Colocar a mochila nas costas e conhecer outro país pode ser uma oportunidade de rever ideias, compreender outros modos de vida e descobrir interesses. Mas atravessar uma fronteira não garante essa abertura. Diante do desconhecido, também podemos passar a viagem procurando motivos para confirmar que o nosso jeito de viver continua sendo o melhor.
É essa postura que está em discussão no Quem foi que disse?: quando viajamos, estamos disponíveis para aprender ou queremos apenas encontrar novas provas para as opiniões que já tínhamos antes de sair de casa?
Assista o novo episódio:
A pergunta aparece nas situações mais comuns. No restaurante, quando a comida chega diferente do esperado. Na conversa em que alguém apresenta uma visão que nos incomoda. No encontro com costumes que parecem estranhos porque não fazem parte do nosso cotidiano.
A primeira reação pode ser comparar: “Na minha cidade é melhor;”; “No Brasil não é assim.”; “Como alguém consegue viver desse jeito?” Comparar faz parte da experiência. O problema começa quando a comparação encerra a curiosidade. Já decidimos o que aquilo significa antes de procurar entender.
Há uma diferença entre dizer “não gostei” e concluir “isso não presta”. A primeira frase reconhece uma experiência pessoal. A segunda transforma o próprio gosto em medida para todo mundo.
Essa distinção também vale para a impressão que fazemos de um lugar. Uma chegada difícil, uma noite maldormida ou um atendimento ruim podem marcar a experiência. O que sentimos merece atenção, mas uma experiência desagradável não dá conta de explicar uma cidade inteira. Ainda há pessoas, histórias e circunstâncias que desconhecemos.
Ter abertura não exige gostar de tudo, concordar com qualquer costume ou abandonar o senso crítico. Podemos reconhecer problemas, recusar situações e sustentar nossas posições. A questão é conseguir explicar por que pensamos assim e admitir a possibilidade de que falte alguma informação.
Isso exige disposição para ouvir uma resposta que não estava no roteiro; perguntar como determinado hábito surgiu; conversar com quem vive ali; perceber que a pessoa à nossa frente tem razões e referências que uma passagem rápida pelo lugar não permite conhecer.
Também exige atenção ao que escolhemos registrar. Podemos voltar de uma viagem com uma coleção de exemplos de como “aquele povo” é mal-educado, organizado, frio ou acolhedor. Mas quantos encontros sustentam essa conclusão? E quais experiências deixamos de lado porque não combinavam com ela?
A mesma pergunta cabe nas viagens perto de casa. Há quem atravesse oceanos e converse apenas com pessoas que pensam de maneira semelhante. Há quem conheça outra realidade ao visitar um bairro, ouvir um colega ou aceitar um convite que normalmente recusaria.
Sair da bolha envolve permitir que esses encontros tenham alguma consequência sobre o que pensamos. Em certas ocasiões, vamos reforçar uma opinião. Em outras, perceber que ela era apressada. E haverá situações em que voltaremos sem uma resposta pronta.
No retorno, entre as fotos e as histórias que contamos, cabe uma pergunta: o que conheci nessa viagem que me fez rever alguma coisa?
Ela pode revelar mais sobre a experiência do que a quantidade de lugares visitados.

