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Geeks e otakus

Geek Falls mostra força de uma cena construída por fãs na fronteira

Entre animes, cosplay, RPG, games e k-pop, eventos ajudam a manter uma comunidade geek que cresce na fronteira há pelo menos duas décadas.

9 min de leitura
Geek Falls mostra força de uma cena construída por fãs na fronteira

Quem visitou o Geek Falls no último fim de semana, dias 6 e 7 de junho, encontrou concursos de cosplay, apresentações de k-pop, mesas de RPG, videogames, gastronomia temática e centenas de pessoas compartilhando interesses em comum. Mas a história da cultura geek em Foz do Iguaçu começou muito antes dos grandes eventos realizados atualmente.

Os encontros, realizados no Centro de Convivência do Idoso (CCI), reuniram aproximadamente duas mil pessoas, incluindo fãs de animes, quadrinhos, games, colecionismo, rock, k-pop e cultura pop. Segundo a organização, a edição de 2026 arrecadou mais de 300 quilos de alimentos por meio da modalidade de ingresso social. Entre as atrações esteve a fala da atriz Feh Dubs, amplamente conhecida pelas dublagens de personagens de produções animadas e jogos de sucesso.

O crescimento do Geek Falls ajuda a demonstrar a força de uma comunidade que, ao longo dos anos, encontrou diferentes formas de organizar-se na fronteira. Seja por meio dos jogos de interpretação, dos quadrinhos, do cinema, do cosplay ou, mais recentemente, dos fãs de k-pop, gerações de admiradores passaram a ocupar espaços próprios.

Uma comunidade que buscava espaço

Quando Melissa Rodrigues começou a interessar-se por cosplay, ainda criança, acreditava que não existiam eventos voltados para esse universo em Foz do Iguaçu. O desejo de interpretar personagens de anime parecia distante da realidade da cidade.

“Meu sonho sempre foi fazer cosplay, mas eu achava que não existiam eventos em Foz do Iguaçu”, conta.

Durante o fim de semana, ela participou do Geek Falls caracterizada como Daki, uma das vilãs do anime Demon Slayer, e conquistou o terceiro lugar na categoria Cosplay Geral. Conforme Melissa, os eventos foram fundamentais para transformar uma paixão individual em uma experiência coletiva.

“Foi ali que eu vi minha oportunidade de inserir minha paixão pela arte. Eu entrei nessa comunidade e nunca mais consegui sair.”

Turika de Rengoku Kyoujurou e Meri de Daki e Carlos Eduardo de Rengoku Kyoujurou, todos do anime Demons Slayer.
Foto: Lucas da Silva

A jovem afirma que grande parte de sua rotina hoje está ligada ao universo cosplay, seja produzindo figurinos, participando de eventos ou convivendo com amigos que compartilham do mesmo interesse.

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“Nossa arte é uma arte viva. Não tenham medo de julgamentos. É maravilhoso demonstrar sua paixão por um personagem.”

A fala ajuda a explicar um sentimento recorrente entre os participantes: durante anos existiu uma demanda por espaços onde fãs de anime, games, quadrinhos e cultura pop pudessem encontrar-se na cidade.

Esther em cosplay de Konan da Akatsuki de Naruto Shippuden.
Foto: Lucas da Silva

Antes do Geek Falls

Embora o Geek Falls seja atualmente o principal evento do segmento na Tríplice Fronteira, a organização da comunidade geek local é mais antiga.

Em 2006, o ilustrador e publicitário Yuri Amaral participou da criação do AnimeFoz, encontro que reuniu cerca de 250 pessoas no Boulevard. Cinco anos depois, durante a divulgação da sétima edição do evento, a expectativa era de reunir entre 700 e mil participantes.

Na época, Yuri defendia que o AnimeFoz deixasse de ser apenas um encontro voltado para animes e mangás para tornar-se um espaço mais amplo de cultura e entretenimento.

“A gente queria criar um evento para jovens”, afirmou em entrevista concedida em 2011.

Na mesma conversa, o organizador destacava que o evento já incorporava oficinas, quadrinhos, internet, literatura, cinema e outras formas de produção criativa. O objetivo era criar um espaço no qual as pessoas pudessem encontrar-se, trocar experiências, aprender e ensinar.

Cartão de divulgação do AnimeFoz edição em 2008.
Foto: redes sociais

A proposta ajuda a entender um fenômeno que continua presente nos eventos atuais: a cultura geek da fronteira nunca esteve restrita somente aos desenhos japoneses. Ao longo dos anos, ela passou a reunir diferentes interesses e tribos em torno de um mesmo espaço de convivência.

Frequentadores do Geek Falls também se lembram de outros eventos recentes, como o Henshin Geek Fest, citado como uma das portas de entrada para a comunidade local. Criado em 2024, o evento contou com divulgação conjunta a partir de um concurso de cosplay da Virada Nerd e Dia do Quadrinho Grátis.

Uma iniciativa de destaque da celebração foi a criação da mascote oficial do Henshin. Inspirado no lobo-guará, espécie-símbolo da fauna brasileira presente no Paraná, o personagem combina elementos da cultura regional com referências aos heróis dos tokusatsus e animes japoneses.

Desenvolvida pelo artista iguaçuense JP Santos, a mascote foi apresentada como uma forma de valorizar a produção artística local e reforçar a conexão entre a cultura geek e a identidade da região. A iniciativa demonstra como os eventos da cidade deixaram de apenas consumir referências da cultura pop, ainda que mantenham viva a nostalgia de clássicos como campeonatos de Jokenpô, Street Fighter V, Mario Kart e Mortal Kombat.

