Entre singles independentes, videoclipes autorais e apresentações em eventos e casas da região, artistas mulheres vêm ampliando a presença na música das Três Fronteiras. Em Foz do Iguaçu, a produção feminina atravessa gêneros, do rock ao sertanejo, e encontra nas plataformas digitais e nos circuitos locais caminhos para consolidar público e identidade própria.
As cantoras de Foz do Iguaçu ocupam hoje espaços diversos da cena cultural, conectando o território trinacional a circuitos nacionais e internacionais.
Mizuho Lin: do metal iguaçuense ao cenário internacional
A vocalista Mizuho Lin é um dos nomes mais marcantes do metal brasileiro contemporâneo e representa a diáspora de Foz do Iguaçu. Construiu sua trajetória a partir da cena independente do sul do país, mudando-se da cidade aos 16 anos e conquistando reconhecimento internacional.
À frente da Semblant desde 2010, Mizuho ajudou a consolidar o grupo como um dos principais expoentes do metal sinfônico e moderno brasileiro no exterior. Sua performance combina potência vocal e interpretação dramática, características que se tornaram assinatura da banda em turnês pela América Latina e Europa.
Entre os trabalhos de destaque do Semblant estão faixas como “What Lies Ahead”, “Dark of the Day”, “Incinerate” e “Mere Shadow”, que evidenciam a mistura de metal melódico, elementos eletrônicos e arranjos sinfônicos presentes na discografia do grupo. Os álbuns Lunar Manifesto(2014), Obscura(2020) e Vermilion Eclipse(2022) solidificaram a projeção internacional da banda e a presença da iguaçuense em festivais de metal ao redor do mundo.
Janvi e a consolidação da música independente
Uma das trajetórias independentes recentes mais consistentes é a da cantora Janvi, que desde 2020 mantém ritmo contínuo de lançamentos e colaborações.
A estreia no Spotify veio com “Sonic humano”, em julho daquele ano, seguida por uma sequência de singles em 2021, como “Selva onírica”, “Estação lunar” e “Sem plano de saúde”.
O ano de 2025 marcou uma virada na carreira. Após participações em lançamentos de outros artistas, Janvi liberou o primeiro EP, A Fonte, parceria com o produtor Sujoground reunindo quatro faixas. Em julho do mesmo ano chegou o primeiro álbum, VEMSER, com nove músicas.
E a produção não parou, no mesmo período lançou novos singles e um EP ao vivo. A faixa avulsa trabalhada foi “Ruptura”, com o produtor Lhnosbeats, lançada em agosto e com clipe liberado em 19 de outubro. Oito dias depois veio “Janvi(Feat Saci)[Live session]”, com versões de “Vida Além da Morte”, “Suas Reações”, “Confissões de Abandono”, “Sem Aviso Prévio” e “Narrativas de uma Malaka”.
Em 2026 a primeira aposta da cantora veio em uma parceria com o beatmaker REALNEGO, “Pensamento Próspero” foi lançada em 21 de fevereiro. A cantora rima sobre “uma pausa no tempo material” e a “responsabilidade com o que podemos dividir”, uma letra profunda a respeito de abertura de caminhos, racismo e autoamor.
Valéria Ferreira e o sertanejo nas noites de Foz do Iguaçu
A cantora Valéria Ferreira construiu carreira nas apresentações noturnas de Foz do Iguaçu com um repertório que dialoga com o modão e o sertanejo contemporâneo. Em 2024, ganhou projeção ao vencer a etapa local do concurso Caça Talentos promovido pela Agroplay, competindo com centenas de artistas de todo o país. No mesmo período, intensificou sua produção autoral e lançou os singles “Coração Surdo”, “Mísero Remédio”, “Singular” e “Rainha do Boteco”.
Entre seus projetos, lançou ao lado do iguaçuense Gabriel Smaniotto, ex-participante do Estrelas da Casa, o pot-pourri “Adoro Amar Você/Deserto”. A apresentação faz parte do EP “Deu Liga Vol. 1”, disponibilizado na transição de 2025 para 2026, que traz releituras de clássicos do sertanejo e participações de Brenno & Gustavo, Fabian Carvalho e Flávio Rocha.
A colaboração com a dupla Priscila & Patrícia em “Coração Bandido/O Amor e o Poder” se destaca. Naturais de Minas Gerais e radicadas em São Paulo, as artistas reforçam no projeto a diversidade regional do feminejo.
Além das canções citadas, também foram interpretadas “Enquanto o sol brilhar”, Matogrosso & Mathias, “Apenas um Sorriso/Semente do Amor”, a primeiro na versão de Bruno e Marrone e a segunda composta por Alcino Alves Sampaio e Rossi, e “Paguei Pra Ver/Agora Vai”, de Zezé Di Camargo & Luciano e composta por Bruno e Felipe respectivamente.
