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Reportagem Especial

Sustentabilidade

Oásis verdes: agricultores desafiam modelo do agronegócio com produção sustentável

Em municípios da região Oeste, pequenos agricultores investem na agroecologia e na diversificação da renda.

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Oásis verdes: agricultores desafiam modelo do agronegócio com produção sustentável
Oásis agroecológico são contraponto à monocultura na região Oeste. Foto: Paula Vianna

Em uma região dominada pela soja e milho, ilhas verdes da cultura sem veneno despontam como oásis. No Oeste do Paraná, pequenos agricultores de Diamante D’Oeste, São Miguel do Iguaçu e Ramilândia praticam a agricultura sustentável em plantios de pequena escala e se organizam em cooperativas para distribuir a produção.

Dados do Programa Oeste em Desenvolvimento (POD) de 2024 indicam que a Região Oeste produz 22% da soja e 40% de milho do Paraná. Outra fonte de renda vem da proteína de suínos, frango, tilápia e leite.

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Muitas das áreas agrícolas são destinadas à agricultura de grande escala. Mas há famílias que começam a fazer o caminho inverso, fixando-se no campo e destacando-se com produções ecologicamente corretas. 

Um dos exemplos é o Assentamento Ander Rodolfo Henrique, que fica no município de Diamante D’Oeste, a cerca de 115 quilômetros de Foz do Iguaçu.

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La é colocada em prática a política do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) que busca alternativas para controlar patógenos sem o uso de agrotóxicos. Agricultor do local, Leandro Rolden adotou o plantio em sistema agroflorestal (SAF). “Nós estamos percebendo que será a saída para nosso trabalho”, realçou.

Segundo ele, o plantio na região acaba dificultado pelo clima, principalmente em épocas de veranico. Por isso, a saída é trabalhar com sistema agroflorestal — prática agroecológica em que árvores podem ser plantadas com hortaliças, grãos ou forrageiras, ao modo de uma floresta natural, facilitando a regeneração do solo.

O uso de bioinsumos também vem sendo adotado para facilitar a recuperação da terra nesta fase de transição para o plantio agroecológico.

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Outra tecnologia agrícola usada no assentamento é a horta mandala — técnica de plantio circular e combinando variedades de plantas. O sistema de mandala ajuda na manutenção de água no sistema.

Considerado protagonista no uso da agricultura ecológica no Paraná, o Assentamento Ander Rodolfo Henrique reúne 108 famílias assentadas.

Outro assentamento onde a agroecologia é colocada em prática é o 16 de Maio, situado em Ramilândia, cerca de 92 quilômetros de Foz do Iguaçu. Lá, vivem 220 famílias e cada uma tem em média cinco a sete alqueires.

Estamos adaptando nossas vidas e sementes, diz agricultor

Um dos assentados é o agricultor Miro Finkler, que também adotou o sistema de agrofloresta para plantar. Ele regenerou a área que antes era usada para plantar fumo e abastecer o mercado nacional e passou a praticar o policultivo para reconstruir o solo, tarefa que durou quase uma década. “A área era muito intoxicada”, contou.

Na agrofloresta, Finkler tem abacate, banana, manga, feijão e uma variedade de milho com sementes crioulas. Cerca de cem galinhas vivem soltas por lá e ajudam o solo. “Aprendemos a trabalhar com agroecologia quando éramos crianças e vivíamos na floresta, mas também ajudamos a destruí-la. Hoje, estamos adaptando nossas vidas e sementes.”

O agricultor se queixa da falta de políticas públicas para o setor e da dificuldade de adquirir máquinas pequenas para o uso na agrofloresta.

sistema de agrofloresta
Em Ramilândia, Miro Finkler coloca em prática o sistema SAF. Foto: Denise Paro

A agroindústria também começa a tornar-se uma realidade entre os pequenos produtores. Rosilda Siqueira abriu uma pequena fábrica de doces há cerca de três meses. Ela faz doce de abóbora, de mamão e de banana, cuja produção é vendida nos supermercados de Diamante D’Oeste e pela cooperativa. Na propriedade ela também cultiva hortaliças.

