Na segunda-feira, a promessa costuma estar renovada: “Agora vai!” A pessoa decide cuidar melhor da alimentação, beber mais água, organizar a rotina, retomar a atividade física e construir hábitos mais saudáveis. O compromisso parece firme.
Mas a semana vai passando. Na terça, aparece um “só hoje”. Na quarta, talvez seja a ansiedade. Na quinta, o cansaço. Na sexta, chega o argumento de que a semana foi difícil e, portanto, “eu mereço”. No fim de semana, então, entram as justificativas clássicas: “É só sábado.”; “Segunda-feira eu volto.”; “Estou de TPM.”; “É retenção hídrica.”
É justamente nesse território que entra o tema desta semana do Quem foi que disse?, quadro do H2FOZ que propõe uma reflexão bem-humorada sobre aquelas explicações que nós mesmos criamos para justificar comportamentos que, no fundo, sabemos que podem estar afastando-nos daquilo que decidimos fazer.
E não se trata apenas de mulheres. O fenômeno vale para homens e mulheres. A TPM e as alterações hormonais são particularidades femininas, mas a lógica das justificativas pode aparecer para qualquer pessoa que esteja tentando mudar um hábito.
Assista ao novo episódio:
Quando a justificativa vira uma defesa
É importante reconhecer que fatores físicos e emocionais realmente interferem no comportamento alimentar. Fome, alterações hormonais, retenção de líquidos, ansiedade, estresse, sono ruim e outros aspectos podem influenciar a forma como uma pessoa se alimenta. Ignorar essas particularidades seria simplificar uma questão que é muito mais complexa.
A questão aparece quando uma explicação legítima passa a funcionar como uma justificativa automática para qualquer excesso.
É aí que a psicologia ajuda a compreender um mecanismo chamado racionalização. De maneira simplificada, trata-se de um processo pelo qual construímos explicações que tornam determinado comportamento mais aceitável para nós mesmos. Em vez de entrar em contato com uma possível contradição — “eu quero mudar, mas estou fazendo algo que dificulta essa mudança” —, encontramos uma explicação que reduz esse desconforto.
Não significa necessariamente que a pessoa esteja mentindo de forma consciente. Muitas vezes, ela realmente acredita na explicação que encontrou. O cérebro humano é bastante eficiente em construir narrativas que preservam a nossa sensação de coerência.
Por isso, aquela “mentirinha” pode parecer perfeitamente razoável no momento.
O problema começa quando o hábito de justificar impede o posicionamento
Toda mudança exige algum grau de posicionamento. Quando alguém decide construir novos hábitos alimentares, por exemplo, não está somente acrescentando comportamentos novos à rotina. Também pode precisar abrir mão de práticas antigas, enfrentar desconfortos e lidar com situações nas quais aquilo que deseja no longo prazo entra em conflito com uma satisfação imediata.
E isso não é simples.
Há uma espécie de negociação interna acontecendo o tempo todo: “Eu quero mudar, mas também quero isso agora.” Quanto maior o desconforto provocado pela mudança, maior pode ser a criatividade na construção das justificativas.
“É só hoje.”
“Eu estava muito ansiosa.”
“Durante a semana eu fui tão certinha.”
“Meu corpo está pedindo.”
“É TPM.”
“É retenção.”
“Na segunda, eu começo de novo.”
O Quem foi que disse? não pretende dizer que nenhuma dessas situações seja real. A provocação é outra: será que estamos usando uma circunstância real para compreender o nosso comportamento ou para justificar qualquer comportamento?
Essa diferença pode parecer pequena, porém muda a maneira como nos relacionamos com nossas próprias escolhas.
Entre a culpa e a responsabilidade
Perceber esse mecanismo também não significa transformar a alimentação em uma disputa moral entre “certo” e “errado”, muito menos alimentar a culpa depois de uma escapada.
A proposta é desenvolver um pouco mais de consciência sobre o próprio comportamento.
Em vez de simplesmente aceitar a primeira explicação que aparece, podemos fazer uma pergunta incômoda — e bastante útil: “O que realmente está acontecendo aqui?”
Talvez seja TPM. Talvez seja ansiedade. Talvez seja fome. Talvez seja cansaço. Talvez seja apenas vontade de comer algo prazeroso. E talvez, em determinadas situações, seja mesmo uma tentativa de justificar uma escolha que não está alinhada ao objetivo que estabelecemos.
Reconhecer isso não exige punição. Exige honestidade.
Novos hábitos não são construídos só na segunda-feira, quando estamos motivados e fazendo planos. Eles são construídos também na quarta-feira, quando a motivação diminuiu; na sexta-feira, quando queremos relaxar; e no fim de semana, quando começam a surgir as explicações para aquilo que fazemos.
No fim das contas, a pergunta desta semana pode ser feita para qualquer pessoa: quem foi que disse que era a TPM, a retenção, a ansiedade ou o “eu mereço”?
Antes de procurar uma explicação fora de nós, vale prestar atenção na história que estamos contando para nós mesmos. 🙂

