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Depoimento

Racismo: “Questionaram se o que tinha sofrido era digno de ser denunciado”

Professora detalha as barreiras enfrentadas em delegacia e a frustração com o desfecho judicial após sofrer crime racial.

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Racismo: “Questionaram se o que tinha sofrido era digno de ser denunciado”
Aline Torres é professora de escola pública há 15 anos e atua como uma voz antirracista dentro e fora da sala de aula. Foto: Arquivo Pessoal
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O H2FOZ revelou que Foz do Iguaçu bateu recorde de denúncias por racismo em 2025. Aline Torres, professora da rede pública e militante antirracista, enfrentou resistência e desrespeito ao registrar boletim por racismo em 2024. Em resumo, somente após uma advogada negra exibir a OAB e exigir respeito, ela recebeu atendimento adequado.

LEIA TAMBÉM: Casos de racismo em Foz do Iguaçu batem recorde histórico

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Confira o relato completo:

“Em 2024, sofri racismo e levei o caso à Justiça. Eu estava em um show em um bar da cidade que frequento há anos e onde nunca havia passado por qualquer situação de violência. Conversava com uma amiga em frente ao bar quando um rapaz se aproximou, mostrou uma bituca de cigarro e disse que ela estava no meu cabelo. Na hora, fiquei espantada e perguntei:

— Você está brincando? Tem certeza? Viu alguém colocando?

Ele respondeu que não tinha visto e que apenas estava me avisando. Fui ao banheiro e, depois, procurei um amigo que trabalhava no bar, pedindo para verificar as câmeras de segurança do local, a fim de saber se haviam registrado o momento.

Novamente, aquele rapaz veio perguntar como eu estava e reafirmou que não tinha visto quem tinha colocado a bituca no meu cabelo. Fui para casa em estado de choque, sem chão. Foi muito doloroso.

Consegui as imagens da câmera de segurança, que mostravam o mesmo rapaz colocando uma bituca de cigarro apagada no meu cabelo. Ele tira, bate a bituca, sacode a cinza sobre meu cabelo e continua conversando. Depois, ele mesmo retira o objeto e me mostra. A pessoa que colocou a bituca, achando que meu cabelo era um cinzeiro, foi a mesma que tirou e fingiu me alertar.

Esse rapaz, na época, era menor de idade. Fui à delegacia registrar o boletim de ocorrência, mas não fui acolhida. Fui ridicularizada por algumas pessoas, inclusive por responsáveis pelo adolescente. Além disso, disseram que eu estava sendo louca, extremamente radical, por reagir a uma ‘brincadeira’ de um adolescente, entre outras coisas.”

Depoimento

“Na delegacia, questionaram se o que tinha sofrido era mesmo digno de ser denunciado. Falaram que o sistema não estava funcionando e que eu teria que voltar outro dia. Nenhum dos policiais ou escrivães teve a sensibilidade para o acolhimento.

Dias depois, fui atrás de uma advogada para ir à delegacia com ela, a fim de que o tratamento fosse outro. Chegamos lá e mandaram a gente sentar e aguardar, dizendo que ninguém poderia atender naquele momento, até que minha advogada levantou e mostrou a carteirinha da OAB (ela, uma mulher negra retinta). Nesse momento, nos levaram para a sala do BO.

Conforme eu relatava o ocorrido, mediante vídeo e tudo, a escrivã falava como se isso não fosse um caso de racismo. Ela diminuía o tipo de violência, até o momento em que tivemos que levantar a voz e mostrar que tínhamos conhecimento da lei. Sabíamos o que estávamos fazendo ali.

Nesse momento, o delegado apareceu e começou a conversar. O tom da conversa mudou e ali, sim, começamos a ser respeitadas e acolhidas como vítima e advogada. Somente quando o delegado veio conversar e viu que não estava falando com alguém que não tinha conhecimento da causa. Por fim, fizemos o boletim e aguardamos os encaminhamentos.”

Não deu em nada

“Em resumo, o processo avançou rápido e, em quatro meses, já entregou o resultado. O juiz excluiu o processo porque o acusado era menor de idade e sem antecedentes criminais.

Nesse momento, eu fui atrás do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir), porque achei um absurdo a sentença. Gostaria de saber o que o conselho poderia fazer a respeito de todo aquele tratamento. Apresentei meu caso em uma reunião com a diretoria, que ficou de organizar algumas ações, mas que, na prática, não aconteceram. Isso tudo, a meu ver, mostra que estamos longe de resolver essa problemática.”

*Aline Torres é professora de escola pública há 15 anos e atua como uma voz antirracista dentro e fora da sala de aula. No ambiente escolar, ela promove discussões sobre o racismo estrutural e incentiva os estudantes a participarem de projetos que estimulam a reflexão e a ação.

Resposta da gestão municipal

A Prefeitura de Foz do Iguaçu informou que o caso relatado pela professora Aline Torres ocorreu em 2024, antes do início da atual gestão, e que os sistemas administrativos do município não registram formalmente o episódio. A administração reforça que deve acolher e tratar com seriedade todos os relatos de racismo e continua trabalhando para aprimorar os fluxos institucionais e a rede de apoio.

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    Vacy Álvaro

    Vacy Alvaro é jornalista e coordenador do núcleo de Jornalismo de Dados/Infográficos do H2FOZ.

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