H2FOZ
Início » Planeta Foz » Cultura » Entre dub, ska e roots, conheça o reggae da fronteira

Cultura

Jamaica presente

Entre dub, ska e roots, conheça o reggae da fronteira

Produção independente, cultura rastafári e circulação entre Brasil, Paraguai e Argentina mantêm ativa a cena na voz de iguaçuenses

8 min de leitura
Entre dub, ska e roots, conheça o reggae da fronteira

Nas pistas de skate, bairros periféricos e eventos organizados pelos próprios artistas, um ritmo jamaicano segue vivo em Foz do Iguaçu. Longe das grandes estruturas e dos circuitos tradicionais de cultura da cidade, bandas produzem músicas autorais, videoclipes e festas que misturam reggae, dub, ska e cultura rastafári.

Em entrevista, o líder da banda Conexão Fronteira Raiz, Samuel Jahimi, conta como o grupo se tornou referência do reggae nas Três Fronteiras em quase dez anos de formação. Entre as principais influências, cita Bob Marley, Peter Tosh, The Congos, Ponto de Equilíbrio, Mato Seco e Racionais MC’s.

Publicidade

Sobre as parcerias dos sonhos, o vocalista menciona Ziggy Marley, filho de Bob Marley, a já citada banda Mato Seco e o rapper Matuê. Essa mistura de referências ajuda a mostrar como a cultura jamaicana permanece presente na música do grupo, mesmo dialogando com outros ritmos e linguagens. Um pequeno retrato da versatilidade desse estilo que se tornou mundial.

Conexão Fronteira Raiz

Uma das principais representantes do reggae no lado brasileiro da fronteira é a banda Conexão Fronteira Raiz, formada oficialmente em 2018. O grupo nasceu a partir da trajetória de Samuel Jahimi, músico iguaçuense que começou a tocar violão em 2012 influenciado pelo movimento rastafári. Segundo ele, naquele período, Foz do Iguaçu ainda era carente de bandas de reggae roots.

Pouco depois, amigos passaram a acompanhar os ensaios improvisados, formando os primeiros núcleos do que mais tarde se transformaria na Conexão Fronteira Raiz.

“Meus amigos começaram a gostar das músicas reggae que eu tocava no violão. Eles começaram no teclado, bateria e outros instrumentos”, relembra.

Naquele período, o reggae ocupava pouco espaço na cidade, especialmente em comparação aos movimentos ligados ao rap e hip-hop, como no trabalho do DJ Mano Zeu. O projeto do grupo começou a tomar forma a partir de um convite para tocar no evento Café com Teatro, realizado no Zeppelin Old Bar. O show marcou uma das primeiras grandes apresentações da banda.

Os primeiros registros digitais da Conexão Fronteira Raiz reforçam essa construção gradual. O canal da banda no YouTube existe desde maio de 2015, embora o primeiro vídeo atualmente disponível tenha sido publicado em fevereiro de 2019, mostrando um ensaio dos integrantes.

Publicidade

Ao longo dos anos seguintes, a banda passou a circular entre Foz do Iguaçu, Cascavel, Toledo, Puerto Iguazú e Ciudad del Este, consolidando uma rede de apresentações e fãs. Hoje, o grupo atua como um quinteto formado por Samuel Jahimi na voz e guitarra base, David nos teclados e backing vocal, Ana Paula no backing vocal, Polenta na bateria e Guilherme no baixo. Os integrantes vivem em diferentes regiões de Foz do Iguaçu, principalmente entre a zona norte e a região da Vila A.

Espaços de colaboração

Durante o processo de consolidação da banda, a cena alternativa da fronteira foi essencial para fortalecer artistas independentes e criar espaços de circulação cultural. Samuel recorda especialmente o impacto dos primeiros eventos ligados à Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), principalmente organizados por estudantes de geografia.

“Quando a primeira galera da Unila chegou, eles faziam muitas festas muito bem-organizadas”, relata.

Esses eventos universitários ajudaram a abrir espaço para bandas independentes e artistas alternativos da cidade, embora muitos desses encontros tenham perdido força com a saída e formação dos estudantes.

Apesar da circulação regional, Samuel afirma que manter um projeto autoral independente na fronteira ainda envolve dificuldades constantes. Segundo ele, a ausência de apoio institucional é um dos principais obstáculos enfrentados pela cena reggae local.

“Estamos dia após dia lutando. Tanto que os movimentos de festa somos nós que estamos fazendo, sem apoio de ninguém”, diz o vocalista.

Nos últimos anos, as festas organizadas em chácaras e espaços alternativos passaram a ocupar um papel importante. Esse movimento ganhou força principalmente entre 2023 e 2024, consolidando novos espaços independentes para apresentações.

