H2FOZ
Início » Reportagem Especial » Por que sobram vagas e faltam trabalhadores em Foz do Iguaçu?

Reportagem Especial

Emprego

Por que sobram vagas e faltam trabalhadores em Foz do Iguaçu?

Hotéis, supermercados e construtoras enfrentam dificuldade para contratar, enquanto candidatos rejeitam condições oferecidas

9 min de leitura
Por que sobram vagas e faltam trabalhadores em Foz do Iguaçu?
Foz do Iguaçu tem um descompasso entre oferta e demanda de vagas. Foto: Marcos Labanca

Onde está o trabalhador? De um lado sobram vagas, de outro há uma busca desenfreada por empregos. Foz do Iguaçu vive descompasso laboral. Com dificuldade para contratar, hotéis, supermercados e construtoras correm atrás de funcionários.

Na Agência do Trabalhador de Foz do Iguaçu, há 820 vagas disponíveis para 133 diferentes funções. Cerca de 90 delas são para um canteiro de obras da construção civil.

Publicidade

Para efeito de comparação regional, os números ajudam a dimensionar o cenário do mercado de trabalho. Em Cascavel, cidade com cerca de 364 mil habitantes, há 123.104 trabalhadores com carteira assinada.

Já Foz do Iguaçu, com aproximadamente 295 mil moradores, o total é de 70.621 vínculos formais. Em Toledo, com cerca de 160 mil habitantes, são 65.411 trabalhadores registrados. Os dados evidenciam diferenças importantes na estrutura do emprego formal entre cidades de porte semelhante no Oeste do Paraná.

Leia tanbém: Foz do Iguaçu perde 226 empregos em janeiro, mostra Caged

Diretora de Desenvolvimento Socioeconômico da Prefeitura de Foz do Iguaçu, Cátia Aparecida Fritzen diz que o cenário do emprego e trabalho vem mudando, principalmente no período pós-pandemia.

Há bastante gente buscando trabalho, contudo as vagas não são atrativas ou os interessados não se encaixam no perfil procurado. Para a diretora, diversos fatores contribuem para a situação, incluindo rejeição à escala 6 por 1, os baixos salários e alguns horários de trabalho disponíveis, principalmente o noturno, que têm pouca procura. 

Atualmente, relata, há aproximadamente 1.800 pessoas que moram em Foz do Iguaçu e viajam para trabalhar em frigoríficos da região, porque os salários oferecidos fora são melhores, mesmo precisando fazer um trabalho pesado. Elas recebem cerca de R$ 2.810 a R$ 2.998 mais benefícios.

Publicidade
agencia do trabalhador
São mais de 800 vagas em aberto na Agência do Trabalhador. Foto: AMN

Outra condição é a grande procura por trabalho extra. Os setores de serviços, bares e restaurantes acabam contratando, pois não há dificuldade para encontrar colaboradores fixos.

Cátia explica que para uma pessoa que recebe benefícios sociais do governo é mais compensador fazer trabalhos extras do que receber pouco mais de R$ 2 mil mensais para uma jornada de 44 horas. Atualmente, Foz tem cerca de 22 mil pessoas beneficiárias do programa Bolsa Família, diz ela.

A facilidade de atuar na informalidade em Foz do Iguaçu é outro fator que contribui com essa realidade, segundo Cátia. Além do fácil acesso ao trabalho no comércio do Paraguai, os trabalhadores da cidade têm farta oferta de serviços extras em eventos, a exemplo de funções na limpeza, copa, cozinha e como garçom e garçonete.

Conforme a diretora, atualmente a rede hoteleira precisa fazer contratos extras para garantir funcionários no atendimento aos hóspedes. “Muitas destas pessoas perceberam que existe vida fora do trabalho e agora elas estão fazendo escolhas”, pontua.

Apesar da realidade, Cátia avalia que as pessoas são imediatistas e pouco pensam na importância de um contrato CLT para garantir a aposentadoria. Na cidade, diversos sites já surgiram para recrutar candidatos para vagas temporárias.

