Verme do coração aparece em cães de Foz, mas fica fora dos registros oficiais
Veterinários relatam casos, inclusive em cães que nunca saíram da cidade. Prefeitura não registra nenhum desde 2020 e admite que não faz vigilância específica da doença.

Zoe começou a tossir no fim de 2025. Em poucos segundos de atividade, o cão ficava ofegante e se deitava de lado, com a respiração acelerada. No primeiro atendimento, a radiografia apontou suspeita de traqueíte e de problema cardíaco congênito.
Só o ecocardiograma revelou a causa: um parasita alojado no coração. Zoe tinha dirofilariose, a “doença do verme do coração”. O diagnóstico foi feito em Foz do Iguaçu, mas não consta nos registros oficiais.
Veterinários de Foz relatam diagnósticos da doença com regularidade. Os sistemas da Prefeitura, no entanto, não registram nenhum caso desde janeiro de 2020.
A explicação para essa diferença está no fato de a doença não fazer parte da lista nacional de notificação compulsória. Assim, clínicas e hospitais particulares não precisam informar os diagnósticos ao município. E o município, por sua vez, não procura a doença de forma ativa.
Ouvida pelo H2FOZ, a médica-veterinária Amanda Furjan Rial (CRMV-PR 10066) confirma que o Hospital Veterinário Popvet, onde atua, já atendeu cães com a doença, ao menos um caso por ano desde 2020. “Não é um diagnóstico frequente na rotina e, quando encontramos, são casos em que a dirofilariose não é nossa principal suspeita”, afirma.
“Inclusive já identificamos casos em animais cujos tutores relataram que nunca saíram de Foz do Iguaçu”, conta Amanda. Para ela, isso levanta a possibilidade de exposição local. A veterinária, porém, evita conclusões apressadas: “Somente com o histórico, não é possível afirmar que há transmissão em nossa região”.
Prefeitura: zero registros
Procurada pelo H2FOZ, a Secretaria Municipal da Saúde respondeu por meio da Diretoria de Vigilância em Saúde, do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) e da Vigilância Epidemiológica. “Não há registros de casos de dirofilariose canina pelo CCZ e na Divisão de Vigilância Epidemiológica de Foz do Iguaçu no período de janeiro de 2020 até a presente data”, informa a nota. A reportagem pediu dados a partir de 2020.
A própria secretaria alerta para os limites desse dado. O município não testa cães de forma rotineira para a doença. Também não mantém protocolo específico de investigação nem banco de dados com casos suspeitos ou distribuição por bairro.
O monitoramento de mosquitos existe, mas mira principalmente as arboviroses, como a dengue. Entre os transmissores da dirofilariose está o Aedes aegypti, o mesmo mosquito da dengue, segundo a Boehringer Ingelheim. Até agora, porém, a vigilância municipal não identificou o parasita Dirofilaria immitis em mosquitos coletados na cidade.
“Não é tecnicamente adequado afirmar que a doença esteja ausente da população canina de Foz do Iguaçu exclusivamente com base nos registros municipais”, admite a Prefeitura na nota. O que se pode afirmar, de acordo com o órgão, “é que não existem casos registrados nos serviços municipais no período solicitado e não há vigilância municipal sistemática específica para esse agravo”.
Caso sem viagem pode indicar transmissão local
Conselheiro efetivo do CRMV-PRFoto: Divulgação
O médico-veterinário Marcelo Morato da Silva (CRMV-PR 09942), conselheiro efetivo do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Paraná (CRMV-PR), reforça o alerta. “Se o diagnóstico for confirmado em um cão que nasceu em Foz e nunca saiu do município, isso é um indício importante de transmissão local”, afirma. Ele explica que a dirofilariose não é exclusiva do litoral, como muitos imaginam. A transmissão depende da presença do parasita, de mosquitos capazes de transmiti-lo e de condições ambientais favoráveis. “É preciso investigar bem o histórico e confirmar o diagnóstico, mas um caso assim merece atenção da vigilância.”
Para Marcelo, a falta de notificação obrigatória ajuda a explicar o silêncio dos registros. “Pode contribuir para que a gente conheça só uma parte do problema”, avalia. Muitos casos ficam guardados apenas nas clínicas e nos laboratórios, sem que ninguém reúna essas informações. Além disso, o cão pode passar muito tempo infectado sem sinais evidentes. “Então temos duas dificuldades: casos que não são diagnosticados e casos diagnosticados que não entram em uma base compartilhada.”