Mascote oficial do Henshin Geek Festival inspirado no lobo-guará

O crescimento do Geek Falls

Segundo a organizadora Cristhiana Rendeiro, o Geek Falls surgiu em 2022 de maneira bastante modesta. Além do evento, ela também administra uma loja voltada ao público geek. A ideia inicial era criar um pequeno encontro de cosplay para divulgar a nova fase do empreendimento. A expectativa era de reunir cerca de 60 pessoas.

“No primeiro evento, tivemos cerca de 350 pessoas. A comunidade sentia necessidade de ter algo novo acontecendo na cidade”, relembra a organizadora.

A partir daquele momento, novas atividades passaram a ser organizadas. Vieram festas temáticas, encontros voltados ao público geek e novas edições do próprio Geek Falls, que cresceu gradualmente.

Em 2025, uma edição realizada no Mercado Público Barrageiro reuniu mais de sete mil visitantes ao longo de um único dia. Na ocasião, a presença do dublador Wendel Bezerra, conhecido por dar voz a personagens como Goku, Bob Esponja e Jackie Chan, atraiu fãs de diferentes idades.

Foto compartilhada pelos organizadores Mauricio e Cristhiana Mafra no fim do Falls Geek de 2025.
Foto: redes sociais

Para Cristhiana, a proposta continua sendo ampliar as possibilidades de entretenimento oferecidas ao público. As programações também incluem concursos de cosplay, apresentações de k-pop, fliperamas, mesas de RPG e uma feira voltada ao público geek.

“A gente procura trazer cada vez mais atrações e diversificar a programação”, realça.

A arte que encontra público

Os eventos também funcionam como espaço para artistas e pequenos empreendedores ligados à economia criativa, como é o caso do artesão Renan, de 29 anos, que participa do Geek Falls desde as primeiras edições.

Trabalhando com biscuit desde 2019, ele lembra com precisão a sensação que teve ao participar do evento pela primeira vez.

“Eu vendi R$ 125 e fui embora realizado. Pensei: meu Deus, vendi mais do que o meu salário daquele dia.”

O valor pode parecer modesto, mas representou a confirmação de que sua produção artística poderia encontrar público. Hoje, ele observa que o evento ultrapassou os limites da cidade. Durante a edição deste ano, percebeu a presença de visitantes vindos de toda a região, além de participantes da Argentina e do Paraguai.

“Antes já era grande. Agora está se tornando um evento regional”, relata.

Leonardo e Jhonatan Ramos cosplayers de Demon Slayer.
Foto: Lucas da Silva

O cosplayer Jean, morador de Cascavel, participou do evento caracterizado como Leon, personagem da série de jogos Resident Evil. Essa foi sua terceira visita a Foz do Iguaçu. Segundo ele, o principal diferencial da cidade está na recepção oferecida pela própria comunidade.

“A comunidade cosplay e geek daqui de Foz é muito acolhedora”, ressalta. “Sempre percebemos que o pessoal está de braços abertos para receber quem vem de fora.”

Jean Carlos dos Santos em cosplay de Leon dos jogos Resident Evil.
Foto: Lucas da Silva

Para Jean, essa receptividade ajuda a explicar por que muitos participantes retornam ao evento ano após ano.

“É por isso que vocês vão me ver aqui mais vezes.”

Histórias como as de Melissa, Renan e Jean ajudam a mostrar que a cena geek de Foz do Iguaçu vai além dos eventos realizados durante o ano. Ao longo de quase duas décadas, diferentes gerações de fãs criaram espaços para compartilhar interesses, produzir arte, desenvolver amizades e fortalecer uma comunidade que continua atraindo participantes de toda a região da Tríplice Fronteira.

O Geek Falls é o capítulo mais recente dessa história, que continua sendo escrita por novas gerações de fãs.

Eliane em cosplay de Reze do anime e mangá Chainsaw Man.
Foto: Lucas da Silva

Confira os vencedores dos concursos do Geek Falls 2026

Cosplay Kids

Primeiro lugar: Roger (Gaara)
Segundo lugar: Alice (Frieren)
Terceiro lugar: Tyler (Orochimaru)

Cospobre

Primeiro lugar: Cadu (Nêmesis)
Segundo lugar: Manu (Shijima Mei)
Terceiro lugar: Meuita (Pou Emo)

Cosplay Geral

Primeiro lugar: Gabrielle (Frieren)
Segundo lugar: Kitty (Soraka)
Terceiro lugar: Meri (Daki)

K-Pop Solo

Primeiro lugar: Alejandro
Segundo lugar: Juan
Terceiro lugar: Helena

K-Pop Grupo

Primeiro lugar: Velvet Movie

Julia em cosplay de Varela do Genshin Impact.
Foto: Lucas da Silva

O H2FOZ segue acompanhando e mapeando iniciativas ligadas à cultura geek, cosplay, quadrinhos, games, RPG, k-pop e cultura pop em Foz do Iguaçu e na região de fronteira. Eventos, artistas, empresas, coletivos e projetos podem ser indicados para futuras reportagens e conteúdos nas redes sociais do portal (@h2foz).

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    Lufe Sahn

    Lufe Sahn

    Lufe Sahn é jornalista em Foz do Iguaçu, colabora com o H2FOZ na editoria de cultura e arte das Três Fronteiras.

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