Susan Thaili e a força dos palcos regionais
Outra presença recorrente na cena regional é Susan Thaili, que mantém trajetória ligada tanto à produção autoral quanto às apresentações ao vivo e covers de grandes sucessos nas redes sociais. Registros de composições próprias datam de 2015, “A vida e o tempo” é composição não gravada em estúdio até a publicação desta matéria. Ainda que, segundo a própria, fãs continuem pedindo por isso desde a publicação do vídeo no Youtube.
A cantora seguiu desde então participando de eventos e shows na região e muito focada em apresentações ao vivo e integrada à sociedade iguaçuense. Em gravação de estúdio, participou do single e clipe “Amor Pela Metade”, do também iguaçuense Douglas Rodrigo, liberado em setembro de 2021 com patrocínio da Cell Shop Importados Paraguai.
Em outubro de 2025, um patamar memorável foi atingido quando ela integrou a programação musical do Rodeio Show de Santa Terezinha de Itaipu. Dividiu o palco com artistas locais e nacionais em uma arena que reuniu grande público, sendo a abertura do cantor Luan Pereira e da dupla Hugo e Guilherme.
Logo em seguida, também participou da gravação do DVD “Tardezinha Sertaneja”, projeto registrado em Santa Terezinha de Itaipu e marcado pela gravação de sua primeira música autoral em formato audiovisual, “Solteira por Enquanto”.
A agenda da mesma no carnaval de 2026 demonstra a presença da cantora na cena fronteiriça, a turnê chamada de “Bloco Sem Compromisso” foi uma série de shows em Foz do Iguaçu que intercalou-se entre a Folk’s Publ, Looby, Rafain Palace Hotel, Vivaz Cataratas Hotel, Capitão, SO Louge e formaturas. Apresentações também foram feitas na região, como no municipio de Santa Helena(PR).
Késya Lavínia e o “transnejo” em Foz do Iguaçu
Késya Lavínia Teixeira Bredes, conhecida artisticamente como Késya Lavínia, é cantora, compositora e ativista das causas LGBTQIAPN+. Travesti e residente em Foz do Iguaçu, a artista desenvolve um trabalho autoral que dialoga com o sertanejo e a música popular, incorporando vivências pessoais e temas ligados a relações afetivas, identidade e experiências da população trans.
Em 2024, apresentou ao público uma série de músicas em formato voz e violão, disponibilizadas em seu canal no YouTube. Entre elas estão “Sem Volta”, “A Culpa é da Cachaça”, “Vítima”, “Sigilo” e “Você Já Sabia”, composições que abordam desilusões amorosas, vulnerabilidade emocional. É o que a própria chama de “transnejo”, adaptação que lembra o termo gaynejo, ou pocnejo, cunhado em 2019 pelo cantor Gabeu, filho do cantor Solimões, da dupla com Rio Negro.
A artista já se apresentou nas Paradas do Orgulho LGBTI+ de Foz do Iguaçu e de Puerto Iguazú e levou o show “TransNejo” ao projeto Café com Teatro, realizado no Teatro Barracão. Nesse momentos a artista reforça a importância de espaços culturais plurais na região e, além de se apresentar em bares da cidade, também produz covers de ídolos que admira, como Marília Mendonça e Yasmin Santos.
Silvia Ker e a música gospel iguaçuense
A cantora gospel Silvia Ker é natural de Foz do Iguaçu e desenvolve carreira na música cristã desde 2009. Atualmente radicada em Curitiba (PR), atua como intérprete, compositora e ministra de louvor. Entre seus projetos estão os álbuns Além do Coração (2013), E a Fonte Teve Sede (2018) e Sem Palavras (2020).
O CD e DVD Sem Palavras com participações de nomes conhecidos do gospel nacional, como Mattos Nascimento, Waguinho e Léa Mendonça. Entre as canções de destaque de seu repertório estão “Move os Céus”, “Meu Deus É Grande” e “Floresça em Mim”, além de composições em parceria com artistas do segmento cristão, como Ghustavo Ribeiro, Kesia Mara e Geovana Knof.
Reforçando sua identidade iguaçuense, alguns de seus clipes tem cenas que foram gravados no Quinta das Marias, Marco das Três fronteiras e Hotel Bourbon. São eles “Eu Adoro”, “Deus sabe quem é você!”, “Sombra do Altíssimo” e “Sem Palavras”.
Sofia Goulart e a identidade musical das Três Fronteiras
A cantora Sofia Goulart desenvolve sua trajetória em Foz do Iguaçu destacando-se por interpretações de folclore sulista, tango e ritmos da fronteira. Mantém presença frequente em eventos culturais importantes, como o aniversário dos 87 anos do Parque Nacional do Iguaçu e Páscoa na Itaipu, e apresentações ligadas à identidade musical das Três Fronteiras e cultura gaúcha.
No álbum Iguassu, lançado em 21 de abril de 2020, parceria com o instrumentista Tiago Rossato, a cantora registra interpretações de clássicos regionais e latino-americanos e músicas autorais, como “Taragui”. Algumas das versões são “Manhã de Carnaval”, lançada em 1959 por Luiz Bonfá e Antônio Maria, e “Sofia de Iguassu”, versão de “Canción del Iguazú” uma galopa de 1964 lançada em homenagem de Ramon Ayala às Cataratas do Iguaçu.