Onde os casos se perdem antes de virar estatística
Pelo mesmo motivo, o CRMV-PR não tem dados exatos sobre a doença no estado. O conselheiro entende que o Oeste e Foz merecem atenção e investigação, mas separa o alerta do tamanho do problema. “Sem um levantamento, não dá para afirmar quantos animais estão infectados ou se existe aumento dos casos”, diz. “A falta de dados também não significa ausência da doença.”
“A falta de dados também não significa ausência da doença.”Marcelo Morato da Silva, conselheiro do CRMV-PR
Diagnóstico muitas vezes chega por acaso
No hospital, boa parte dos casos aparece de forma inesperada. Um dos exames mais usados na triagem é um teste rápido importado que detecta, ao mesmo tempo, quatro doenças: anaplasmose, erliquiose, doença de Lyme e dirofilariose. O kit vem pronto e não permite escolher apenas uma delas.
Assim, a equipe usa o teste para investigar a erliquiose ou a anaplasmose, doenças transmitidas por carrapatos e muito presentes na região. “O teste acaba positivando para dirofilariose, que não era nosso foco”, explica Amanda. “A partir disso, passamos a fazer a investigação para confirmar e estadiar o paciente.” O ecocardiograma, um ultrassom do coração, mostra se há vermes adultos e orienta o tratamento. Outra pista pode surgir no hemograma, quando a equipe encontra no sangue as microfilárias, o estágio inicial do parasita.
Doença silenciosa e confundida com outras
A dirofilariose é causada por um parasita que, segundo veterinários, pode chegar a 30 centímetros e se aloja no coração de cães. No início, a doença costuma não dar sinais. Quando os sintomas surgem, incluem tosse, cansaço e menor disposição para exercícios. Em casos graves, o cão pode ter dificuldade para respirar, desmaios e perda de peso. “Por isso, a ausência de sintomas não exclui a infecção”, alerta Amanda.
Para a veterinária, esse quadro ajuda a explicar a subnotificação. Foz convive com doenças de “prevalência assustadora”, como cinomose e leishmaniose, além de problemas respiratórios e cardíacos com sinais parecidos. Muitas vezes, o cão chega ao atendimento com várias doenças ao mesmo tempo, o que atrasa todos os diagnósticos. “Os pets que apresentam sintomas acabam apresentando outras doenças mais graves antes e, em virtude disso, acabam partindo antes de encontrarmos tudo que os acomete”, lamenta.
Zoe adoeceu meses depois de viagem ao litoral
Zoe tem 4 anos. No fim de 2025, meses depois de uma viagem da família a uma praia de Santa Catarina, a tutora Estefana Gomes Chung, auxiliar administrativa, notou que ela estava diferente.
Primeiro veio a tosse. “Tinha uma tosse profunda, como se estivesse tentando expelir algo, várias vezes seguidas”, conta Estefana. Segundo o prontuário, a cadela também chegou a regurgitar.
Depois, Zoe passou a ficar ofegante em poucos segundos de atividade e a se deitar de lado, com a respiração muito acelerada. Até comer incomodava. “Parecia que a ração machucava na hora de engolir.”
Em dezembro, Estefana levou Zoe ao veterinário. No primeiro atendimento, a dirofilariose nem apareceu entre as hipóteses. A radiografia do tórax mostrou inflamação nos pulmões e na traqueia e aumento do lado direito do coração. As suspeitas eram traqueíte e insuficiência cardíaca congênita.
Zoe foi então encaminhada para uma consulta com a médica-veterinária Naruna Kwan (CRMV-PR 19.721), que pediu um ecocardiograma. Uma veterinária cardiologista fez o exame, com o acompanhamento de Naruna. O ecocardiograma confirmou a dirofilariose, já em estágio avançado. “Foi possível ver o parasita no coração”, relata Naruna.
Com o diagnóstico confirmado, o tratamento começou logo, com antibiótico via oral por 28 dias. Estefana percebeu a diferença em poucos dias. “A medicação certa fez toda a diferença. Na primeira semana, ela já estava melhor.”
Zoe tinha passado pelo litoral, onde o risco é maior. Para Naruna, porém, o alerta não vale só para quem viaja. “Atualmente não devemos nos preocupar apenas com regiões litorâneas, mas também com a nossa própria região”, afirma. Segundo ela, os mosquitos que transmitem o parasita também existem em Foz.
