Fatias generosas, caldas fartas e filas que tomam conta das calçadas. O que começou como tendência nas redes sociais virou fenômeno real e lucrativo nas ruas de Foz do Iguaçu. Embaladas pela onda dos bolos de fatia, confeiteiras locais estão transformando paixões antigas e hobbies caseiros em negócios que movimentam centenas de clientes por edição.
O modelo, que une a tradição da boa confeitaria ao poder de viralização da internet, permite ao público “comer com os olhos” e escolher o pedaço na hora, diretamente da vitrine montada na rua.
Toda sexta-feira, por volta das 17h, a Rua Ariquemes, no Jardim Lancaster, ganha um movimento diferente. Vizinhos espiam pela janela a fila que se forma em frente ao número 1085. Na última semana, por causa da previsão de chuva, o festival foi adiado para o sábado (9).
Em uma única tarde, Rosângela Amorim chega a vender entre 300 e 400 porções em menos de três horas. No primeiro festival que organizou, em setembro do ano passado, no Gramadão, foram 180. O crescimento, em pouco mais de um ano, é o retrato local de uma onda que tomou conta do Brasil.
A tendência nasceu nas feiras de Goiás e, nos últimos meses, multiplicou filas por todo o país. A fórmula é simples e visualmente irresistível: bolos altos, cortados em porções individuais, dispostos lado a lado, com calda servida por cima na hora da escolha. Em Foz, foi pelas mãos de Rosângela que o formato chegou às ruas. “Apesar de Foz ter confeiteiras renomadas, ninguém estava vendendo nesse modelo. Eu precisava trazer essa novidade para cá”, afirma.

Hobby virou profissão
A história começou em 2017, quando Rosângela fez um curso técnico de cozinha no Instituto Federal do Paraná (IFPR). Na época, chegou a ser MEI, mas encarava a atividade como passatempo. Produzia doces para amigos, mais como exercício do que como negócio. “Eu fazia doce para os amigos só para me aperfeiçoar e estudar”, conta.
A virada veio em 2019, quando ingressou na primeira turma de Gastronomia, também no IFPR, e teve a certeza de que queria atuar profissionalmente na área. Foi quando criou um perfil no Instagram e viu o volume de pedidos disparar. “Era hora de empreender de verdade”, recorda.
TikTok entrou por acaso
Curiosamente, o TikTok — hoje uma das principais vitrines do negócio — entrou na história por iniciativa de uma cliente, que gravou um vídeo e postou na rede. O conteúdo viralizou e levou seguidores ao trabalho da doceira. Desde então, um único vídeo publicado pela própria Rosângela já ultrapassou 19 mil visualizações.
A cada edição, a vitrine exibe uma variedade que gira em torno de 10 a 12 sabores diferentes. Entre os queridinhos absolutos estão as combinações de Ninho com morango e brigadeiro com maracujá. Outro destaque que tem conquistado o público é o bolo de pudim, fenômeno viral que tomou conta do Brasil inteiro.

Confira, ao final da reportagem, uma lista com endereços e horários dos bolos de fatia em Foz do Iguaçu.
Doce Cereja: as filas que se formam na Vila A
Rosângela não está sozinha. A poucos quilômetros dali, uma fila parecida começa a formar-se todo sábado, desta vez puxada por uma fisioterapeuta que descobriu na pandemia uma segunda profissão. Para Suyanne Cereja, a história da Doce Cereja começou de forma despretensiosa, empurrada pelo isolamento social. “Eu comecei na confeitaria puramente por hobby“, revela.
Em 2020, diante do fechamento do comércio, decidiu experimentar algo novo: “Na pandemia, quando tudo fechou, eu acabei indo para a confeitaria zero açúcar, zero lactose e zero glúten.” Quando a rotina se normalizou, retomou os atendimentos de fisioterapia, porém seguiu fazendo bolos tradicionais sob encomenda para a família nas horas vagas.
O ponto de virada veio com o nascimento do sobrinho. Suyanne passou a preparar os bolos dos “mesversários” da criança e, em uma das comemorações, foi incentivada por uma convidada a abrir as vendas para o público. A partir daí, buscou especialização, fez cursos e migrou o antigo delivery de comida saudável para a confeitaria tradicional. “Foi assim que virou de um hobby para trabalho”, relata.