Em publicações de eventos realizados em 2026, os encontros são descritos como festas reggae em ambientes naturais, com piscina, área arborizada e apresentações de bandas da região. Além da Conexão Fronteira Raiz, também participaram artistas como Bob Kurupi, Big Santa e Gonzalez.

Mais a fundo, Samuel acredita que parte das dificuldades encontradas pela banda está relacionada à origem negra do reggae roots e ao preconceito ainda existente contra determinados estilos musicais.

“Por ser reggae raiz, um som marginalizado, e por sermos afrodescendentes, existem muitas barreiras e preconceito”, afirma.

O músico também critica a ausência de reconhecimento institucional.

“Os editais da cidade sabem que nós existimos, mas parecem fingir que não veem.”

Músicas autorais

Além dos shows, a banda começou a investir em gravações de estúdio e produção audiovisual. Em 2022, lançou uma releitura da música Falar a Verdade, da banda Cidade Negra. Em material de divulgação, os próprios integrantes definem a versão como uma interpretação “cheia de alma”, mantendo a essência da música original com um toque próprio da Conexão Fronteira Raiz.

Além desse lançamento, o grupo também gravou versões de músicas de Bob Marley, como Positive Vibration, e lançou suas primeiras composições autorais: Jah Fará por Nós e Guerreira Rasta.

Para Samuel, as músicas carregam mensagens diretamente ligadas à resistência cultural e à consciência social.

“Nossas músicas são protestos e falam sobre justiça, paz, amor e liberdade para o uso da erva sagrada ganja”, relata.

Em fevereiro de 2026, a banda lançou o primeiro videoclipe da carreira, da música Rude Boy Style, considerado um dos projetos mais importantes da trajetória do grupo até agora. Gravado de forma independente em parceria com Davi Produções, o audiovisual foi produzido utilizando apenas uma câmera e tendo como cenário o Jardim Jupira.

O clipe incorpora referências da cultura rastafári, da estética rudeboy e da relação entre reggae, juventude periférica e cultura de rua.

“Eu falei sobre o skate e a periferia de Foz”, explica Samuel.

Para a reportagem, o líder da Conexão Fronteira Raiz conta acreditar que ainda faltam grupos ligados especificamente ao reggae roots na fronteira. Nesse sentido, a relação com bandas de outros gêneros musicais ganha importância, principalmente em trabalhos que utilizam referências do reggae como influência estética e sonora.

É o caso de grupos locais que transitam entre reggae, ska, rap e rock.

Um dos exemplos é a banda Doug Daruma, grupo iguaçuense de ska/reggae, que lançou em 2025 o disco Debaixo do Sol de forma independente por meio do SoundCloud. O grupo gravou e lançou o trabalho de maneira totalmente independente, enquanto o single que dá nome ao disco também circulou em rádios locais.

Outra banda com músicas autorais é a Caiçara, grupo que mistura reggae, rock e rap e lançou o EP Vinte Vinte, inspirado nas transformações provocadas pelo ano de 2020 e pela pandemia de covid-19. As músicas unem diferentes influências musicais em composições voltadas tanto para shows quanto para momentos cotidianos. Na faixa Reggae Novo, a referência ao estilo rastafári aparece tanto no ritmo quanto na letra.

Entre videoclipes produzidos de forma independente, circulação regional, festas em chácaras, cultura sound system e referências clássicas do reggae jamaicano, a cena reggae fronteiriça segue construindo-se. Seja em bares alternativos ou bairros periféricos, artistas transformam resistência cultural em eventos musicais e espaços de convivência coletiva.

Depois de meses acompanhando artistas, estúdios improvisados, batalhas, bandas independentes, movimentos culturais e cenas musicais, esta será minha última coluna desta temporada no H2FOZ. Encerro esse ciclo lembrando que essa série de matérias começou em Além do turismo: 6 videoclipes revelam a produção musical em Foz do Iguaçu. Agradeço a todos que acompanharam esse trabalho e reforço o convite para que continuem olhando para os artistas da nossa região.

O H2FOZ segue acompanhando e mapeando a cena reggae, dub, ska e música independente produzida em Foz do Iguaçu e na região das Três Fronteiras. Bandas, músicos, sound systems, produtores culturais, videoclipes, festivais, festas alternativas e projetos autorais podem ser indicados para futuras reportagens, perfis e conteúdos nas redes sociais do portal (@h2foz).

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e fique por dentro do que realmente importa.


    [cf7sr-recaptcha]

    Você lê o H2 diariamente?
    A partir de R$5,00 por mês. Cancele quando quiser.
    Lufe Sahn

    Lufe Sahn

    Lufe Sahn é jornalista em Foz do Iguaçu, colabora com o H2FOZ na editoria de cultura e arte das Três Fronteiras.

    Deixe um comentário