Antes do disco com Sofia, Tiago já havia lançado o álbum “Arandu”. Com carreira de instrumentista consolidada no Brasil e no exterior, ele a acompanha também em covers inovadores como “Paloma Branca” em Guarani. Outro exemplo é o audiovisual de “Mano a Mano” lançado pelo casal, um tango composto em 1920 por Celedonio Flores e gravado em 1923 por Gardel e José Razzano.
Manu Cândido: MPB, samba e formação cultural
Manu Cândido integra a cena musical de Foz do Iguaçu desde 2019, quando passou a morar na cidade. Natural de Congonhas (MG), a cantora e compositora acumula 22 anos de trajetória artística, com apresentações na região e em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Mantém presença em temas ligadas a estilos de vida e já produziu campanhas para marcas renomadas como Pantene, Omo e L’Oréal.
Em 25 de março de 2022, lançou nas plataformas digitais o EP “Sou Infinito”, projeto com quatro composições autorais e uma regravação de Luiz Caldas, importante artista do axé music. Com o samba como base, o trabalho dialoga com outras sonoridades e foi viabilizado por meio de financiamento coletivo on-line, incluindo músicos da Bahia como os integrantes da Banda Eva.
Com passagem acadêmica nas Artes Visuais pela Uninter/PR e na Música da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Manu também atuou na formação cultural na cidade. A cantora foi professora de Musicalidade e Artes no Projeto Coração, na comunidade Bubas, a maior ocupação urbana do Paraná.
Posteriormente, lançou o EP “Ciclo”, com seis faixas autorais produzidas com apoio do Fundo Municipal de Cultura de Foz do Iguaçu e participação de músicos nascidos ou residentes da cidade. Entre as canções que se destacam estão “Zói que Brilha”, “Ciclo”, faixa que homenageia a Unila, e “Sabiá(Zorzal)”, onde tem presente a mistura do português e espanhol das Três Fronteiras. Segundo a artista, as composições partem de experiências pessoais, mas dialogam com sentimentos e vivências coletivas.
Amanda Tols e a estratégia digital
A presença digital é estratégia central para muitas cantoras de Foz do Iguaçu em início de carreira, e Amanda Tols se destaca nesse cenário. Estreou no YouTube em 2021 com o clipe “Cheiro”, composição própria que ganhou videoclipe com produção formada por profissionais de Foz do Iguaçu e de outros polos criativos.
A canção também recebeu uma versão remix lançada no mês seguinte, acompanhada de videoclipe com imagens gravadas em Foz e São Paulo, evidenciando o caráter colaborativo e experimental do projeto. A ousadia do trabalho indica um bom caminho possível para a cena eletrônica iguaçuense.
Manteve presença na cena gravando versões de clássicos no Instagram, dentre os covers estão “Não Ama Nada”, de Jade Baraldo, “Make Me Wanna Die” da banda The Pretty Reckless, “Moça”, de Mariana Froes, e “I’m With You”, de Avril Lavigne.
Em 2024, a artista apresentou o single “Não Vem”, trabalho com temática ligada à autonomia feminina e responsabilidade afetiva. Os produtores foram Gustavo Arruda e Rodrigo Cunha, que também fez a bateria, além de Custella nas guitarras. O clipe foi liberado em 6 de dezembro do mesmo ano e contém um forte desabafo sobre a composição e o trabalho de transformar dor em arte.
Linda Linn e a música urbana de Foz do Iguaçu
Entre os nomes mais recentes da cena local está Linda Linn. Cria do bairro Porto Meira, iniciou sua trajetória independente com o single “Manifesto”. A faixa tem influências da música urbana, combinadas a um discurso direto e crítico, composto pela própria, que dialoga com questões sociais e ambientais.
O lançamento se deu em meio ao debate nacional sobre mudanças nas regras de licenciamento ambiental e foi impulsionado por posicionamentos públicos da artista em defesa de territórios indígenas e áreas protegidas. A produção das batidas é do rapper e produtor Big Santa.
O videoclipe foi realizado pela Granja Films, com direção de imagem assinada pela própria artista, e a arte de capa foi desenvolvida pela Pedraos Library. As cenas são gravadas em diversos lugares com gravações durante viagens da artista e o audiovisual foi liberado em 8 de agosto de 2025. São citados conflitos internacionais de Israel e Irã, incêndios na Amazônia e as enchentes do Rio Grande do Sul.
Além do trabalho autoral, Linda Linn também mantém presença nas redes com releituras e covers. Em uma dessas interpretações prestou homenagem, junto com o companheiro, à perda de Tulio Gabriel, o artista Tutu, de quem era muito próxima. A faixa selecionada foi “Anjos de Asas Negras”, de Fabio Brazza com participação de Negra Li.
O H2FOZ segue acompanhando e mapeando a atuação de artistas mulheres na música de Foz do Iguaçu e da região trinacional. Cantoras e projetos nacionais e internacionais podem ser indicados para futuras matérias e listas nas redes sociais do portal (@h2foz).


