTI+, com foco na população trans.
A influência da artista também se refletiu em outras personagens da cena local. Entre elas estão Lorena Bally, eleita Miss Gay Oficial da Tríplice Fronteira 2019/2020 e Miss Simpatia do mesmo período, e Lara Bally, que conquistou o título de Miss Drag da Tríplice Fronteira entre 2021 e 2023. Outros nomes da irmandade são Bela Bally, Evelyn Brach Bally e Ninady Bally.

Memórias da Esquina Cultural
Outro nome importante para compreender a cena drag da fronteira é Madame Yala, personagem artística de Yuri Amaral, que trabalha com ilustração de livros e arte digital.
Em publicações nas redes sociais, relembrou apresentações na antiga Esquina Cultural, espaço que marcou iguaçuenses durante a década de 2010.
Entre as memórias compartilhadas estão registros do evento O Natal das Drags, realizado em 2017 e considerado um dos últimos grandes encontros do espaço. Citou também o Sabá das Bruxas, que no mesmo ano chegou a realizar duas sessões lotadas.
As lembranças incluem ainda o espetáculo Las Mariconas, realizado em 2016 no antigo Soy Loco Porti Foz.

A trajetória de Yala aparece registrada no livro-reportagem Qual é o babado?: Um retrato da cultura Drag de Foz do Iguaçu, publicado em 2021 por Murilo da Matta. A drag ocupa papel importante na aproximação do próprio autor com a cena local. As páginas reúnem entrevistas com cinco drag queens da cidade e abordam temas como preconceito, autodescoberta, arte, performance e desconstrução de padrões sociais.
Entre os nomes citados na publicação está Luna Blue, que manteve atividade artística ao menos até 2023, divulgando apresentações em espaços como o Medusa Pub e participando de iniciativas culturais em Cascavel, incluindo ações ligadas ao projeto Cultura em Ação e à Moonlight Club.
Novas trajetórias
Outro nome ligado à história recente da cena é Soraya Sucata, nascida em Foz do Iguaçu e atualmente radicada em São Paulo. Antes da mudança, em 2021, participou de diversos eventos produzidos de forma independente pelas próprias drags locais, incluindo bingos, festas temáticas e apresentações coletivas.
Na capital paulista, passou a integrar novos espaços culturais, participando do concurso Drag 40° e de duas edições do Show de Calouros promovido pela Companhia Canastra. Nas redes sociais, Soraya se define como “uma falida vilã de novela drag” e constrói uma estética marcada pelo improviso, humor, exagero visual e referências club kid e brega.

Outra artista ligada a Foz do Iguaçu é Trava da Fronteira, identidade por trás da drag Magenta Canterlot, atualmente conhecida como Magenta Canteiro. Integrante da cena artística da região por anos, mantém circulação entre Foz do Iguaçu e Curitiba e atua em diferentes linguagens artísticas.
Tricampeã do Slam PR, integrante da Ungueto Crew e mestranda em Arte, recentemente Trava da Fronteira participou do lançamento da música Peligrosa, presente no álbum Atravessada, projeto aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná por meio da Política Nacional Aldir Blanc.
Também participou da faixa Feminina, da artista Siamese, ao lado de Bixarte, em um trabalho voltado à discussão sobre feminilidade, identidade travesti e resistência.
Espaços de troca
Um eixo importante identificado na cena local é a relação entre a cultura drag e os espaços culturais LGBTI+ da cidade. Um dos exemplos mais marcantes foi a Pagu, cafeteria, bar e espaço cultural criado por James Willie, responsável pela drag queen Desirée Tavares.
O local surgiu inicialmente como alternativa para apresentações de drag queens e eventos culturais após o fechamento de outros ambientes ligados à cena alternativa da cidade. Com o passar dos anos, tornou-se ponto de encontro para artistas, militantes e frequentadores da comunidade.
Durante a pandemia, a Pagu precisou reinventar-se financeiramente por meio da criação de um brechó paralelo. Embora atualmente esteja inativa, permanece como uma das referências da cena cultural LGBTI+ recente da fronteira.

Atualmente, a presença drag continua ocupando novos espaços. Na Purple Club, por exemplo, é possível assistir a apresentações de artistas que também atuam como DJs. Entre os nomes que passaram pelas pistas recentemente estão Juliette, Kylie, Mariah Thompson e London Piton.
Entre concursos, performances, casas noturnas, livros, espaços culturais e produções musicais, a cena drag de Foz do Iguaçu segue construindo sua própria história. Das apresentações realizadas em bares alternativos aos artistas que hoje circulam por outras cidades, a cultura drag da fronteira continua transformando-se.
O H2FOZ segue acompanhando e mapeando a cena LGBTI+, drag e de cultura independente em Foz do Iguaçu e na região da fronteira. Artistas, coletivos e projetos podem ser indicados para futuras matérias e conteúdos nas redes sociais do portal (@h2foz).