Da tela ao olho no olho
Atenta às novidades que viralizavam no TikTok, Suyanne decidiu organizar suas próprias edições presenciais para, segundo ela, “olhar no olho” do cliente e sentir de perto o desejo pelas fatias. A aposta funcionou rápido: a demanda saltou de 58 fatias no primeiro festival para cerca de 200 nas edições mais recentes.
Para dar conta do volume — hoje em torno de 22 bolos por edição —, o delivery tradicional precisa ser pausado nos dias de festival. A produção é enxuta e focada na qualidade. “A minha equipe é pequena, com no máximo três pessoas na produção. Acaba sendo muito complicado abrirmos mais de um dia na semana”, explica.
O encontro semanal acontece aos sábados, a partir das 16h, quando começa a distribuição das fichas, na Avenida Araucária, entre o Mercado Público Barrageiro e o campus do IFPR. Em alguns festivais, o atendimento se estendeu até as 21h. Mesmo a chuva não interrompe a operação: em uma edição recente em que o tempo fechou, a venda funcionou apenas por entrega e retirada. Ainda assim, foram vendidas 170 fatias.
Onze sabores — e mais a caminho
O sucesso também se reflete na variedade do cardápio. “Hoje, nós temos 11 sabores de bolo, e no próximo festival nós vamos aumentar mais três”, anuncia. As novidades serão os bolos de Franui, de carimbó (que mistura castanha-do-pará com cupuaçu) e uma versão inspirada no tiramisu, com café, cream cheese e chocolate.
Apesar das inovações constantes, alguns sabores já conquistaram o público de forma definitiva. O pódio é formado pelo Matilda (massa, recheio e mousse de chocolate meio amargo), pelo cacau black com maracujá (cacau alcalinizado, brigadeiro e compota da fruta) e pelo grande favorito: o bolo de pudim, servido nas versões tradicional, com Ninho e com Nutella.
Cada fatia — que pesa entre 350 e 400 gramas — sai por R$ 25. E os planos não param na rua: Suyanne já estuda abrir uma loja física. “Já temos em vista um local”, celebra.

Tradição de mãe e filha
Para quem ainda sonha com a loja física, ela é o próximo passo. Já para confeitarias com espaço consolidado, a tendência das fatias gigantes chega como oportunidade de reinventar a vitrine e atrair novos clientes. Enquanto as edições semanais dominam as ruas nos fins de semana, o movimento agora também invade os balcões fixos da cidade.
Desde quarta-feira (6), a confeitaria Feito em Casa, na Rua Porto Alegre, 178, no bairro KLP, começou sua jornada no mundo dos bolos de fatia. De olho nas tendências da internet, a motivação da publicitária e idealizadora Mariana Juppa é clara: “Eu adoro uma novidade! Gosto de testar novas opções, de explorar o novo e de encarar um desafio.” Ela toca o negócio ao lado da mãe, Josmara Juppa, que há anos atendia por encomenda em casa — uma tradição que, segundo Mariana, “vem de berço”.
A estratégia de lançamento, no entanto, será cautelosa. “Vamos começar tímidos, com quatro sabores para teste”, menciona. Entre as opções iniciais estão pudim, morango com suspiro e variações com Kinder ou Ninho com Nutella. Se a aceitação for positiva, o plano é consolidar sabores fixos, mas sempre com “uma opção diferenciada” para manter o elemento-surpresa. A publicitária também estuda apresentar versões salgadas no mesmo formato.
A novidade não ficará restrita à vitrine física. “A nossa ideia é colocar como opção no delivery também, para quem não pode estar presente ou para novos clientes que querem provar”, frisa Mariana.

Morango do amor, parte 2?
Apostar em tendências virais não é novidade para a Feito em Casa. No ano passado, a dupla surfou na onda do morango do amor. “Estamos sempre estudando o mercado e vendo o que faz sentido para nós”, ressalta Mariana.
No início, quase deixaram a oportunidade passar. “Pensamos em não arriscar, não achávamos que ia ter tanta saída.” Entretanto, a insistência do público falou mais alto: depois de muitos pedidos, elas estudaram a técnica de preparo e colheram um sucesso. “Acredito que durou um mês, com demanda bem grande, mesmo com muitas opções pela cidade”, lembra.
De casa para a vitrine
O negócio da Feito em Casa — referência para confeiteiras de primeira viagem — começou de forma discreta, ancorada na tradição familiar. “Nós iniciamos em casa oficialmente, de um jeito meio tímido, em 2018, pegando encomendas e oferecendo opções para datas comemorativas”, rememora Mariana.