Rosilda MST

Cooperativa distribui produção para região

A produção dos pequenos agricultores da região é gerenciada e distribuída pela Cooperativa de Industrialização e Comercialização Camponesa (Coopercam), a qual reúne mais de 200 cooperados, incluindo assentados da reforma agrária, povos indígenas e agricultores familiares. Parte da produção é agroecológica e orgânica.

Fundada em 2010, a cooperativa tem cooperados de 11 cidades da Região Oeste. A sede fica no Assentamento Antônio Tavares, em São Miguel do Iguaçu, a cerca de 40 quilômetros de Foz do Iguaçu. A maior parte da produção é de hortifrutigranjeiros e panificação, que são bolachas caseiras.

Entre maio de 2025 e maio de 2026, a cooperativa entregou 383.380 quilos de alimentos. Parte da comercialização é viabilizada pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que são políticas públicas para impulsionar a venda da agricultura familiar.

A produção chega a cidades do Oeste e é destinada não só à merenda escolar, mas também a hospitais, lares de idosos e projetos sociais. Em Foz do Iguaçu, os produtos da Coopercam chegam à ACDD, à merenda escolar e ao Albergue Noturno.

panificadora camponesa
Produtos da panificadora chegam à merenda escolar de Foz do Iguaçu. Foto: Denise Paro

A merenda escolar recebe bolachas caseiras doces e salgadas feitas na Padaria Camponesa, um empreendimento exclusivo de mulheres que tem 25 sócias.

Assessora institucional do Projeto Semeando Gestão (CCA-PR/Itaipu), Jose da Silva Marssola Hartmann destaca que a agricultura de subsistência tem crescido na região. Muitas famílias que arrendavam terras para o plantio de soja e milho ficaram em situação difícil e voltaram a produzir. “Hoje, como a terra está ficando fraca, elas voltam a produzir leite e hortifrutigranjeiros”, frisa.

Professora do curso de Desenvolvimento Rural na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Patrícia Pinheiro diz que além da importância para a diversificação da oferta de alimentos na região, como milho verde, mandioca, leite, hortaliças, feijão, arroz, suínos, aves e frutas, a agricultura familiar é a principal geradora de ocupações no campo. Segundo o Instituto de Desenvolvimento Rural – IDR, representa 75% dos empreendimentos rurais do Paraná.

Ela ressalta a importância da agroecologia e do extrativismo não predatório, presentes em assentamentos da reforma agrária, quilombos e territórios indígenas. “São locais que abrigam muita vida, nos quais elementos culturais, ecológicos, históricos e socioeconômicos estão conectados, com ricos arranjos e tecnologias sociais que, em seu conjunto, se mostram muito mais sustentáveis”.

A professora ainda salienta que os  assentamentos da reforma agrária – a partir de um entendimento de que não basta garantir a terra, mas também ter responsabilidade no que se produz nela – tem reforçado muito a importância da produção de alimentos que vão para a mesa da população.  

Patrícia ainda reforça que os produtos são agroecológicos, ou seja, não utilizam agrotóxicos e são plantados em pequenas propriedades ou de modo cooperativo. Assim, explica, evita-se desperdícios, maximizando os poucos recursos ou mesmo maquinários, o que torna mais eficiente a produção, com responsabilidade sobre as pessoas e sobre o território.

Paraná concentra expressivo número de agricultores orgânicos

Criada em abril de 2021, a Articulação Paranaense de Agroecologia (Apra) reúne hoje cerca de 15 a 20 pessoas, que representam organizações e outras cem pessoas, incluindo consumidores e técnicos que trabalham com agroecologia.

Engenheiro-agrônomo, Claudio Marques integra a coordenação da Apra. “O próprio consumidor está buscando os orgânicos. Outro elemento que ajudou é o Programa de Aquisição de Alimentos, que abriu brecha para os agricultores terem um comércio garantido.”