Cientes da nova realidade laboral, algumas empresas hoteleiras, principalmente de redes, passaram a oferecer benefícios além do salário-base fixado em convenções coletivas. Para fixar os funcionários, adotam sistema de pontuação que gera renda extra e benefícios aos trabalhadores. Catia reforça que as empresas que pagam um salário diferenciado não encontram problemas para contratação.

Contratação o tempo todo

Supervisora de Recursos Humanos da Rede Muffato em Foz do Iguaçu, Solange Biazon informa que a rede tem nove lojas na cidade e as contratações ocorrem o tempo todo. A empresa realiza mutirão uma vez ao mês pelo fato de atrair muitas pessoas e concentrar o processo seletivo.

De acordo com Solange, as vagas mais difíceis de serem preenchidas são as que exigem habilidades mais técnicas, tais como ocupações em açougue, padaria e confeitaria. Como há falta de trabalhadores qualificados na cidade, a empresa começou a fazer treinamentos na Universidade Corporativa do Super Muffato (Uniffato) para formar pessoal.

Inicialmente, as pessoas são contratadas para o cargo de auxiliar e, após receberem formação e treinamento, têm a chance de ascender, a partir do plano de carreira da empresa.  

Na hotelaria preferência não é para a CLT. – Foto: José Fernando Ogura/AEN

Vice-presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares (Sindhotéis), Camilo Rorato confirma que a dificuldade da rede hoteleira para preencher o quadro pessoal não é recente e se arrasta há anos.

Para ele, a situação se deve a dois fatores principais: a concessão de benefícios sociais por parte do governo federal e a possibilidade de empréstimos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

O benefício, a exemplo do Bolsa Família, acredita Rorato, faz com que as pessoas não queiram mais trabalhar no regime da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), preferindo buscar serviços extras ou “bicos” para complementar a renda. “Nós estamos em uma situação difícil, cada vez pior”, relata.

A procura pelo emprego sem registro em carteira garante à pessoa a manutenção do benefício social, por isso a maioria prefere serviços de freelancer. Em relação ao FGTS, Rorato argumenta que muitos trabalhadores fazem o empréstimo e forçam a demissão para não precisar pagar o valor contraído.

Estrangeiros e “50+” cada vez mais presentes

Em Foz do Iguaçu, passou a ser comum ver estrangeiros ocupando postos assalariados em diversos setores, inclusive em supermercados e hotéis.

Na Rede Muffato, cerca de 20% dos funcionários são de outras nacionalidades, a maior parte venezuelana, cubana, paraguaia e peruana. Há também tunisianos e marroquinos. Em outras cidades do estado também há estrangeiros atuando na rede, ressalta Solange. Em Cascavel, pode parte são migrantes do Haiti.

Outro perfil de trabalhador bastante presente na rede é dos “50+”, que representam cerca de 20% a 25% das contratações. A empresa também oferece postos de trabalho para PcDs.  

Baixos salários e jornada 44 horas são entraves

Presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Turismo e Hospitalidade de Foz do Iguaçu (STTHFI), Vilson Osmar Martins conta que hoje os trabalhadores não se interessam pela rede hoteleira porque há outro tipo de oportunidade.

Para ele, um dos maiores entraves é a necessidade de trabalhar nos finais de semana e feriados, tendo apenas uma folga por semana. “As pessoas têm filhos, família. É um drama social.”

Martins aponta uma contradição no discurso empresarial. Conforme afirma, desde 2023 os hotéis registram alta ocupação e o turismo nacional está aquecido. “O turismo nacional está supermovimentado, e quando você pega um empresário para conversar ele diz que não é bem assim”, frisa.

hotéis
Hotelaria não tem salário atrativo (Foto: Pixabay/Imagem ilustrativa)

Segundo ele, a carga tributária sobre a folha também não é uma justificativa válida, pois quando uma empresa entra no mercado já sabe desse custo previamente. “Eles [empresários] deveriam ser interessados em melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. Isso só desonra a categoria”, ressalta.

O sindicalista reforça que os trabalhadores não querem esse tipo de emprego em razão dos baixos salários praticados na hotelaria. Hoje, o piso da categoria é R$ 2.190 para ingresso em uma jornada de 44 horas semanais.

