Aida Franco de Lima – OPINIÃO
O caso ocorrido em 15 de janeiro, envolvendo quatro delinquentes, menores de 18 anos, relativo ao espancamento, tortura e posterior eutanásia de Orelha, um cão comunitário de dez anos que era cuidado por moradores da Praia Brava, em Florianópolis, é revoltante. Mostra o nível de doença de parte de nossa sociedade e o resultado da educação permissiva de pais que compram tudo que podem com o dinheiro para seus filhos mimados; que estudam nas escolas mais famosas. Mas que não são capazes de comprar caráter. Não conseguem educar os filhos para que esses não cometam crueldades com seres indefesos. Como fizeram com um cachorro idoso, que queria apenas brincar e recebeu marteladas e inclusive um prego na cabeça.
Além de Orelha, os envolvidos também são “suspeitos” (o direito exige esse termo) de tentar afogar Pretinha, que está internada em uma clínica com graves sequelas, e Caramelo, que foi adotado pelo delegado-geral da PC-SC, Ulisses Gabriel, no último dia 20 de janeiro. As casinhas ondem viviam os animais, hoje, estão vazias, e os vizinhos do entorno que os cuidavam, cheios de tristeza.
O fato está repercutindo intensamente nas redes sociais, com inúmeros artistas e autoridades exigindo justiça, pois sabemos que se tal violência tivesse sido promovida por algum adolescente de pele negra, pobre e morador da periferia, esse supostamente estaria recebendo as medidas socioeducativas que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) permite. Porém, sendo os envolvidos meninos brancos, ricos e moradores de bairros nobres, são protegidos por pertencerem a outra casta social.
- Um dos rapazes foi premiado com uma viagem à Disney no dia seguinte pela família e junto a outro, para posterior intercâmbio nos EUA. Há inúmeras denúncias de coação por parte dos pais, empresários e influentes em Florianópolis, para que testemunhas silenciem. Um porteiro que seria testemunha foi ameaçado com revólver pelo pai e tio de um dos envolvidos. A síndica, amiga da família, afastou-o. A juíza do caso, depois de uns dias, declarou-se impedida de atuar. Há a informação de que um dos envolvidos já foi expulso da escola em razão de brigas. Um deles deverá mudar-se para a Austrália para morar com um parente.
A Polícia Civil investiga o caso e, nesta segunda (26), cumpriu mandados nas residências de familiares, acusados de atrapalhar as investigações, dos quatro jovens envolvidos no caso, recolhendo celulares, outros aparelhos eletrônicos e, inclusive, droga. A ação foi realizada por meio da Delegacia de Proteção Animal (DPA) e da Delegacia de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei (Deacle), além de contar com o apoio da Coordenadoria de Operações com Cães.
Talvez o crime contra Orelha ganhe mais repercussão que outras violências que invadem o noticiário e muita gente não entenda o porquê de tanta comoção se eram “só” animais, sendo que animais são abatidos todos os dias. Contudo, o buraco é mais embaixo. Orelha foi torturado por puro sadismo. Já escrevi aqui sobre o vínculo entre violência animal e psicopatia. E esse é um exemplo clássico. Não há justificativa alguma, além do sadismo, diversão com a dor alheia e falta de empatia, quando quatro garotos com maioridade suficiente para saírem sozinhos para as ruas se juntam para torturar animais.
Hoje o fazem com animais — e os estudos indicam que a tendência é escalar tal violência para vítimas humanas. Estamos vendo uma explosão de casos de feminicídios, e se houver uma pesquisa facilmente haverá a comprovação de que quem é violento com a família também comete maldades com os animais. É uma forma de provocar dor, ainda maior, no outro. Recentemente, em Cianorte, um homem, matou um filhote de cachorro e o envioufotos para sua ex-esposa, como forma de atingi-la.
Esse caso de Florianópolis não pode ser em vão. Assim como não foi em vão a morte de Manchinha, espancado por um segurança da rede Carrefour em Osasco em 2018. A empresa pagou R$ 1 milhão para um fundo em prol dos animais. Não trouxe a vida de Manchinha de volta, mas, se para uma ala da sociedade que não tem consciência para doer, que o caso do Orelha doa — e bastante — nos bolsos dos envolvidos. E que nunca mais sejam esquecidos, que sejam sempre lembrados. Até mesmo para a segurança das pessoas do convívio deles.
Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do H2FOZ.
Quer divulgar a sua opinião. Envie o seu artigo para o e-mail portal@h2foz.com.br