Como proteção, a veterinária recomenda antiparasitários preventivos. Há opções em pipeta, com efeito de cerca de um mês, e injetáveis, que protegem o cão por um ano. O preço depende do peso do animal. Para Zoe, que pesa pouco mais de 20 quilos, a pipeta custa cerca de R$ 100 por mês, e a injeção anual, R$ 455, segundo a veterinária.
Tratamento depende do estágio e esbarra em falta de cirurgião
De acordo com Amanda, o Popvet não chegou a atender casos graves, com vermes adultos no coração. Depois da confirmação, a equipe define o estágio da infecção e inicia o tratamento. Nos casos mais leves, o tratamento usa medicação oral contínua, de custo considerado baixo. Ainda assim, o animal precisa de acompanhamento frequente, com exames de sangue e de imagem.
Os casos graves são mais difíceis de tratar. Segundo a farmacêutica Boehringer Ingelheim, que fabrica preventivos para a doença, o remédio usado em outros países para eliminar os vermes adultos, a melarsomina, não está disponível no Brasil. Sem ela, os veterinários recorrem a protocolos alternativos.
Dependendo do tamanho dos parasitas, é preciso removê-los por cirurgia. “Hoje na cidade não temos nenhum profissional que faça esse tipo de cirurgia”, afirma Amanda. “Por isso, o acompanhamento veterinário é essencial no diagnóstico e ao longo do tratamento.”
Cirurgia é último recurso e pode custar até R$ 20 mil
UENF, Campos dos Goytacazes (RJ)Foto: Divulgação
Para entender o procedimento, indisponível em Foz, o H2FOZ ouviu um cirurgião veterinário. “Apenas casos mais graves e com síndrome da veia cava levamos para a cirurgia”, afirma o professor André Lacerda, especialista em cirurgia de pequenos animais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), em Campos dos Goytacazes (RJ), com pós-doutorado em cirurgia cardíaca. Essa síndrome ocorre quando a quantidade de vermes é tão grande que eles migram para o coração e bloqueiam a passagem do sangue. Nessa fase, matar os parasitas com remédio seria ainda mais perigoso, porque a morte de muitos vermes de uma vez pode entupir os vasos e provocar uma embolia. “A cirurgia é uma emergência para salvar a vida do animal.”
Lacerda pontua que o método padrão e menos invasivo é a remoção transvenosa. Com o cão anestesiado, o cirurgião acessa a veia jugular por um corte no pescoço e leva uma pinça longa e flexível até o coração para retirar os vermes. A equipe acompanha tudo em tempo real, por ecocardiograma ou fluoroscopia. O animal passa cerca de duas horas no centro cirúrgico.
“Durante o ato, o maior risco são as arritmias cardíacas graves causadas pelo toque da pinça nas paredes do coração, parada cardíaca e hemorragia”, alerta. Com esses riscos, a taxa de sobrevivência fica entre 50% e 70%. “Embora pareça baixa, sem a cirurgia a mortalidade para animais nesse estágio crítico é de praticamente 100% em poucos dias.”
O que envolve a remoção dos vermes
Dados para cães em estágio crítico, com síndrome da veia cava. A faixa listrada indica a variação entre 50% e 70%. Fonte: André Lacerda (UENF).
Depois da operação, o cão precisa de repouso absoluto por 30 a 60 dias, em espaço confinado, para evitar que vermes remanescentes se desloquem. Semanas depois, ainda passa por tratamento com medicamentos para eliminar os parasitas restantes. Sem sequelas no coração e nos pulmões, as chances são boas. “O cão pode sim voltar a ter uma vida normal e ativa após a cura completa.”
Somando exames, cirurgia, anestesia e internação em UTI, a conta varia de R$ 10 mil a R$ 20 mil, conforme o porte do animal e o hospital. Já a prevenção é feita com remédio mensal ou uma injeção anual. “A prevenção é infinitamente mais barata e segura”, resume Lacerda.
Proteger o cão custa uma fração do tratamento do caso grave
é quanto a cirurgia custa em relação à injeção preventiva anual.
Preços da prevenção para um cão de cerca de 20 kg, segundo a médica-veterinária Naruna Kwan. Custo da cirurgia segundo André Lacerda (UENF). A faixa listrada indica a variação entre R$ 10 mil e R$ 20 mil.