Com o tempo, o salário pode chegar a R$ 3 mil, R$ 4 mil, no entanto o trabalho em feriados e finais de semana se torna desgastante. Por isso, muitos trabalhadores preferem outras ocupações com menor carga laboral, cujo salário é equivalente ou até maior. Alguns recorrem ao serviço de motorista de aplicativo ou trabalham em casa com culinária.

 Sociólogo e matemático, Luiz Carlos Kossar destaca que o setor hoteleiro revela uma fragilidade no mercado de trabalho. Dados do Ipardes, segundo ele, mostram que, há mais de duas décadas, o número de trabalhadores ligados ao segmento gira em torno de 11 mil.

Atualmente, muitos desses trabalhadores preferem a informalidade, principalmente no período de grande fluxo de turistas compradores, pelo simples motivo de que chegam a ganhar, em dois a três dias, o mesmo que levariam para receber em um mês como empregados na rede hoteleira, avalia Kossar.

Incoerência entre salário e custo de vida

Professor doutor do curso de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Cultura e Fronteiras da Unioeste, o sociólogo Eric Gustavo Cardin indica que existe uma certa incoerência entre o salário pago e o custo de vida em Foz do Iguaçu.

Tomando-se o exemplo da rede hoteleira, na qual a média salarial paga é pouco mais de R$ 2 mil, fica difícil sobreviver na cidade se for levado em conta o valor do aluguel cobrado hoje e da cesta básica.  

Os trabalhadores, realça, precisam de alimentação, saúde e lazer, porém os pisos salariais acabam arrochados e não dão conta de atender a todas as necessidades. Hoje, o custo de vida em Foz é muito alto para diversas categorias.

turismo em alta
Filas constantes mostram que Turismo está em alta na fronteira. Foto: Marcos Labanca

Ele ainda elenca outro ponto. A força de trabalho, conforme Cardin, é uma mercadoria, e o valor dessa força no mercado está relacionado com a oferta e a demanda — havendo muita vaga e pouco interessado. “Não falta trabalhador, mas sim salário bem-remunerado”, salienta.

Considerando a realidade, Cardin sugere ser preciso criar atrativos aos trabalhadores. Para ele, a rede hoteleira acaba diminuindo a folha de pagamento para poder manter o padrão de acumulação.

Nesse contexto, ele dá o exemplo do curso de Hotelaria da Unioeste, que está prestes a fechar em razão da falta de alunos. A carreira deixa de ser atrativa porque não garante a especificidade de remuneração, frisa.

Também chama a atenção do professor o fato de trabalhadores procurarem frigoríficos ao invés dos hotéis. Para ele, essa mão de obra é diferente da rede hoteleira.

O professor ainda lembra que, historicamente, o salário da classe trabalhadora representa o mínimo para manter a reprodução do grupo, como está descrito na economia política desde o século 19.

Ao mínimo salarial foram agregados os impostos, criados a partir do desenvolvimento do estado burocrático. Esses dois elementos implicam o custo do trabalhador para o empresário, ressalta.

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e fique por dentro do que realmente importa.


    Você lê o H2 diariamente?
    Assine no portal e ajude a fortalecer o jornalismo.

    Denise Paro

    Denise Paro é jornalista pela UEL e doutoranda em Ciências Políticas e Relações Internacionais. Atua há mais de duas décadas nas Três Fronteiras e tem experiência em reportagens especias. E-mail: deniseparo@h2foz.com.br

    1 comentário em “Por que sobram vagas e faltam trabalhadores em Foz do Iguaçu?”

    1. Anônimo

      Discordo de um ponto. Na realidade, na vida real, ninguém prefere frigorífico especificamente pelo salário. Preferem frigorífico pela ausência de requisitos. Os hotéis e empresas, tem seus requisitos e você precisa saber desempenhar sua função previamente, já lá, não é necessário nem conhecimento prévio da função, nem ausência de antecedentes criminais, o que torna uma grande porta aberta para qualquer um que deseja/necessita de um emprego rápido e sem esforço prévio.

    Deixe um comentário