Por Angela Maria Terribile
Pertencer é uma das necessidades mais profundas do ser humano, mas também uma das mais complexas. Crescemos acreditando que o pertencimento é um lugar pronto — que a família de origem, por natureza, nos dará todo o acolhimento, a segurança e a proteção necessários para guiar nossos medos enquanto seres em formação. Mas nem sempre é assim. Como costumam pontuar a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa e o psicólogo Rossandro Klinjey, as famílias são feitas de pessoas imperfeitas, carregadas de suas próprias marcas, ignorâncias emocionais e limitações. Muitas vezes, o lugar que deveria ser porto seguro é onde aprendemos, silenciosamente, a nos encolher.
Aprendemos desde cedo a engolir o choro, a evitar o conflito e a pedir desculpas até quando nós somos o lado machucado da história. Cria-se o mito de que sentir dói no outro, de que expressar a própria dor é um peso ou uma fraqueza. Guardamos tudo. Só que a dor não desaparece com o silêncio; ela apenas cresce e se aloja na alma.
Então a vida avança. Ninguém nos entrega um manual ensinando como construir uma família. Ela simplesmente acontece. Chegam o casamento, os filhos, as responsabilidades. De repente, nos vemos na missão de educar e acolher, mesmo quando nós mesmos ainda não sabemos direito quem somos — imersos em traumas antigos, sonhos interrompidos, desejos sufocados e inseguranças que insistem em reaparecer. É o desafio de ser mãe e pai enquanto ainda se busca curar a criança que fomos.

Contudo, maturidade emocional — um tema tão caro a Dra. Ana Beatriz e Psicólogo Rossandro Klinjey — começa no momento em que compreendemos uma verdade libertadora: nem toda ausência é rejeição, e nem toda pessoa que não soube permanecer define o nosso valor. Algumas pessoas vão embora, escolhas falham, ciclos se encerram. Transformar cada partida em uma sentença contra si mesmo é uma armadilha. A vida não nos pede perfeição; pede presença e disposição para aprender, um dia de cada vez.
Pertencer não significa nunca desmoronar. Em um relacionamento saudável, expressar o que machuca não deve ser motivo de medo, e quem ama de verdade não transforma a dor do outro em exagero. Encontrar um parceiro que olhe nos olhos e diga “você pode contar comigo” — como no abraço seguro de um casamento de 18 anos construído no combate diário — é entender o verdadeiro sentido do acolhimento. Acolher e ser acolhido é libertador.
É essa humanidade que ensina a nossa casa. A minha primogênita que nos vê acertar, errar, desmoronar, reparar e recomeçar não aprende sobre a vida através de uma maquiagem de perfeição, mas através da verdade do afeto. Ao receber acolhimento em seus dias difíceis, ela aprende a oferecê-lo de volta quando percebe que a mãe também precisa.
O choro ao falar do que dói não é drama; é o corpo finalmente entendendo que não precisa mais carregar o mundo sozinho. O verdadeiro pertencimento não nasce de um lugar onde nunca fomos feridos, mas do espaço seguro onde finalmente podemos ser inteiros.
Muitos de nós carregamos na vida adulta o peso de esperanças não atendidas da infância. Guardamos a expectativa silenciosa de um pai ou de uma mãe ideais — seres irretocáveis que deveriam ter tido todas as respostas, todo o acolhimento e a proteção perfeita. No entanto, como costuma enfatizar o psicólogo Rossandro Klinjey, o verdadeiro amadurecimento só começa quando conseguimos humanizar nossos pais.
Humanizar não significa concordar com os erros cometidos ou fingir que certas atitudes não machucaram. Significa enxergar aqueles que nos criaram como pessoas reais, com suas próprias limitações, dores, traumas e desconhecimentos. O perdão estruturado surge exatamente aí: não como um atestado de aprovação para o passado, mas como uma decisão consciente de libertar a si mesmo do peso do ressentimento.

Quando saímos do papel de filhos feridos à espera de uma validação que talvez nunca venha, assumimos o compromisso de “maternar” e “paternar” a nós mesmos. Se faltou escuta, acolhimento ou afeto na infância, cabe ao adulto do presente oferecer essa proteção à sua própria história. Isso exige aprender a validar o próprio choro, impor limites saudáveis em nossas relações e parar de exigir do cônjuge, dos amigos ou dos filhos o amor e o respeito que nós mesmos ainda não nos damos.
A dor vivida na infância não precisa ser uma sentença ou uma condenação eterna. As marcas do passado, quando acolhidas com maturidade, deixam de ser feridas abertas e se tornam cicatrizes. É a partir delas que desenvolvemos nossa maior fonte de empatia, sabedoria e consciência — capacitando-nos a construir lares mais seguros, relacionamentos mais genuínos e uma maternidade muito mais leve e amorosa.
“Perdoar não é esquecer o que feriu, mas escolher não deixar que o erro do outro continue definindo quem você é.”
Você já reparou como hoje em dia tudo é descartável? Se um copo quebra, a gente joga fora. Se o celular trava, a gente quer trocar. O problema é que fomos levando essa lógica para coisas que não têm preço: nossos relacionamentos, nossos empregos, nossos sonhos e até a nossa própria paciência.
Inspirado nas reflexões do psicólogo e palestrante Rossandro Klinjey, vale a pena parar para pensar sobre o que ele chama de “A Difícil Arte de Permanecer”.
A tentação de desistir na primeira curva
Hoje em dia, ao menor sinal de poeira ou complicação, a primeira ideia que vem à cabeça é: “Vou largar tudo e ir embora”.
Terminar um namoro na primeira briga, pedir demissão no primeiro desentendimento com o chefe, abandonar o curso quando a matéria fica difícil… Parece que fugir resolve. Mas Rossandro Klinjey lembra uma coisa muito simples: “para onde quer que você vá, você leva a si mesmo”. Se a gente não aprende a resolver as coisas onde está, vai acabar encontrando os mesmos problemas no próximo lugar.
“A vida de verdade não tem botão de ‘pular anúncio’. Tem dias que são chatos, cansativos e difíceis, e tá tudo bem.”
Nenhum casamento comemora bodas de prata sem ter passado por dias de silêncio e paciência. Nenhuma carreira profissional bonita é construída trocando de área a cada seis meses.
Permanecer não significa que tudo é perfeito ou maravilhoso o tempo todo. Significa entender que a vida de verdade não tem botão de “pular anúncio”. Tem dias que são chatos, cansativos e difíceis. A maturidade chega quando a gente aprende a atravessar esses dias sem jogar a toalha.
Ficar por escolha, não por medo
Agora, atenção: permanecer não é aceitar maltrato. Existe uma diferença enorme entre:
- Permanecer com propósito: Lutar por um casamento que vale a pena, insistir num trabalho honesto que vai dar frutos, continuar estudando mesmo cansado.
- Ficar por comodismo ou medo: Aguentar falta de respeito ou humilhação só porque tem medo de ficar sozinho ou de tentar algo novo.
Saber a hora de ficar exige coragem; saber a hora de ir embora também. Mas a sabedoria está em não fugir só porque deu um pouquinho de trabalho.
Olhando para o espelho
Por fim, a arte de permanecer também serve para o jeito como você cuida de você. Quantas vezes você já desistiu de si mesmo porque errou ou não conseguiu fazer tudo certo?
Aprender a permanecer é também ter paciência com o seu próprio tempo. Errou hoje? Recomece amanhã, mas continue caminhando. O segredo das grandes conquistas não é a velocidade, é não parar no meio do caminho.