De acordo com ele, hoje há mais de quatro mil agricultores do Paraná cadastrados como produtores de orgânicos no Ministério da Agricultura. O estado figura entre os com maior produção no segmento. Porém, alguns produzem apenas para consumo. A produção é sustentada pela agricultura familiar.

Desde 2017, a entidade vinha lutando para o estado ter uma política estadual de agroecologia e produção orgânica que apoie e incentive os agricultores. A Lei 22536/2025 foi aprovada na Assembleia Legislativa (Alep), contudo acabou rejeitada pelo Executivo.

Agora, a Apra faz uma articulação para a elaboração de uma minuta de decreto de regulamentação da lei e para a recuperação de algumas iniciativas que beneficiem os agricultores, transformando a legislação em uma política estadual.

Plenária Agroecológica lança campanha

Os assentamentos da reforma agrária da região Oeste integraram a rota de visitas realizadas durante a Plenária Nacional da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), que ocorreu entre os dias 18 e 22 de maio em Foz do Iguaçu.

No evento, foi lançada a campanha Agroecologia nas Eleições 2026. De acordo com a ANA, a proposta é colocar a agenda agroecológica no centro do debate eleitoral, a partir de pautas concretas elaboradas para orientar o compromisso das candidaturas e seguir no diálogo com a sociedade sobre a importância da agroecologia com vistas a construir uma sociedade mais justa e um sistema agroalimentar mais saudável e inclusivo.

A plenária foi uma preparação para o 5.º Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), previsto para ocorrer em 2027 em Foz do Iguaçu.

plenária Ana
Plenária foi realizada em Foz do Iguaçu. Foto: Fábio Conterno

Expansão agrícola estimulou agropecuária predatória

Por Patrícia Pinheiro

A configuração atual da agropecuária no Oeste do Paraná, com a presença marcante de grandes propriedades monocultoras de commodities, em especial a soja e o milho, é fruto de uma sequência de processos promovidos pelo Estado brasileiro. Nessa que é uma região que sempre teve presença indígena marcante, podemos mencionar a expansão da fronteira agrícola se deu com a implementação de políticas fundiárias, agrárias e agrícolas que estimulam uma agropecuária predatória.

Isso engloba desde os projetos de colonização do Oeste, com a derrubada das matas, incentivo e financiamento para o modelo tecnológico da Revolução Verde, restrito a poucas cadeias produtivas voltadas à exportação; e a ampliação em grande escala da matriz energética com a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu.

Este cenário gerou consequências diretas aos povos tradicionais e camponeses da região, com a expulsão de seus territórios e desmatamento em larga escala, que foram se tornando cada vez mais diminutos, e estimulou fortemente um modelo de agricultura focado em grandes propriedades monocultoras com alta produtividade, porém com uso intenso de agrotóxicos e precisam de cada vez mais insumos externos para manter essa produtividade.

A consequência foi uma gradual perda da agrobiodiversidade e influencia diretamente na soberania alimentar dos povos tradicionais, assim como traz questões de saúde para a população pela contaminação das águas por agrotóxicos. Quem sofre mais com isso? Quem vive da terra. Embora os povos indígenas, povos quilombolas, comunidades tradicionais e camponesas sejam os mais diretamente atingidos, a ausência de políticas eficazes para a democratização do acesso justo à terra e o estímulo à produção diversificada de alimentos afeta negativamente toda a sociedade brasileira.

Patrícia Pinheiro é professora do Curso de Desenvolvimento Rural da Universidade Federal da Integração Latino-Americana – UNILA

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    Denise Paro

    Denise Paro

    Denise Paro é jornalista pela UEL e doutoranda em Ciências Políticas e Relações Internacionais. Atua há mais de duas décadas nas Três Fronteiras e tem experiência em reportagens especias. E-mail: deniseparo@h2foz.com.br

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