“Eu tenho um sonho, eu quero fazer muitas coisas, mas não posso realizar esse sonho aqui.” O sentimento do ajudante de pedreiro Facundo Ramon Álvarez, 32 anos, resume o que vive o povo argentino hoje.
Morador de Puerto Iguazú, Facundo é um jovem cheio de sonhos que conhece bem o Brasil. Já viajou pelo país de bicicleta, passou temporadas trabalhando em praias e fez um dinheirinho por aqui.
Voltou à Argentina para cuidar dos pais e de lá não saiu mais. Hoje, lamenta a situação no país que está sob o comando de Javier Milei, onde a taxa de desemprego subiu 0,3 ponto percentual no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, atingindo 7,9% da população economicamente ativa, conforme dados do INDEC: Instituto Nacional de Estadística y Censos de la República Argentina.
Facundo conta que só está na Argentina para ficar próximo dos pais. Ele planeja ir para Caxias do Sul (RS), onde o primo e a irmã estão, para trabalhar. Lá, eles ganham cerca de R$ 150 ao dia.
“Para mim é um sonho. Lá, a maioria é tudo argentino. Aqui, o que te paga não te alcança. Aqui, não posso comprar uma moto, carro e nem roupa. Não posso imaginar quem tem filhos aqui”, afirma.
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O jovem diz que uma das melhores épocas da Argentina foi entre 2013 e 2015, quando o governo ajudava os mais necessitados e havia dinheiro e movimento de turistas.
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O que sobra, é a vida de autônomo
O vendedor ambulante Júlio Cesár Santacruz, 50 anos, relata um drama parecido. Segundo ele, hoje, o que sobra de emprego na Argentina é para quem quer encarar a vida de autônomo. Serviços existem, diz, para pintor, eletricista, jardineiro, contudo não há cursos para qualificar a mão de obra. E quem tem diploma não encontra trabalho.
“Gostaria de ganhar um pouco mais, porém tem que ter alguém que me dê oportunidade.” Para ganhar a vida, Santacruz pega todos os dias um ônibus e viaja 70 quilômetros para vender salgados em Puerto Iguazú, cidade que ainda respira um pouco por receber turistas.

Antes, o destino era outro. Ele vivia em Buenos Aires, mas teve de deixar a capital porque a concorrência nas ruas acabou expulsando-o da função.
O segurança Roberto Dias informa que, em Puerto Iguazú, quem não consegue colocação para trabalhar no setor de turismo precisa deixar a cidade. Ele revela que as pessoas pobres são as que mais sofrem e muitas delas pedem esmolas nas ruas, o que não era comum.
O Brasil tem sido destino para muitos argentinos. Não só para compras, como também para trabalhar. Empregos temporários em praias e em colheitas de maçã e uva em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul passaram a ser opções de renda.

Alguns argentinos tentam outra via e se instalam no Brasil para empreender, trazendo o melhor que sabem para agradar ao paladar brasileiro, a exemplo das empanadas e alfajores.
Quando não trabalham, os argentinos fazem compras no Brasil. O supermercado é mais em conta, e eles passaram a trocar a farinha de trigo de qualidade pela brasileira, por ser mais barata.
Empreendedorismo de sobrevivência
Entre novembro de 2023 e junho de 2024, houve uma redução de 245,6 mil empregos privados registrados, uma queda de 3,9% do total, segundo levantamento do Centro de Economia Política Argentina (CEPA), publicado pela Agência Brasil.
Enquanto cai o número de empregos com registro em carteira, aumenta o de autônomos, de acordo com relatório do CEPA. O documento sinaliza que o trabalho autônomo/independente chegou à marca de 169 mil, ou seja, cresceu 8,3%, entre novembro de 2023 e junho de 2024.
Professor do curso de Relações Internacionais e Integração da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Félix Pablo Friggeri acredita que os índices do desemprego no país possam estar subestimados.
O Movimento de Trabalhadores Excluídos da Argentina estima que o desemprego atinja hoje pelo menos 25% da população, assemelhando-se à época do governo Carlos Menem, no final de década de 1990. “Em vez de buscar empregos, as pessoas buscam construir um empreendimento para sobreviver. É o empreendedorismo de sobrevivência.”
Para o professor, a Argentina entrou em recessão, condição na qual se soma a inflação. No governo Cristina Kirchner também havia inflação, contudo existia movimento na economia, ao contrário de agora, quando está difícil o país sair do endividamento. “A única solução é endividar-se para comer’.
Já o Brasil, explica Frigerri, tem uma inflação menor e uma capacidade maior para sair do endividamento. Para ele, o cenário começa a favorecer a volta do peronismo que já mostra sinais de união para concorrer as eleições de 2028.
Estados Unidos e a exploração de recursos naturais
Para a professora Paula Daniela Fernandez, que também é do curso de Relações Internacionais e Integração, a política de Javier Milei gerou impacto na economia e no emprego desde a posse dele. “O desemprego não tem chegado a dois dígitos porque boa parte do emprego formal virou emprego informal”, frisa.
Ela também considera que o argentino hoje está vivendo do “pluriemprego”, atuando com trabalhos em aplicativos. Professores hoje dão aula e atuam como motoristas para fechar as contas no final do mês.
Paula chama atenção para o fechamento de empresas no país, o que tem contribuído para a queda dos empregos formais. A redução se deve à impossibilidade de as empresas competirem com as importações, em alta após a abertura econômica do governo.
Em desvantagem no país, algumas delas, com muito capital, passaram a migrar para atividades que envolvem a extração de recursos naturais — petróleo, fracking, mineração e agronegócio. Um dos alvos do fracking é a região de Vaca Muerta, na Patagônia, onde se explora o xisto.
Tal movimento se alinha à política norte-americana capitaneada por Donald Trump. “Todo tecido industrial da Argentina vem sendo destruído com consequências sociais e ambientais. No cenário internacional, o governo Milei alinha-se aos Estados Unidos, que têm interesse nos recursos naturais”, salienta.