Com o tempo, o negócio amadureceu. O grande salto veio em 2023, no pós-pandemia, quando mãe e filha saíram das entregas em casa e abriram a loja física, com opções prontas para retirada, encomenda e entrega. O crescimento não parou. “Agora, em 2026, ampliamos o espaço de produção”, comemora a publicitária.
A Feito em Casa atende de segunda a sexta-feira, das 14h às 18h30, e aos sábados, das 14h às 16h30. A loja também recebe pedidos pelo iFood.
Tendência com pé no chão
Surfar na onda de uma tendência é um caminho válido para empreender, mas exige cuidado. A consultora do Sebrae Ana Rizzi explica que o que transforma uma trend em negócio sustentável é, antes de tudo, a experiência completa entregue ao cliente. “Se ele é mal atendido ou o produto não tem qualidade, de nada adianta entrar na trend. O empresário deve ter esse cuidado”, afirma.
A orientação vale especialmente para quem aposta em ondas sazonais. fenômenos virais que vivem um ciclo de poucos meses. Para a consultora, a lógica é usar o momento de visibilidade como trampolim, não como destino. “É importante aproveitar essa tendência para fortalecer a sua marca, visando o futuro. A tendência uma hora vai acabar. Por isso é tão importante a qualidade na entrega”, lembra.
Para os negócios já consolidados, a recomendação muda de tom. Entrar em toda nova febre não é regra, e pode ser erro estratégico, a depender do perfil do público. “Nem tudo é para todos. Toda trend, vou precisar lançar um produto? Não. Depende do público de cada negócio”, aponta.

Outro ponto sensível é a precificação, em que muitas confeiteiras de primeira viagem tropeçam. “Não pode precificar de acordo com a sua cabeça. Além das despesas com ingredientes, é preciso levar em conta gastos como energia elétrica, água, embalagem e o próprio tempo de produção”, cita.
O Sebrae oferece apoio para empreendedores em diferentes estágios, com consultoria financeira, gestão, análise de viabilidade, planejamento estratégico e uma rede de parceiros. “Estamos dispostos a ajudar e mostrar os caminhos”, finaliza. Em Foz, mais informações pelo telefone (45) 3521-5300 ou nas redes sociais do Sebrae Paraná.
Os números do fenômeno
O movimento visto nas ruas tem rastro também nos registros oficiais. Levantamento feito pela reportagem, a partir da base aberta de CNPJs do Ministério da Economia, mostra que, em 2025, a cidade registrou 110 novas empresas no ramo de confeitaria. É o maior número em mais de uma década, quase sete vezes o registrado em 2018, quando foram apenas 16 aberturas.
O ponto de virada foi 2020: no primeiro ano do isolamento social, as aberturas saltaram de 25 para 34 e seguiram em alta nos anos seguintes, chegando a 51 em 2021. Foi o cenário que empurrou muitas pessoas para a confeitaria como fonte de renda.
Contudo, os números pedem leitura cuidadosa. Quem olha para o gráfico de aberturas pode imaginar uma cidade tomada por novos empreendimentos físicos. A realidade é outra. Dos 630 estabelecimentos hoje cadastrados no ramo em Foz do Iguaçu, 600 — ou 95,2% do total — são de microempreendedores individuais (MEIs). Apenas 24 são empresas de pequeno porte, e somente seis, em toda a cidade, têm porte médio ou grande.
Em suma, as 110 aberturas de 2025 não correspondem a 110 lojas novas. Correspondem, em sua maioria, a 110 pessoas que decidiram emitir nota pelo bolo que já vendiam pelas redes sociais ou na porta de casa.
Além disso, a divisão por atividade econômica reforça o retrato. Mais da metade dos estabelecimentos (57%) está classificada como “confeitaria com produção própria” — categoria que abriga tanto pequenas lojas físicas quanto a vasta maioria das confeiteiras que trabalham em cozinha doméstica. Outros 31,4% operam como padaria/confeitaria de revenda, 9,7% são panificações industriais, e menos de 2% são lanchonetes que adotaram o nome “confeitaria”.