“A prevenção é infinitamente mais barata e segura.”André Lacerda, cirurgião veterinário da UENF
Zoonose: humanos também podem ser infectados
A dirofilariose é uma zoonose, ou seja, pode passar de animais para pessoas. A doença atinge principalmente cães, mas também gatos, furões e canídeos silvestres. Em humanos, os casos são raros e, segundo o material da farmacêutica, a doença não evolui da mesma forma que nos cães. Amanda esclarece como ocorre o contágio: “A transmissão ocorre por mosquito infectado, não pelo contato direto com estes animais”.
O caminho do verme, do mosquito ao coração
Os preventivos da classe das lactonas macrocíclicas impedem que as larvas virem vermes adultos, segundo a Boehringer Ingelheim.
Como proteger o cão
A prevenção se parece muito com a da leishmaniose: evitar que o animal seja picado. “Somos área endêmica para leishmaniose e, sendo assim, o repelente já deveria ser uma regra a todos os pets”, lembra Amanda. Para ela, não há segredo: “Nada novo sob o sol”. As recomendações da veterinária são:
- usar repelente no cão de forma contínua, com produto indicado pelo médico-veterinário;
- manter vacinação e consultas regulares;
- para cães que viajam ao litoral, onde o risco é maior, considerar a medicação preventiva, de uso mensal ou aplicação anual;
- não esperar sintomas para buscar orientação.
Os preventivos da classe das lactonas macrocíclicas impedem que as larvas deixadas pelo mosquito virem vermes adultos, de acordo com o material da Boehringer. Em casa, vale eliminar água parada, instalar telas e evitar passeios nos horários de pico dos mosquitos.
Segundo o mesmo material, a prevenção deve ser contínua. A farmacêutica também recomenda exame anual, mesmo em cães que já usam preventivo, principalmente em áreas endêmicas.
Solução pode estar na organização dos dados
A Prefeitura não realiza campanha específica sobre a dirofilariose nem distribui exames ou medicamentos para a doença. Mesmo assim, o CCZ aceita que clínicas e veterinários comuniquem, de forma voluntária, os diagnósticos pelos canais oficiais do município. Segundo a nota, essas informações “podem contribuir para o conhecimento da situação epidemiológica local e para o fortalecimento das ações de vigilância em saúde”.
Na fronteira, a Prefeitura informa que não tem registro de cães diagnosticados vindos de outros estados ou países. Também não há cooperação formal com Argentina e Paraguai específica para a dirofilariose. Ainda assim, conforme a nota, o município desenvolve “ações e discussões técnicas relacionadas à vigilância em saúde e às doenças transmitidas por vetores no contexto da Tríplice Fronteira”.
Para o conselheiro do CRMV-PR, a comunicação voluntária ao CCZ é importante, principalmente quando há suspeita de transmissão dentro do próprio município. “Um fluxo simples e bem divulgado ajudaria tanto os profissionais quanto os serviços públicos”, avalia Marcelo.
O primeiro passo, segundo ele, seria reunir CCZ, clínicas, hospitais veterinários, laboratórios e universidades para organizar os registros. A ideia é saber quantos cães foram testados, quantos tiveram resultado positivo, onde vivem e se viajaram. “Só contar os positivos não mostra a frequência da infecção”, explica. Depois, um levantamento com amostragem planejada ajudaria a dimensionar a situação local.
Dirofilariose: perguntas e respostas
O que é a dirofilariose?
É a “doença do verme do coração”, causada pelo parasita Dirofilaria immitis. O verme pode chegar a 30 centímetros e se aloja no coração de cães. A transmissão ocorre pela picada de mosquito infectado.
Quais são os sintomas em cães?
No início, a doença costuma não dar sinais. Depois, podem surgir tosse, cansaço e menor disposição para exercícios. Em casos graves, o cão pode ter dificuldade para respirar, desmaios e perda de peso.
Tem tratamento?
Sim. Nos casos leves, o tratamento usa medicação oral contínua e acompanhamento com exames. Nos casos graves, com síndrome da veia cava, pode ser necessária cirurgia, que custa de R$ 10 mil a R$ 20 mil e não é feita em Foz do Iguaçu.
Passa para humanos?
É uma zoonose, mas os casos em humanos são raros e a doença não evolui da mesma forma que nos cães. O contágio ocorre por mosquito infectado, não pelo contato direto com o animal.
Como prevenir?
Com antiparasitário preventivo de uso contínuo, indicado pelo médico-veterinário, e repelente. Também é recomendado testar o cão uma vez por ano, mesmo com o uso de preventivo. Em casa, vale eliminar água parada e instalar telas.