Por todos os bairros
A “geografia da doçura” também ajuda a entender o fenômeno. O centro da cidade lidera o ranking com 57 estabelecimentos, equivalentes a 14% de todas as confeitarias de Foz do Iguaçu. Em segundo, o Morumbi aparece com 49 (12%), seguido por Porto Meira (36), Três Lagoas (34) e Panorama (27). Só esses cinco bairros respondem por quase metade — 49,5% — dos negócios do setor.
Entretanto, o que mais chama atenção é a pulverização. Da sexta posição em diante, nenhum bairro passa de 6% do total. O retrato compõe a paisagem que o número agregado escondia: uma Foz do Iguaçu em que o bolo deixou de ser produto de confeitaria e virou um produto de bairro, vendido pela vizinha, retirado na esquina, encomendado pelo grupo do prédio. A formalização chegou, mas a fachada física, em larga medida, continua dispensada.
Novos CNPJs de confeitaria em Foz do Iguaçu
Aberturas por ano entre 2010 e 2026, somando MEIs e empresas formalmente registradas no ramo.
Estabelecimentos por porte em Foz do Iguaçu
Distribuição dos 630 negócios cadastrados na cidade segundo o porte declarado à Receita Federal.
| Porte | Quantidade | % do total |
|---|---|---|
| MEI — Microempreendedor | 600 | |
| EPP — Pequeno Porte | 24 | |
| Médio e Grande | 6 | |
| TOTAL | 630 |
Estabelecimentos por CNAE em Foz do Iguaçu
Quatro códigos de atividade econômica concentram todo o universo da confeitaria e da panificação em Foz do Iguaçu — da produção caseira aos balcões industriais.
Onde estão as confeitarias de Foz do Iguaçu
Top 20 bairros, com tamanho do cupcake proporcional ao número de estabelecimentos. A grande maioria são Microempreendedores Individuais (MEI) e Microempresas (ME) — confeiteiras que produzem em casa e formalizaram a atividade.
Onde encontrar os bolos de fatia em Foz do Iguaçu
A reportagem mapeou confeitarias e empreendedoras locais que aderiram ao formato. Endereços e horários foram informados pelas próprias confeiteiras e podem sofrer alterações em datas comemorativas ou dias de chuva. Por fi,. para confirmar a programação semanal, vale acompanhar as redes sociais de cada estabelecimento.
Rô Amorim
- 📍 Rua Ariquemes, 1085 — Jardim Lancaster
- 🗓️ Sextas-feiras, a partir das 17h
- 💰 R$ 15 e R$ 25 a fatia
- 🔗 @aroamorim
Doce Cereja
- 📍 Avenida Araucária, 427 — Vila A
- 🗓️ Sábados, a partir das 16h (distribuição de fichas)
- 💰 R$ 25 a fatia
- 🔗 @doce_cereja_foz
Feito em Casa
- 📍 Rua Porto Alegre, 178 — KLP
- 🗓️ Segunda a sexta, das 14h às 18h30 | Sábados, das 14h às 16h30
- 💰 R$ 25 a fatia
- 🔗 @feitoemcasafoz
Doceria Kau Magnabosco
- 📍 Praça da Bíblia
- 🗓️ Sábados, a partir das 15h
- 💰 R$ 25 a fatia (10 sabores)
- 🔗 @doceriakaumagnabosco
Sweet Honey – Confeitaria Artesanal
- 📍 Praça da Bíblia (sexta a domingo, das 19h às 22h)
- 🚴 Delivery todos os dias, a partir das 10h
- 💰 R$ 24 a fatia
- 🍰 Sabores: Chocolatuda, Cenoura e Brownie, Tapioca com Doce de Leite, Cocada Cremosa
- 🔗 @sweet.honey.confeitaria
Doceria J&A
- 📍 Rua Tibagi, 208 — ou Rua Áustria, 1107
- 💰 Até R$ 20 a fatia
- 🔗 @doceriaja_
- Horário não informado pela confeitaria.
Doces da Camila
- 📍 Rua Dede Nunes, 1331 — Jardim Itália
- 🗓️ Domingos, a partir das 15h30
- 💰 R$ 20 a fatia
- 🔗 @docesdacamilafoz
- Confirmar a programação diretamente com a confeitaria.
Tata Bolos (edição pontual)
- 📍 Rua Bico-de-lacre, 219 — Portal da Foz
- 🗓️ 16/05, a partir das 13h
- 💰 R$ 22 a fatia
- 🔗 @tatabolosfoz

